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Depoitre: Ceci n'est pas un flop

O FC Porto ganhou ao Vitória de Guimarães (3-0) num jogo em que Nuno Espírito Santo mudou as coisas e fez alinhar dois pontas-de-lança no início. E resultou, com a ajuda do belga Depoitre que é mais do que parece

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Sobre a humanidade:

Kevin Nguyen e TJ Khayatan fartaram-se do que estavam a ver no Museu de Arte Moderna de São Francisco - aquilo, em boa verdade, não lhes dizia nada - e decidiram fazer arte pelas suas próprias mãos. Primeiro, puseram um casaco desportivo no chão; depois, um boné de beisebol; e, por fim, como nada resultava, Kevin tirou os óculos e pousou-os com jeitinho, junto a uma parede branca.

Deram uns passos atrás e deixaram que a instalação fizesse o caminho até aos apreciadores e connoisseurs. E fez. Os óculos graduados da Burberry’s do Kevin foram fotografados por gente ajoelhada perante aquela peça de arte. Ora, esta é uma história verídica e só vos estou a contá-la porque chegou aos jornais e deu lugar a um chorrilho de opiniões sobre o que é e o que não é arte num mundo em que num dia tudo é bombástico e imprescindível - e no seguinte banal e dispensável.

Não é só a moda que é passageira, é a própria existência.

Mas, para o que me interessa aqui, acrescento outra moral: nós vemos aquilo que queremos ver e não o que realmente vemos. Vejamos. Quando vimos Depoitre a ser apresentado, vimo-lo com a vista condicionada pelo pouco que tínhamos visto dele. E, no entanto, ali estava ele, grande e alto, feito como um tanque ou como um carro de assalto, pronto para encostar o corpo nos adversários que dificilmente o aguentariam. Como Magritte, Depoitre também é belga e, assim, aqui vai: Ceci n'est pas un flop.

Preferimos ver um cepo e não um tipo útil no jogo de cabeça, que dá folga aos colegas de equipa porque segura os centrais inimigos, o que lhe permite, vejam lá, assistir os centrais amigos - como Marcano, que fez o golo inaugural no Dragão, depois de Jorge Sousa ter anulado o de André Silva por suposta mão. Em casos destes, não há hipóteses nem morais, porque cada um vê o que quer ver e o árbitro viu que não foi de propósito.

E assim, com aquele golo, o quarto de um defesa do FC Porto este ano (depois dos dois de Felipe e do de Layún), a equipa de Nuno Espírito Santo libertou-se e mostrou-nos que havia mais nela do que aquilo que se pensava. Ou se vislumbrava. Lá está, estávamos provavelmente condicionados por um mercado de transferências que correra mal (porque não se vendera bem), pela saída de Antero Henrique, pela derrota em Alvalade, pela ausência estranha de Brahimi, e pela falta de soluções no plantel. E quando olhamos para o onze e reparámos que Depoitre ia jogar com André Silva e que o Porto alinharia sem extremos, achámos que tudo lhes iria correr mal diante do Vitória de Guimarães de Pedro Martins, um treinador que gosta de moer o juízo aos grandes.

Foi assim: André André à direita para equilibrar, Danilo a destruir jogo atrás de Óliver que criou muito, Otávio à esquerda a procurar o um para um, André Silva a viajar nas costas de Depoitre - e, de repente, tudo fez sentido porque os chakras se alinharam. Logo no arranque da segunda parte, Óliver fez o 2-0 num remate às duas tabelas com Otávio; depois, João Aurélio fez um autogolo e fechou o encontro a 3-0.

A partir desse momento, o jogo passou a joguinho, porque o Porto limitou-se a gerir a coisa à vista, com os olhos no relógio e a pensar no encontro com o Copenhaga (quarta-feira) que, em condições normais, lhe dará três pontos e €1,5 milhões no cofre.

O que era mau passou a ser bom, mas isto sou eu, que posso não estar a ver bem as coisas.

  • Em direto: FC Porto 3- 0 V. Guimarães (final)

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    Os últimos dias não têm sido fáceis no Dragão, pelo que uma vitória frente a um adversário difícil poderá dar um fôlego diferente numa semana que antecede o arranque da Champions. Ivan Marcano, Oliver Torres e João Aurélio (autogolo) fizeram os golos que deram a vantagem aos portistas. Agora, venha o Copenhaga