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Nuno, o homem que roda em vez de repetir

O oitavo onze diferente em nove jogos chegou para o FC Porto ganhar, mesmo começando a perder. Os dragões até se soltaram na primeira parte, que teve dois golos de André Silva, mas depois retomaram a lentidão desta época e mostraram como são poucos os hábitos que jogadores partilham

Diogo Pombo

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FRANCISCO LEONG

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Há um dia na semana, às vezes são dois, em que um homem decide sobre a vida de vinte para, no fundo, dar um rumo à vida de todos. Ser treinador é tramado, nem que seja pela lista de tarefas que tem na cabeça: tem de organizar treinos, pensar em exercícios, ficar de olho no que os jogadores fazem, matutar sobre isso, ler relatórios, estudar adversários e podia estar aqui a escrever mais linha as coisas que um treinador tem de fazer. No fim de tudo e mais alguma coisa está sempre a mesma tarefa, que é escolher quem joga.

Nuno Espírito Santo está farto de o saber.

A teoria mais básica de todas, a que não vem nos livros, é a que nos faz pensar que devem jogar os melhores em cada posição. Ponto final. Mas, puxando um bocadinho pela cabeça, é preciso ter em conta que há jogadores que se ligam melhor entre eles, sem serem necessariamente os melhores. Ou que o melhor em cada posição pode não ser o melhor para anular o adversário ou fazer-lhe mal. Como já estava farto de repetir a mesma palavra, e porque vi o treinador do FC Porto a escolher o oitavo onze diferente em nove jogos, perguntei a João Nuno Fonseca, que também é treinador e já teve umas lições com Pep Guardiola, o que achava de onzes repetidos.

Ele fala-me em microciclos, palavra que se usa quando uma equipa tem três jogos em oito dias, como os dragões vão ter. Em recuperação de jogadores. Na gestão do esforço consoante a forma como o adversário joga ou nos pressiona. Lembra a competição em que se joga e na vontade, ou não, de querer valorizar um jogador (sim, eles também pensam nisso). Apesar de dizer que “ainda dava para falar em muito mais”, ele acaba a resumir que “no geral, rotinas criadas com um 11 base e que ganha, o ideal será manter o mais constante possível porque a interacção já foi criada”. Estou eu, e ele, a pensar nisto quando a equipa que começa o jogo com quatro homens diferentes sofre um golo.

A bola pára, dá um livre a Fábio Espinho, que cruza a bola para a área e a marcação à zona, que vive de hábitos, de atacar a bola e de manter os espaços, falha. Deixa o central Henrique sozinho e o Boavista sorri cedo (4’), perdendo a timidez para se montar da forma como as equipas com piores jogadores se encolhem para protegerem o pouco que têm.

Passa a defender com todos, junta os onze atrás da linha da bola e poucos metros à frente da própria área. Tentam encurtar o campo onde o FC Porto pode jogar, porque é por entre essa gente toda que eles têm de passar para chegarem à baliza onde está um azeri.

Esta era a altura da partida em que uma equipa rodada, com jogadores habituados a estarem juntos, com ritmo, movimentos mais decorados do que forçados, se chegaria à frente. Os dragões chegaram, mas a bola ia para o lado e para trás, com a velocidade de uma idosa a parar o trânsito numa passadeira.

O 4-4-2 à antiga formou um losango no meio e pôs Óliver perto de Otávio. O espanhol encarregava-se de acelerar a bola para o brasileiro e este puxava pelas ideias. O primeiro foi quem mais passes fez no ataque enquanto o segundo, a gingar no campo, sacava trivelas, fintas de corpo e remates bloqueados. As tais rotinas viam-se entre estes dois. E André Silva à espera.

O miúdo corria, desmarcava-se, cansava-se em ser um fora-da-lei fugitivo aos centrais do Boavista. Tentava tudo. Mas a bola chega-lhe quando ele espera, quase quieto, quando um defesa corta a bola e Otávio a mata na área; não fazendo o que todos o viam a fazer, o brasileiro pica um passe e é assim que encontra o pé esquerdo de André Silva (19’) que fez o terceiro golo no campeonato.

Óliver e Otávio ganhavam mais pica, a equipa viciava-se ainda mais em dar-lhes a bola e todos avançavam uns metros. Perceberam que o Boavista não ligava três passes seguidos até à linha do meio campo e havia espaço para a bola estar sempre com eles. O FC Porto chegou a ter 79% do tempo da bola e Danilo, em dois cantos, cabeceia à barra e, depois, com demasiado respeito à regras, atira a bola contra a relva e ela passa bem por cima da baliza.

O jogo dá ao FC Porto a rotina de carregar e pressionar muito quando fica sem a bola. Os axadrezados minguam, cansam-se, deixam de pensar como deve ser. Como Henrique, que derruba Otávio na área enquanto o brasileiro o finta junto à linha de fundo. O penálti dá a André Silva outro golo (41’) e outra alegria à equipa, ao intervalo. Demasiada, porque deixa de esconder a falta de rotinas que tanta troca e baldroca lhe parece causar.

FRANCISCO LEONG

A equipa de Nuno Espírito Santo não funciona como um bloco, que é quando as linhas dos defesas, médios e avançados se mantêm juntos e com poucos metros entre eles. Poucos estão no sítio certo para ganharem segundas bolas. Os laterais perdem o pulmão para o iô-iô do avança e recua. Os pézinhos de lã de Óliver têm menos alvos em movimento para passarem a bola. Otávio agarra-se demasiado a ela e são mais as faltas que sofre do que os passes que dá.

No meio de tudo isto, que é muito pouco para o FC Porto, lembro-me de outra coisa que o João Nuno Fonseca me diz: “Há que não esquecer que o mesmo momento do jogo não volta a acontecer outra vez, ou seja, quero com isto dizer que o jogo é um ‘organismo vivo’".

O Boavista parecia morto, incapaz de fazer mais do que fechar-se a defender e esperar em acertar o primeiro passe quando recuperava a bola. Só que tanta lentidão e marasmo e seca de ideias do outro lado deixou os axadrezados com rédea para jogar no Dragão. Começaram chegar com jogadas à área portista, os passes já iam muito além do meio campo, Felipe já se desdobrava em faltas e em dobras aos laterais. Sobretudo a Layún, que passou a ver mal com os três nós cegos que Bukia lhe foi dando.

Só que o Boavista, mesmo sendo melhor face ao pior que os dragões estavam a ser, não fazia o suficiente para rematar a bola à baliza. Tão pouco o FC Porto o fez e teve que ser um cruzamento, saído com mais força do pé esquerdo de Alex Telles, a parar o cérebro de Agayev. O guarda-redes azeri achou que devia agarrar uma bola que era para socar e acabou por a desviar para a própria baliza. É o que dá ter na baliza o melhor jogador azeri de 2008, homem com mais de 40 jogos pela sua seleção – uma vitória que engana, por parecer fácil e, na realidade, ter sido aborrecida.

Não sei se isto tem a ver, ou não, com jogadores que se rodam e não se repetem. Agora era o momento em que perguntaria isto a Nuno Espírito Santo.

  • Em direto: FC Porto 3-1 Boavista (fim)

    FC Porto

    Já se joga no Dragão. Estamos em direto na Tribuna Expresso. O central Nuno Henrique fez o primeiro, logo aos 5'. O miúdo André Silva empatou aos 19', com o seu terceiro golo no campeonato e, aos 41', marcou outra vez, de penálti. As mãos de manteiga do guarda-redes do Boavista deram o terceiro, aos 87'.