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Este FC Porto gostava, mas não funciona porque blá, blá, blá, blá

A equipa de Nuno Espírito Santo foi a Leicester perder (1-0) com um golo do homem que melhor conhecia. Os dragões entraram no jogo do campeão inglês - a quererem jogar rápido, para a frente, com risco - e sofreram até começarem a fazer as coisas com calma. Foi tarde e, agora, o FC Porto está com um ponto na Liga dos Campeões ao fim de duas partidas

Diogo Pombo

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Shaun Botterill

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Blá, blá, blá, blá. As pessoas usam estas três letras juntas, repetidamente, quando têm muito para dizer, mas, em suma, isso não já é conhecido e toda a gente sabe do que se trata. É a magia de termos expressões que significam bastante e custam pouquíssimo a dizer. Quem nos ouve, ou lê, percebe logo a ideia. Encontrar um treinador que, ao falar de todos os outros treinadores, usa o tal blá, blá, blá, blá depois de dizer que eles querem ter a bola. A ideia que fica, portanto, é que ele vê a vontade de ter sempre a bola como uma baboseira, coisa sem sentido. Porque todos sabemos que nem o Barça treinado por Guardiola, fundador dos viciados anónimos em posse de bola, o consegue.

Esta expressão saiu da boca de Nuno Espírito Santo quando, numa entrevista, lhe perguntaram como achava que se controlava um jogo de futebol. O treinador, fazendo pouco do ter a bola e do uso que se lhe dá, preferiu ir pelo caminho do processo defensivo. E explicou qualquer coisa como isto: uma equipa pode jogar com um olho no momento em que vai perder a bola, para ter outro preparado para quando for altura de a recuperar no sítio certo que, necessariamente, será o local errado para o adversário. É uma postura malandra, como se uma chita se mascarasse de antílope no meio da pradaria para as presas não suspeitarem.

Nuno deu a ideia de querer ser assim e ter uma equipa que roubasse bolas onde quisesse e atacasse, defendendo. A forma como o explicou é engraçada, já que parecia estar a falar da equipa que conseguiu ser campeã inglesa a fazer isto. O português sabia-o, só podia, pois nessa entrevista falou do amor pela Premier League e dos tempos em que, desempregado, contava a observá-la nos estádios, em Inglaterra. E blá, blá, blá, blá, porque o FC Porto não pareceu conhecer o Leicester, pela maneira como caiu na tentação de querer usar a bola rápido e em passes arriscados.

Pressa, era o que os dragões tinham a mais. Queriam ser acelerados em tudo e nem Otávio ou Óliver, os pequenos que têm o dom de acalmar jogos com a bola nos pés, abrandavam. Nuno pedira antes uma equipa mandona e a fazer as coisas bem, mas os jogadores vendiam barata qualquer jogada que tentavam e quanto mais depressa tentavam jogar, mais rápido o Leicester tinha o que pretendia, a bola. E depois era simples: passá-la a Drinkwater, que, para eles, é uma espécie de Pirlo que só olha para a frente, para este arranjar maneira de a atirar para perto de Vardy ou Slimani. E a palavra é mesmo “perto”, e não para o “pé”, por o Leicester ter conseguido comprar ao Sporting um avançado que gosta tanto de correr, chatear e desmarcar-se nas costas dos defesas como o inglês que já lá tinha.

E tudo isto era feito com o menor número de passes possíveis. Como os três que contei assim que o Leicester roubou uma bola fácil a meio campo. Algúem a passou a Drinkwater (um), o médio levantou-a para o outro lado do campo (dois), Mahrez amansou-a com o único pé que sabe driblar da equipa e, a seguir, cruzou-a (três) para a cabeça desenfreada de Slimani, que apareceu nas costas de Felipe. O plano foi sempre o mesmo - deixar os dois cães raivosos, que só estão bem a sprintar, lá à frente, e soltá-los da trela com bolas nas costas da defesa portista e com o menor número de passes possível.

O FC Porto, teimoso, nunca lidou bem com isto e insista em tentar responder no jogo em que o Leicester é bom. Rápido, com intensidade, a olhar para a frente e a arriscar. Se isso resultasse, todos os outros clubes de Inglaterra não se estariam a rir neste momento do pouco que a equipa de Nuno Espírito Santo conseguiu fazer: um chapéu falhado de André Silva (3’) a tentar castigar uma saída à maluca de Kasper Schmeichel e um livre de Layún que sussurrou ao ouvido do poste (36’).

Como não conseguiam jogar o seu jogo - que, esta época, ainda não se percebeu bem qual é -, os dragões tentavam bater os ingleses no jogo deles. Estava a correr mal.

Shaun Botterill

O que aconteceu depois do intervalo podia ficar resumido num blá, blá, blá, blá, porque até Nuno Espírito Santo decidir alterar alguma coisa, a partida continuou na mesma. Vardy e Slimani conseguiam, sozinhos, obrigar os cinco homens com que o FC Porto saía a jogar (os defesas, mais Danilo) a errarem passes ou chutarem a bola para a frente. Ninguém punha gelo num ritmo que os dragões teimavam em ferver e os espaços apareciam para o Leicester ir contra-atacando. Vardy era um sprinter nas costas de Slimani e as jogadas em que o inglês apanhava a bola chegavam, quase sempre, perto da baliza de Casillas.

Esta tendência de o Leicester à espera, a atacar com tudo as segundas bolas, a provar com a eficácia também é demorar dois, três passes, a chegar aos avançados, só mudou perto da hora de jogo. Nuno tirou Adrián para Diogo Jota ir correr e pedir bolas e, sobretudo, chamou André André para deixar Hector Herrera jogar. O passo molengão e ginga calma do mexicano, que o costumam tramar, deram jeito. Os segundos em que tinha a bola acendiam a lâmpada na cabeça dos jogadores do Leicester, que recuavam, fechavam-se atrás e defendiam como sempre o fazem quando o adversário logra ter a bola.

Houve uma bola rematada pela relva por Jota que Schmeichel parou. Um pontapé saída da bota de Herrera que o dinamarquês com guarda-redes no sangue também travou. Ainda se viu uma bola no poste, disparada de primeira por Jesús Corona. Tudo se originou durante uns últimos 20 minutos em que se viu uma equipa com calma. A tabelar passes, com jogadores de cabeça erguida, a não se precipitarem e a tentarem tirar adversários das posições com trocas de bola. A usar a cabeça para pensar. O problema é que esta fase apareceu tarde e durou pouco tempo.

Quem acorda tarde já sabe que é perseguido pelo prejuízo. E derrotado por ele. Nuno Espírito Santo muito disse ter observado, mas que, durante três épocas em Portugal, marcou seis golos em oito jogos feitos contra o FC Porto. Ou seja, a novidade nem veio daqui. Nem da relação entre os dragões e campos ingleses, onde já foram por 17 vezes e continuam sem ganhar. O treinador que adora “recordes por quebrar” viu este a alongar-se e voltou a ver como a equipa não encanta nem funciona mais de 45 minutos seguidos.

Porquê? Aqui não é possível o blá, blá, blá, blá, mas vamos por exclusão de partes: por rodar jogadores não terá sido. Esta foi a primeira vez esta época que o FC Porto jogou com os mesmos onze da partida anterior.