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Os lesados do NES

Nuno Espírito Santo vai sentar-se hoje (20h30, Sport TV1) no pior banco da era Pinto da Costa para receber o Sp. Braga do antecessor José Peseiro. Escolhido pelo cada vez menos soberano líder do FC Porto para redimir um clube em agonia, NES arrisca o lugar caso não recupere o 3º lugar na Liga e não vença o Leicester quarta-feira. A lista de lesados do contestado treinador já dá para formar uma equipa (e pode sempre piorar)

Isabel Paulo

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty

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À 12ª jornada, o autor do grito 'Somos Porto' delapidou os créditos recuperados no empate com o Benfica (1-1), cada vez mais mal-parados na sequência de cinco nulos em três frentes: Taça de Portugal, eliminado pelo Chaves, Belenenses fora para o campeonato e em casa para a Taça da Liga.

Humildemente, Nuno tem apelado ao apoio da massa associativa, que já começou a reagir com assobios e lenços brancos aos pedidos aos pedidos de mea culpa pelos 430 minutos de seca. Há um mês sem festejar uma vitória - a última foi ao Brugges pela margem mínima - os principais lesados de NES são os adeptos que não ouvem a equipa responder positivamente ao cântico “Força Porto, faz um golo!”.

Mas na lista dos lesados conta-se um 'onze' negro, que tem Pinto da Costa na linha avançada, vítima das suas próprias ações e da tentação do poder perpétuo. E jogadores como Helton, Brahimi, Aboubakar - emprestado ao Besiktas e que já disse não quer voltar ao Dragão, Rubén Neves, Layún e João Carlos Teixeira, além dos acionistas, Antero Henrique e Fernando Gomes, que não deixará de ser chamado a prestar contas caso não evite o crash até ao final da época, depois do histórico prejuízo de € 58,4 milhões do último exercício.

Pinto Costa

Após 34 anos de liderança absoluta, o decano dos presidentes deixou de ser indiscutível entre sócios e adeptos, já apontado como principal responsável pelo severo jejum de títulos dos últimos três anos. A sua fama de exímio garimpeiro de treinadores, manchada por repetidas apostas ao lado desde Paulo Fonseca, Luís Castro, Lopetegui (o único que aqueceu o banco durante mais de uma época) e Peseiro, está a ser enterrada por NES, o anunciado redentor do Dragão que teima em não passar das promessas aos atos.

Reeleito em abril num escrutínio pouco secreto e longe da unanimidade de outros tempos (79% dos votos), a sucessão de Pinto da Costa, até há pouco tabu, já se discute, embora ainda ninguém se atreva a pôr o dedo no ar. Não por uma questão de fé numa retoma a prazo mas por respeito aos créditos dos seus 58 títulos no futebol, conquistados aquém e além fronteiras.

Os nomes dos candidatos sombra são os do costume: António Oliveira, Vìtor Baía e os dois Fernando Gomes (o líder da FPF e o ex-presidente da Câmara do Porto e administrador da SAD). Miguel Sousa Tavares na sua crónica de terça-feira n' 'A Bola' escreveu que “o FC Porto precisa urgentemente de sangue novo, de nova gente e novas ideias....”. No programa “Prolongamento”, Manuel Serrão lamentou que ninguém se assuma como alternativa.

Um cenário que irá durar, se Pinto da Costa não abdicar. Oliveira, obreiro do tetra e maior acionista individual da SAD, já reafirmou que Pinto da Costa será sempre o seu presidente, Vítor Baía sabe que se avançar contra o seu ex-presidente se irá queimar, o mesmo sucedendo com um e outro Fernando Gomes: o primeiro manda a prudência e a razão que não troque o cadeirão de sonho federativo pela cadeira elétrica do Dragão; o segundo já conheceu tempos de maior popularidade, marcado por ter entrado na história como validador do maior prejuízo de sempre nos cofres portistas.

Adeptos

© Reuters Staff / Reuters

Os principais lesados por Nuno são os adeptos portistas. A mística, que prometeu restaurar, ficou-se pela repetição do “somos Porto” nas conferências de imprensa antes dos jogos, não chegando nunca a contagiar o balneário. A expetativa de abrir as portas ao reatar do bom relacionamento com o super-empresário Jorge Mendes, de que foi o jogador número um, também ficou no tinteiro. A esperança do regresso aos títulos, após três anos de jejum, ameaça esfumar-se antes do Natal, se a equipa não regressar aos golos no jogo de hoje no Dragão com o Braga, em que está em causa o 3º lugar - e não ganhar o match point para o apuramento na Champions com o Leicester na próxima quarta-feira. O ambicionado retorno às boas exibições esbarra na sua teimosia de jogar num 4x4x2 estéril, estranho ao ADN da equipa desde os gloriosos (e distantes) tempos da dupla Domingos/Kostadinov.

Acionistas

Quarta-feira, o dia seguinte ao empate na Liga CTT, bis a zero frente ao Belenesses, FC Porto voltou a cair em bolsa 5%, com as ações a baixarem para €0,57 euros. Em agosto, no inicío do campeonato, estavam nos €0,66, tendo as ações azuis e brancas atingido a sua cotação máxima da época a seguir ao apuramento, em Roma, para Liga dos Campeões - €0,76 euros -, o que significa que caíram desde então 25%, valendo em bolsa €12 milhões. O grande prejudicado dos remates ao lado da equipa de NES é o próprio clube, acionista maioritário e detentor de 74% da Sociedade Anónima. Os danos nos bolsos de Pinto da Costa , com 1,1% das ações, são mínimos, sendo os principais lesados bolsistas os irmãos Oliveira, António Oliveira é o maior acionista em nome individual (7,3%), seguido de Joaquim Oliveira (6,6%), dono da PPTV e parceiro da SporTV , de relações cortadas com Pinto da Costa desde que o FC Porto vendeu os direitos televisivos à MEO/Altice.

Helton

© Miguel Vidal / Reuters

O histórico guarda-redes e capitão do FC Porto foi a primeira vítima de NES. Após 11 anos ao serviço nos dragões, senhor de 18 títulos, jogou pela última vez na Taça de Portugal perdida sem honra para o Sporting de Braga. Soube do divórcio, que custou ao clube através de um seco comunicado da SAD, que informava que o FC Porto não contava com ele para a época 2016/2017, apesar de ter mais um ano de contrato.

Suplente de Casillas, o brasileiro continuava a ser uma das poucas referências do velho portismo no balneário, mas foi inexplicavelmente o treinador do famoso grito “somos Porto”, e que regressou a casa com a promessa de devolver a mística do Dragão, que o correu do banco.

Nos corredores da Torre das Antas, circula que Nuno fez saber a Antero Henrique ainda antes do estágio do defeso que não trabalharia com jogadores com quem tinha privado no balneário. Os adeptos só souberam, contudo, da controversa rescisão quando a SAD enviou para a CMVM o Relatório & Contas 2015/16, onde figurava que o pacote de indemnizações a Lopetegui, Peseiro e Helton, que custou €4,4 milhões.

A rotura caiu mal junto dos sócios, ao ponto de Rodolfo Reis ter afirmado que o “FC Porto perdeu os princípios”, acicatados pelo desabafo de Helton de que ficara a saber da rescisão pelos jornais, mesmo que uns dias depois tenha vindo a público dizer que afinal tinha chegado a acordo com Pinto da Costa. O embaraço da situação foi chutado pelo líder portista para cima dos administradores Fernando Gomes e Adelino Caldeira, os responsáveis pelos termos da rescisão, garantindo a separação amigável: “Acabámos a nossa conversa a tirar uma selfie com um retrato que eu tenho dele com o meu falecido dragão a servir de cenário”, afirmou ao 'O Jogo'.

Brahimi

Descartado durante a pré-época, o avançado perdeu o lugar para Otávio. Fora da montra em agosto, o internacional argelino detido em partes iguais pelo FC Porto e a Doyen Sports que não convenceu os pretendentes Arsenal, Liverpool, Galatasaray e Everton, caiu nos braços de Nuno, sapo que até hoje não digeriu. Um confronto no início da época com o treinador deixou-o fora de cena dois meses. Confinado ao banco em Chaves, fora dos convocados com o Copenhaga e Restelo, foi titular no jogo em casa para a Taça da Liga, empenhou contra o Belenenses mas sem efeitos práticos. É um dos vendáveis no mercado de janeiro, resta saber a que preço, apesar de a SAD ter colocado a fasquia da rescisão nos mirabolantes €60 milhões.

Adrián Lopez

© Rafael Marchante / Reuters

Depois de meia época emprestado ao Villarreal, em julho não fazia parte dos planos de NES, foi relegado para a equipa B, enquanto a SAD procurava uma solução para o seu futuro. Titular no início da época, tem sido queimado em lume brando entre a bancada e o banco. Chamado a jogo frente ao Belenenses para a Taça da Liga, o Ferrari desdenhado por Pinto da Costa em abril e imposto a Nuno na pré-época na Alemanha por falta de interessados, não consegue sair da garagem por falta de oportunidade e jeito quando o deixam entrar em campo. OFC Porto pagou €11 milhões por 60% do passe comprado ao Atlético de Madrid, blindado com uma cláusula de €60 milhões.

João Carlos Teixeira

Contratado a pedido de NES, tal como o improdutivo Depoitre, é outro dos supranumerários que pode ser emprestado no mercado de inverno. Estreou-se frente ao Belenenses aos 75 minutos no lugar do mal-amado Herrera, outros dos ativos em queda livre.

Rúben Neves

© Reuters Staff / Reuters

Deixou de ser titular com a saída de Lopetegui, tendo sido outro dos renegados a jogar em casa com o Belenenses. A jovem promessa portista debutou em agosto de 2014 frente ao Lille como o mais jovem português a disputar a Champions e é outro dos inconformados num balneário muito pressionado e que olha de soslaio para o treinador. As lágrimas de Rúben Neves, que voltou para o banco depois de aquecer no final do jogo da primeira mão com a Roma para entrar Evandro, foram um sinal só um sinal exterior do desconforto que se esconde no balneário. Para apaziguar tensões, foi já chamado a mediador João Pinto, o antigo nº 2 portista.

Aboubakar

Dispensado por NES, foi emprestado ao Besiktas e já avisou que não quer voltar ao Dragão. A saída do avançado camaronês foi uma das surpresas do defeso, estranheza que se adensa de cada vez que joga o belga Depoitre. Miguel Layún é outro dos mistérios de NES: é o melhor lateral do FCP e quem tem jogado são Maxi Pereira e Alex Telles.

Antero Henrique

A escolha de NES foi fatal para o delfim de Pinto da Costa, defensor da contratação de Marco Silva desde a vinda de Julen Lopetegui. O líder portista deu a benção à fação do filho Alexandre, apostada num banho de mística para purgar a falta de chama do Dragão das últimas três épocas. Perdida a guerra com o filho de Pinto da Costa, Antero ameaçou bater com a porta duas vezes - à terceira foi de vez. Desgastado pelo jejum de títulos e posto à margem na reconstrução do plantel, riscado por Nuno sob orientação do eterno amigo e empresário Jorge Mendes, o responsável pelo futebol portista durante década e meia renunciou a todos os cargos a 1 de setembro. A trapalhada Depoitre, contratado por €7 milhões ao Gent a insistência de NES e inibido de disputar o playoff da Champions, foi a gota de água.

Fernando Gomes

Na última Assembleia Geral, de apresentação das contas, segundo sócios presentes, Pinto da Costa pediu um aplauso para Fernando Gomes, mas a reação dos presentes foi fria.O administrador financeiro do FC Porto já afiançou a alguns sócios críticos da atual governação da SAD e inquietos com os €58,4 milhões milhões de prejuízos do último exercício que a salvação do clube da insolvência passa por vender, esta época, três a quatro jogadores por €100 milhões de euros. No lote dos ativos a transferir estão preferencialmente Brahimi, Herrera e Danilo, reservando o orgulho da nação portista, André Silva, só vendável em caso de força maior.

Os planos do ex-presidente da Câmara do Porto, um dos nomes apontados como presidenciável no cenário até há pouco tabu da sucessão de Pinto da Costa, adivinham-se, porém, cada vez mais furados face à desvalorização contínua do argelino e do mexicano.

Na apresentação dos históricos prejuízos do FC Porto, Fernando Gomes avançou que que o clube recebeu propostas num total de €95 milhões por Danilo, Herrera e André Silva, recusadas por opção, em aliança com o treinador, para não desfalcar o plantel. Em entrevista recente à ESPN, Pinto da Costa, apelidado de 'rei do mercado', confirmou a estratégia conjunta, garantido ofertas de aquisição de €30 milhões por Herrera, €25 milhões por André Silva e €40 milhões pelo campeão europeu.

Com a equipa em plena crise de resultados e obrigada a vencer ao Leiscester na próxima semana para não fazer depender de terceiros o passo em frente na Champions, a montra dourada de jogadores, a SAD arrisca mais cedo ou mais tarde vender em imparidade os seus melhores ativos. A confirmar-se o crash, alguém vai ter de pagar e a vítima mais à mão deverá ser Fernando Gomes. Pinto da Costa, cujo lema é que “os dividendos do clube são os títulos”, nunca segurou de resto por muito os seus homens das contas. E a separação nunca acaba bem. Que o digam os proscritos Fernando Gomes, presidente da FPF, ou Angelino Ferreira.