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Esqueceram-se de regar o pinheiro

Nuno Espírito Santo escolheu começar o jogo com Depoitre na frente, mas a equipa resolveu jogar de forma contrário ao que o belga pede - pelo centro, a dar-lhe passes com ele de costas para a baliza e sem fazer cruzamentos. Mas o FC Porto foi melhor e dominou até Marcano marcar. Depois desorganizou-se, abriu espaços, fez muitas faltas, o Feirense empatou (1-1) e, agora, os dragões estão obrigados a vencer para seguirem na Taça da Liga

Diogo Pombo

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JOSE COELHO/LUSA

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Um é miúdo, pouca barba tem, vai a todas e corre muito, às vezes demasiado. Como os pés são a melhor parte que tem no corpo e os membros em que mais jeito tem para tocar na bola, mexe-se muito para arranjar espaço e usá-los, ou para abrir buracos que outros utilizem. Ele desmarca-se e finta e remata dentro, perto ou longe da área, como tiver de ser, porque o jeito a que se chama técnica e talento lhe chegam para jogar assim. É o puto em quem todos veem um craque em potência, um pote de golos e um íman de expetativas.

O outro é um homem feito, a barba tão carregada quanto o peso que os músculos lhe dão ao corpo, e corre pouco. É mais de marcar um território que tem de ser dele, a área, onde tem de compensar os pés que apenas lhe asseguram os serviços mínimos num dia de greve com os quilos (91), o tamanho (1,91m) e a força que tem a mais do que muita gente. É o grandalhão a quem o senso comum, o mesmo que nos põe a achar que o futebol é feito para os rápidos, velozes, tecnicistas e espetaculares, vê como grande, tosco e feio.

Uma assunção que está tão errada como a equipa que, tendo um, ou outro, joga da mesma maneira.

É errado que um FC Porto habituado a ter André Silva não altere a forma de fazer a bola chegar à área quando o avançado que lá tem à espera é Laurent Depoitre. O belga, que, reescrevo, é grande, forte, pouco móvel, amante de área e de um jogo que seja direto para ele, passa uma primeira parte sem que uma bola seja cruzada com pontaria à sua cabeça ou a um dos pés.

O homem a quem a profissão manda olhar para a baliza e rematar-lhe bolas apenas toca na bola de costas para ela. Não se vira quando dá a tabela que Brahimi quer para dar um arco à bola que vai contra a barra (5’). Nem para segurar o primeiro que recebe fora da área (25’), onde o avançado do costume tem por hábito andar.

O avançado que, há dez dias, se estreia a marcar à cabeçada, num de enésimos cruzamentos com que a equipa o procura para remontar o jogo contra o Chaves, não recebe bolas a jeito. Os dragões jogam com os extremos virados para dentro, a pedirem passes ao centro, deixando espaço para os laterais avançarem junto às linhas. Brahimi e Corona não cruzam, Alex Telles e Maxi devolvem na relva os passes que recebem, e o FC Porto passa 45 minutos a ser melhor, a ter mais bola e a criar oportunidades, sim, mas todas de fora ou à beira da área. É o remate de Brahimi à trave, o pontapé de João Carlos Teixeira para a defesa de Vaná Alves, as duas bolas chutadas por Herrera que assustam.

Mesmo jogando a trote, sem obrigar o Feirense a esticar a equipa a defender e anulando tudo o que o adversário tenta fazer - que é pouco e se resume a tentativas rápidas de contra-ataque, com o menor número de passes possível -, a equipa de Nuno Espírito Santo controla e domina. Mas não atina.

JOSE COELHO/LUSA

O tino estaria no acelerar do ritmo com que os dragões montam jogadas, levam a bola de um lado ao outro, fazem os passes e, já agora, com que tentam encontrar, na área, um certo alguém. De preferência, com cruzamentos que o deixem fazer algo com eles. A segunda parte arranca e, ao longe, Hector Herrera vê alguém perto da marca de penálti, com demasiado espaço entre ele e os dois centrais do Feirense. O mexicano cruza a bola e encontra esse alguém, que baixa a cabeça à altura dos joelhos para a rematar (49’) e fazer o 1-0.

Esse alguém, contudo, não é Depoitre, que está fora da área. É Ivan Marcano, o central que por ali ficara durante a ressaca de um canto. A única bola que o avançado belga tem para ser rematada chega vinte minutos depois, cruzada por quem devia, mas menos cruza na equipa (Brahimi), que ele cabeceia sem acertar na baliza - nem na posição, por estar em fora-de-jogo. Os dragões continuam a ignorar os cruzamentos e o suprir da necessidade básica do avançado que têm em campo.

O FC Porto marca um golo e continua a ser melhor na bola, nos remates, nos ataques, nos cantos. Só comete o erro de abrandar o ritmo, de não procurar a baliza com a mesma urgência, e deixa de controlar o jogo em que era a melhor equipa a jogá-lo. Os médios chegam-se à área do Feirense e deixam de estar em sítios para precaver as alturas em que a equipa perde a bola. O adversário passa a ter mais espaço para pensar como vai sair em ataques rápidos.

Um desses ataques é parado em falta pelos dragões, como às vezes tem de ser, embora não no sítio onde se aconselha a ser feito. Dá falta mais perto do que longe da área de José Sá e o guarda-redes tem de saltar e dar uma patada para canto na bola que Platiny cabeceia para trás. Dez minutos passam, outra bola sai dos pés portistas, eles demoram a reagir, o contra-ataque do Feirense sai e, quando Maxi pára Luís Machado, a falta é ainda mais perto da área. A bola que, depois, Vítor Bruno cruza é desviada pela cabeça de Flávio Ramos e o golo do empate (74’) é de outro central.

O tempo que sobra é para vermos um FC Porto desorganizado. A não ligar jogadas com mais de quatro passes pela relva e a cruzar ainda menos bolas para a área onde Depoitre continua a ser figura de corpo presente, a mesma área que o Feirense protege com tudo como se este fosse um jogo de campeonato. O que não é tão estranho como facto de, até ao fim, quem ficar mais perto de marcar ser um Etebo, o nigeriano que bate um livre (86') colado à área após mais uma falta depois de tempo e que obriga José Sá a mais uma parada das boas.

Agora, para se livrarem de boa, os dragões terão de vencer o Moreirense na última jornada, e por muitos golos de diferença, para se prevenirem contra uma vitória do Belenenses, que assim ficará com os mesmos pontos. E, já agora, entre outras coisas, que joguem de acordo com o avançado que Nuno Espírito Santo escolhe ter em campo. Porque de nada serve ter um pinheiro se não o regamos com frequência. Ou um Depoitre para quem não se cruzam bolas em condições.