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Super Dragões contra Super Dragão (o que a guerra na claque do FCP nos diz sobre o FCP)

Após o cerco e o lançamento de petardos à casa de Pinto da Costa em abril de 2016, a ala mais dura da poderosa claque portista voltou a atacar em várias frentes o rumo do FC Porto, após o empate sem golos na Mata Real. Adelino Caldeira e Alexandre Pinto da Costa não escaparam à praxe de comissionistas, mas a surpresa maior foram os grafittis na casa de Fernando Madureira, alvo da ira dos colegas de bancada pela sua "cumplicidade e ligação" ao poder

Isabel Paulo

David Ramos

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O histórico líder dos Super Dragões é o último dos alvos da fúria dos adeptos portistas mais radicais, que na madrugada de ontem, segunda-feira, terão sido os autores da inédita frase: "Macaco mamão, Acorda SuperDragão".

A frase pintada na moradia de Fernando Madureira, em Gaia, surge após o líder da claque se ter demarcado dos insultos e ameaças ao árbitro do Paços de Ferreira-FC Porto, Artur Soares Dias, quinta-feira, na Maia, “posição que não caiu bem junto de um grupo de Super Dragões”.

De acordo com fonte próxima da claque criada no final dos anos 80, com o apoio de Alexandre Pinto da Costa, a "cumplicidade crescente" de Madureira com a administração da SAD começa a ser contestada por alguns colegas de bancada, desconfiança que se acentuou com a "súbita vontade" de Macaco - alcunha que ganhou nos meandros das claques - se licenciar em Gestão Desportiva, curso que concluiu, há dois anos, com 16 valores, no Instituto Superior da Maia, a que se seguiu o mestrado, (17 valores), em novembro.

O recente regresso de Paulo Trilho, um dos antigos dirigentes da claque - suspeito de ter sido um dos mentores da emboscada ao carro de Co Adriaanse no Centro de Treinos do Olival e expulso por pressão da SAD, em 2006 -, ao sub-reino dos Super Dragões, está ainda na origem da alegada cisão diretiva na orientação da claque. "A função das claques não é de cheerleaders. Deve apoiar a equipa, mas sem estar ao serviço de ninguém", defende um elemento próximo dos Super Dragões, que teme o “aburguesamento” Madureira.

Além do “usual negócio de venda de bilhetes cedidos pelo clube a baixo preço, prática aceite pela claque”, revela fonte afeta ao clube, Fernando Madureira é suspeito de “ser a voz do dono, em troca de um futuro cargo na SAD ou no clube”.

À Tribuna Expresso, o líder da claque não nega manter boas relações com a SAD, mas rejeita estar encostado ao poder ou ter qualquer função ou pretenção a cargo bo clube para além «de líder dos Super Dragões. “São só boatos, que circulam talvez por ter feito o curso”, diz, refutando ainda divisões nos Super Dragões ou que a sua autoridade esteja comprometida.

Madureira afirma que se recusa a entrar “no jogo de diversão instrumentalizado pelo Benfica, que detém o monopólio do polvo que controlo tudo no futebol em Portugal, desde as arbitragens, à justiça, forças policiais e comunicação social”.

A teoria do criador da claque é que a autoria da frase grafitada na sua moradia pertencerá a "algum benfiquista, que julga que basta criar um fait divers para dividir a claque". O epíteto de “mamão” não beliscou, nem “incomodou” Madureira, que diz que logo de manhã pediu a um amigo para resolver a situação com diluente.

“Como já disse, são ossos do ofícios. Quando se anda no futebol tem de se estar preparado para tudo, como na guerra”, repisa, concluindo que a única coisa de facto o incomoda foi o FC Porto ter empatado, de novo. “Isso sim, é preocupante”, diz o goleador do Canelas 2010, que perdeu ontem com o Candal, a única equipa que desde outubro não boicota os jogos do clube que milita na Divisão de Elite da AF do Porto, e cujo plantel é maioritariamente constituído por jogadores ligados aos Super Dragões.

“Se calhar, o Nuno Espírito Santo precisa fazer treino específico de pontas-de-lança”, comenta Madureira, preocupado com o desperdício de golos dos azuis-e-brancos.

“Je suis...comissionista” em versão atualizada

A frase pintada na casa do até agora incontestado líder dos Super Dragões surgiu na mesmo madrugada em que as paredes do escritório de advogados de Adelino Caldeira, na zona da Boavista, e do restaurante/pastelaria da companheira de Alexandre Pinto da Costa, em Nevogilde, foram também vandalizadas com pichagens depreciativas. “Polvo à la carte" ou "abutres e comissionistas" foram alguns dos mimos dirigidos ao administrador responsável pelo departamento jurídico da SAD e irmão de José Caldeira, empresário que intermediou a passagem de Rubén Neves de júnior a sénior e terá alegadamente negociado uma percentagem do passe numa venda futura.

Já Alexandre é titulado com o insulto da praxe - “traidor” - desde que se zangou com o pai no início do anos 2000 por causa das incontornáveis comissões de transferências. No espaço exterior do gastronómico foi ainda pintada a frase “Aqui se cozinha Polvo à la Comissão”, uma versão modificada do “Je suis ...comissionista” da tarja colocada em abril do ano passado na residência do pai.

Agora, a insurreição surgiu poucas horas depois do novo passo em falso da equipa de Nuno Espírito Santo contra o Paços de Ferreira, desaire que colocou o FC Porto a seis pontos do líder Benfica.

Após a bonança de dezembro, com vitórias consecutivas ao Braga, Feirense, Chaves, Marítimo e Chaves, e o apuramento para os oitavos-de-final da Champios por categóricos 5-0 ao Leicester, a equipa portista entrou de novo em agonia com a eliminação frente ao Moreirense para a Taça da Liga e o empate a zero na Mata Real. Domingo, de novo a equipa de Augusto Inácio, o treinador e SAD voltou a nova prova de fogo, num ano aparentemente de tolerância zero.