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Silencioso, sorumbático, católico e desenraizado. O dia em que Carlos Alberto Silva foi campeão pelo Porto

O Expresso republica, aqui e na íntegra, um perfil/entrevista escrito a 16 de maio de 1992 sobre Carlos Alberto Silva quando o FC Porto chegou ao título nacional pela mão do treinador. Hoje, no dia da sua morte, relembramos o brasileiro que levou aos portistas o bicampeonato sem nunca ter caído na graça dos adeptos

Isabel Paulo e Aníbal Sacramento

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Desceu em Pedras Rubras no início do campeonato e nem o facto de já ter sido campeão brasileiro e seleccionador da equipa “canarinha” o fez sobressair aos olhos de uma massa associativa habituada a viver um passado recente glorioso. Sem carisma, pouco insinuante, reservado e praticamente desconhecido, Carlos Alberto Silva não demorou a ter consciência do peso do testemunho transmitido por Artur Jorge.

Informou-se, escutou conselhos dos seus mais directos colaboradores, procurou sentir o ambiente das Antas, apercebeu- se de desconfianças e, quase sorumbático, meditou. A onda de silêncio instituída, meses depois, foi, para este católico fervoroso, de 53 anos, uma predestinação. Não foi, pois, sem surpresa que ouviu rumores de que cedo acabaria o seu estado de graça. Para os mais descrentes — mesmo para alguns indefectíveis portistas —, o Natal seria a profanação de um sonho que ele desde sempre acalentou de poder vir, um dia, a impor-se na grande metrópole do futebol: a Europa.

Movendo-se na indelével fronteira entre o calculismo e o medo, Carlos Alberto Silva optou pela prudência de processos com olhos e ouvidos bem abertos. E nem seria necessário que ele agora o confessasse para ser nítida a intenção de não ”desmanchar o que de bom já tinha sido feito”. Com a serenidade reconfortante de se sentir campeão, numa prova que considera ser extremamente dura e exigente, evidencia a nobreza do vencedor, repartindo as fatias do êxito pela mesa de trabalho em volta da qual sempre conviveu com Octávio Machado e Hernâni Gonçalves. Arriscou viver inicialmente na penumbra destas figuras emblemáticas e não “inventou”.

Hoje, reconhece que se tivesse trazido os seus compatriotas adjuntos jamais teria conseguido o título. E, para se tornar mais convincente, garante ter recebido de Reinaldo Teles, “braço direito” do presidente Pinto da Costa, o mais valioso “cheque em branco” que moralmente um técnico pode receber de um dirigente, caso as coisas dessem para o torto: a saída solidária.

O pulsar do campeonato

Ao esquematizar a carreira do FC Porto ao longo do campeonato que amanhã terá o seu fim, desenha com o indicador uma linha gráfica de picos irregulares e sinuosos durante toda a primeira volta, numa autêntica taquicardia competitiva.

A impossibilidade de poder armar a mesma equipa durante os primeiros 18 jogos, face à onda de lesões que assolou alguns dos seus mais influentes jogadores, constituiu a razão primeira para essa irregularidade do pulsar exibicional “azul-e-branco”.

A sobrecarga de jogos da selecção e a dificuldade de conjugar, em plena competição, uma dupla de avançados do gabarito de Domingos e Kostadinov obrigaram Carlos Alberto Silva a edificar a já célebre muralha defensiva do FC Porto, à qual não poupa elogios. Aponta o jogo em atraso com o Farense, na viragem do campeonato, como o início da subida de rendimento da equipa, que viria a manifestar-se gradativa e irreversível. Alude metaforicamente ao Campeonato como se de uma corrida de cavalos se tratasse, pelo menos até ao jogo com o Benfica. “Depois do ponto conquistado em Faro, passámos a correr uma cabeça frente, mas foi a vitória em Alvalade à que acentuou a diferença. No entanto, só no encontro com o Benfica é que o Campeonato iria ficar definido”.

Os nove pontos que distanciam os maiores rivais da actualidade consubstanciam, segundo a firma, “uma vantagem enganadora”, dada a dureza da prova. Após o forçado pragmatismo inicial — lema aliás bem conhecido da casa — em que o primado recaiu sobre o resultado, muito antes da qualidade da exibição, Carlos Alberto Silva foi pouco a pouco insuflando maior vivacidade e confiança na equipa, oferecendo aos adeptos espectáculos mais ricos e agradáveis, como há muito vinham sendo reclamados.

“Por vezes, cheguei a não saber se o jogo tinha sido ou não bonito. Isso cabe aos espectadores e jornalistas. Eu, lá em baixo, só via pernas. Se perdi o sono? Ai não, que não perdi”.

Reconhece que para essas vigílias muito contribuiu a pressão constante subjacente ao clima de guerra fria que desde há alguns anos tem bipolarizado o país sociodesportivo. Com astucioso distanciamento em relação ao que considera serem “questões do foro exclusivo dos dirigentes”, assume ter sabido, pontualmente, tirar partido da energia latente que tal rivalidade criou nos jogadores, asseverando não ter pretendido “acender quaisquer fogueiras”.

Aparentemente desenraizado da realidade mediática portuguesa no que respeita ao futebol, Carlos Alberto Silva defende, com desarmante convicção, o maior destaque que os órgãos de Comunicação Social deveriam atribuir aos atletas em detrimento do que é dado às figuras dos dirigentes. “Quem ganha os jogos são os jogadores e, portanto, eles é que têm de aparecer. Curiosamente, em Portugal, são quem tem menos espaço”.

Talvez por isso confesse agora ter sentido receio da agressividade dos títulos da Imprensa portuguesa, “nem sempre fiéis” ao conteúdo das entrevistas. “Os títulos são bastante agressivos. Na altura, não gostei e reagi. Em algumas ocasiões até me assustei”.

E com o mesmo desassombro nem sequer escondeu ter-se aconselhado quanto aos riscos de falar ao Expresso, ainda antes de o “blackout” ter sido oficialmente levantado.