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Ó Soares, não sejas Inácio

O FC Porto goleou o Arouca (4-0) e já leva 29 golos em 2017. Desde que Tiquinho Soares chegou ao Dragão neste mercado de inverno, a equipa de Nuno Espírito Santo segue imparável. É agora líder, à condição, mas há quem se lembre daquele Sporting campeão com Augusto Inácio. A começar pelo autor desta crónica

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Já se sabe que não há duas histórias iguais, mas a do Arouca e a do FC Porto não podiam ser mais diferentes, tão diferentes que até podemos considerá-las opostas uma à outra.

Não nos podemos esquecer que o Arouca andou pelas distritais há poucos anos, chegou a ser treinado por um apresentador de televisão, tem um presidente dado a encostos em balneários, teve um treinador irreverente que levou a equipa à UEFA (!) e saiu para Israel a meio deste campeonato (!!), e é agora liderado por um tipo batido e com um perfil e um vocabulário curiosos. É tudo tão bizarro - bizarro como o humor de Andy Kaufman, por exemplo - e mesmo assim resulta, já que o Arouca lá se vai mantendo na primeira divisão, apesar de andar a perder há cinco jogos consecutivos. O último dos quais aconteceu há bocadinho, diante de um adversário que somou a nona vitória seguida.

Esta é a segunda história e não tem nada a ver com a primeira, porque segue os preceitos clássicos da redenção: o FC Porto anda há anos sem nada ganhar, é treinado por um antigo guarda-redes que chegou a ser gozado pelos desenhos feitos à frente das televisões, tem um presidente batido e com um perfil e uma ironia curiosos - e é agora líder (à condição, diz-se) do campeonato, quando tudo levava a crer que era o mais fraco dos três candidatos. Que não é. Pelo menos, não o é em 2017, já que leva 29 golos marcados em nove jogos disputados desde que se dobrou o ano.

Ora - e vem aí a piada fácil - isto é obra do Espírito Santo e de Tiquinho Soares, o avançado comprado ao Vitória de Guimarães no mercado de inverno que veio revolucionar o futebol do FC Porto. De repente, a equipa que não sofria golos mas era sofrível a marcá-los, passou a golear, porque conta com um ponta-de-lança que dá o que nenhum outro dava ao plantel: a liberdade para escolher. Ou seja, com Soares, o FC Porto tornou-se um organismo vivo, mutável, que ora ataca em 4x3x3 ou em 4x4x2, com André Silva à direita ou ao meio, confundindo as marcações e conferindo velocidade.

Deixou de ser andebol para se transformar em basquetebol, com constantes trocas de posições e um poste de pontaria afinada e um extremo pontuador a abrir espaços. Em teoria, o FC Porto é agora a equipa ideal: um trinco poderoso e intenso (Danilo), um bom aguadeiro (André André), um pensador (Óliver), um criativo (Brahimi) e dois avançados que marcam golos (André Silva e Soares). Ficou 4-0, com golos de Soares (dois), Danilo e Jota, mas podiam ter sido mais, porque o Arouca nunca foi perigoso, mesmo no momento em que pôs Walter ao lado de Tomané.

Obviamente, na cabeça de todos está agora aquele Sporting de Inácio, o tal que se sagrou campeão porque comprou bons jogadores (César Prates, Mpenza e André Cruz) no mercado de inverno. Deixo uma deixa: em janeiro, o Benfica vendeu Guedes e perdeu potência e o FC Porto fez o caminho inverso com Soares.