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“O medo está a condicionar os jogadores do FC Porto”

Nuno Espírito Santo atribuiu parte da culpa do empate do FC Porto frente ao Feirense ao “medo” de os jogadores voltarem a nada ganhar esta época. Jorge Silvério, mestre em psicologia desportiva e autor do livro “Como ganhar usando a Cabeça”, confirma que o medo pode bloquear o rendimento, algo que acontece porque dirigentes e técnicos negligenciam o treino mental

Isabel Paulo

ESTELA SILVA

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Nuno Espírito Santo reconheceu que a equipa tem medo de não voltar a ganhar. O medo é uma explicação plausível para o empate com o Feirense?
Ouvi essa declaração e não me surpreendeu. Para explicá-la é preciso fazer um enquadramento prévio: no rendimento desportivo, há a tendência para se olhar para a componente mais técnica, tática e física e esquece-se, ou pelo menos negligencia-se, a parte psicológica. Em muitas equipas, os treinadores só lhe dão importância em último recurso, o que é um erro. E isso não é de agora...

Foi o que o levou a escrever o livro “Como ganhar usando a Cabeça”?
Foi o principal motivo. Em relação ao FC Porto, o medo de não ganhar é um facto que se repete. A equipa já teve oportunidade de ficar taco a taco com o Benfica, como foi o caso do empate com o Vitória de Setúbal um dia depois do empate da equipa de Rui Vitória em Paços de Ferreira, ou mesmo do jogo na Luz. Aliás, já sucedeu também com o FC Porto no passado recente. Parece-me que o medo está a condicionar os jogadores. Após o empate do líder da prova no dérbi de Alvalade, o normal seria o FC Porto aproveitar a oportunidade e aproximar-se do Benfica, tanto mais que jogava em casa com uma equipa pequena como o Feirense.

O que leva a que o medo se instale?
Numa equipa que pode somar a quarta época consecutiva sem títulos, a pressão de ter de ganhar é maior e reflete-se no rendimento em campo. Julgo que foi essa mensagem que o Nuno quis transmitir. Há um aumento da pressão, quando todos, da direção do clube aos adeptos, não imaginam outro resultado que não a vitória. Faz com que subam os níveis de ansiedade, com influência a nível fisiológico, como a contração dos músculos que dificultam o rendimento, mas também com reflexos a nível cognitivo que são decisivos nas tomadas de decisão. Quando se olha para o jogo e se vê que a equipa falhou muitas oportunidades na zona de finalização, tal pode ser fruto, de facto, da tremenda ansiedade dos jogadores.

ESTELA SILVA/ Lusa

Apesar de dizer que acredita no título, o treinador também disse que foi mais uma oportunidade perdida e menos um jogo para dar a volta. Ou seja, com mais pressão o previsível será assistir-se a mais percalços ou há formas ou fórmulas de contrariar o ciclo vicioso?
O caminho para dar a volta é cada vez mais estreito. Faltam só quatro jogos, o que significa que cada empate ou derrota será mais irremediável, logicamente mais para o FC Porto do que para o Benfica, na corrida ao título. O que se espera da parte de quem lidera é que saiba controlar essa ansiedade. A mensagem do Nuno Espírito Santo também teve esse sentido, ao lembrar que, mesmo perdendo mais uma oportunidade, matematicamente ainda é possível serem campeões. Agora não há receitas ou fórmulas únicas para desbloquear a ansiedade. O que funciona com um grupo ou com determinados jogadores pode não funcionar com outros. Quem os conhece e está à frente de cada equipa específica é que saberá a melhor forma de agir. É preciso recordar que o FC Porto esteve uma boa parte da época mais distanciado da liderança e soube recuperar a diferença pontual ao Benfica.

Em dezembro fizeram a remontada após meia dúzia de empates...
Lembrar ao plantel que já foi capaz de estancar uma crise de resultados é uma boa forma de motivar a equipa, de dar confiança aos jogadores. Recordar que foram eles que o fizeram é um caminho para que voltem a acreditar no título. Mas repito que só quem lida com a equipa saberá exatamente o que está a tolher os jogadores e como combater o bloqueio.

ESTELA SILVA/ Lusa

E é mais fácil ou mais difícil contrariar o espírito derrotista numa equipa jovem, como é o caso da equipa portista?
Numa equipa menos experiente é mais difícil incutir segurança. Há uns anos, numa equipa com muitos anos de casa, com jogadores como Baía, Fernando Couto, Jorge Couto, etc, seria impensável acontecer um desaire como o que sucedeu domingo. Eram jogadores com um lastro de liderança e espírito à Porto...

Tantas vezes repetido pelo treinador, um profissional da casa mas que teima em não se ver.
Não aparece porque falta experiência e anos de casa. Muitos não têm ainda maturidade, até porque não passaram por situações decisivas destas.

Os ciclos de vitória também contam? Ou seja, o Benfica está em vantagem por perseguir o tetra, como aconteceu com o Porto nos anos do penta?
Num ciclo vitorioso é claramente mais simples controlar o receio do desaire. Aliás, nos anos do tri, o Benfica também teve empates e derrotas e soube estancar as minicrises. Lá está, boa parte dos jogadores do Benfica já passou por estas experiências, o que lhes dá outra tranquilidade. Empataram em Alvalade, mas sentem-se mais seguros porque já passaram por isso e foram campeões. E o que acontece ao adversário também conta, ou seja, o facto de o FC Porto ter empatado logo de seguida veio reforçar os níveis de confiança dos jogadores do Benfica.

O facto de Nuno Espírito Santo ter na mesma mensagem do medo que tolhe a equipa também ter assumido que a culpa também é dele, não desresponsabiliza os jogadores?
Neste caso, acho que não, apesar de não ser um discurso muito habitual. Assumiu que não é perfeito e ninguém o é todo o tempo. Enquanto líder, assumiu uma responsabilidade que é dele, não desresponsabilizando os jogadores, mas não lhes pondo toda a culpa nos ombros.

Mas também criticou a arbitragem, fazendo eco da narrativa do clube, que na newsletter voltou a diabolizar os erros do árbitro Rui Costa ao não assinalar duas grandes penalidades. “Parece gozo”, concluem.
Aí claramente desresponsabiliza-se os jogadores. O discurso recorrente das más decisões de arbitragem não é benéfico para os jogadores, até porque se houve erros da equipa de arbitragem também os houve por parte dos jogadores. Em extremo, é passar aos jogadores a ideia que não vale a pena treinarem ou esforçarem-se porque vem aí alguém que decide o jogo. Como muitos adeptos disseram no fim do jogo, se a equipa tivesse marcado não era pelo facto não ter assinalado penálti que empatavam o jogo. O discurso antiárbitros é um risco.

Rodolfo Reis, ex-jogador do clube e portista ferrenho, afirmou mesmo que este FC Porto não merece ser campeão. Os jogadores valorizam as críticas, deixam-se afetar por elas?
A maioria não. As críticas são semanais, os jogadores andam na rua e ouvem de tudo, vão ao café. Criam e bem alguma imunidade. São os mais novos que têm maior dificuldade em lidar com comentários negativos, a tal bolha que lhes permite resguardar-se das críticas recorrentes. Aliás, mal andavam os jogadores se deixassem que tal lhes prejudique o rendimento. Mesmo o Messi e o Ronaldo não escapam a críticas e assobios.

O Ronaldo ainda há pouco pediu aos adeptos que não o assobiem...
Acontece quando sentem que os adeptos estão a ser injustos e não uma opinião isolada.

ESTELA SILVA/ Lusa

O Dragões Diário referiu-se esta segunda-feira ao campeonato como a “Liga Salazar”, insinuando que a prova está minada. Os gabinetes de comunicação dos clubes não devem ser mais moderados, sob pena de estarem a dar colo aos jogadores?
Depende como os jogadores interpretem a posição dos clubes. Enfim, são políticas de comunicação. E os clubes, quando as assumem, terão ponderado vantagens e desvantagens. Se seguem uma linha será porque entendem que é positiva.

Após a vitória sofrida em Arouca, também Jorge Jesus confidenciou que os seus jogadores pareciam que tinham medo de ganhar. A quatro jogos do fim da época, existe alguma estratégia de emergência para desbloquear uma equipa?
O treino mental é importante do início ao fim da época. O apelo ao ‘115 ’ no fim da época pode dar uma ajuda, mas não é o ideal alterar estratégias nem táticas nem mentais em retas finais. Podem dar certo, mas é um risco. A ansiedade tem duas componentes, uma mais fisiológica, como tremor, suores, batimentos cardíacos acelerados, músculos contraídos, etc, e outra cognitiva, ou seja, como se responde a determinada situação. Qualquer estratégia que vise diminuir os níveis de ansiedade e que trave pensamentos negativos será vantajosa.

Os grandes recorrem a psicólogos ou ainda há reservas?
Recorrem, embora ainda haja reservas.

E os jogadores?
Os jogadores posso dizer que, a nível individual, procuram cada vez mais ajuda.

Acompanha alguns?
Sim, em duas clínicas privadas, mas como é óbvio não vou revelar nomes.
José Silvério, mestre em psicologia desportiva