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Afinal, Nuno Espírito Santo foi assim tão mau?

Em suma, a ideia que pode ter ficado de Nuno Espírito Santo é a de que não foi campeão pelo FC Porto por ter empatado demasiado e, sobretudo, em dois momentos cruciais da época (contra Vitória de Setúbal e Feirense). Mas muitos dos números do treinador são piores do que os de quem o precedeu nas últimas três épocas, como a percentagem de vitórias ou dos jogos em que a equipa marcou golos. Todos, contudo, fizeram o mesmo - nada conquistaram num clube que vive de conquistas

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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Há muitos, muitos anos, houve um professor de Geografia que sabia muito e falava de cor sobre muitas coisas. Era culto, eloquente e cultivado, e misturava tudo o que sabia com um à vontade e um estilo prático de explicar as coisas, que fazia os miúdos gostarem dele e de não se sentirem numa aula enquanto o escutavam. Chegava uma altura em que ele, descontraído e bem-disposto, nos alertava sempre, mas sempre, para abrirmos a pestana e darmos mais do que tínhamos dado até ali. Estas alturas calhavam na entrada do último mês de cada período.

Ele, que raramente carregava a voz com seriedade, escolhia esses momentos para se pôr mais sério. E dizia-nos, sempre, uma frase parecida com esta - “Atenção, dêem tudo agora, porque as últimas impressões são as que ficam e eu vou-me lembrar delas primeiro”.

O professor, depois, insistia na ideia de gravarmos esta noção para a vida. Para os professores que ainda apanharíamos, os chefes que teríamos em trabalhos futuros, ou as muitas pessoas que ainda conheceríamos na vida.

Este professor de Geografia não inventou a roda, mas as crianças e recém-adolescentes que o ouviam e as que ainda o ouvirão a dizer isto perceberam, e vão perceber, que ele tinha razão. Seguindo a ideia dele, a última impressão que Nuno Espírito Santo deixou do seu pecúlio no FC Porto pode ser, mais ou menos, esta: a de um treinador que passou a ideia de estar a formar uma identidade ganhadora no clube e que se fartou de empatar jogos, de sofrer para marcar golos e de acusar a pressão nos momentos em que podia ter passado para a frente do campeonato.

As últimas impressões de NES são as de um treinador sério, duro e com um discurso que não fugia muito de uma linha. Que Nuno insistia em manter na reta da “fortaleza”, do “somos Porto” e das culpas na arbitragem, dando-lhe muito poucas curvas, além do par de ocasiões em que desenhou as ideias em papel. A temporada acabou, o FC Porto vai na quarta sem canecos novos no museu e ele saiu do clube, porque não ganhar ali nunca será suficiente. Muito menos agora, num período em que os dragões nada têm ganhado.

MIGUEL RIOPA

E, voltando às últimas impressões, fica-se com a ideia de que o clube não quis segurar o treinador que, nos últimos anos, mais perto se aproximou do título - ficou a seis pontos do Benfica (que seriam três caso não perdesse na última jornada, já sem hipótese de lhe chegar) e, por duas vezes ao longo da época, teve oportunidade de se isolar na liderança do campeonato.

Mas, e ao contrário do professor de Geografia, que nos queria desformatar a cabeça e incentivava-nos a fugirmos de dados redondos, as impressões relativas a Nuno Espírito Santo mudam se olharmos para os números.

Eles contam-nos outra história.

As vitórias a menos e os empates a mais

Dizem-nos que Nuno é o treinador com pior percentagem de vitória que passou pelo FC Porto nas últimas quatro temporadas - 55%. Menos do que os 57% de Paulo Fonseca e os 56% de Luís Castro (2013/14); os 69% e 68% de Julen Lopetegui (divididos por 2014/15 e metade de 2015/16); e os 59% de José Peseiro, que acabou a temporada passada. Rui Barros, interino que fez bombeiro em cinco jogos de 2015/16, não entra nas contas.

As percentagens não jogam a favor de Nuno, porque também foi o treinador com a menor no que toca a jogos em que viu a equipa a marcar golos (76%). Paulo Fonseca (81%), Luís Castro (88%), José Peseiro (77%) e, sobretudo, Julen Lopetegui (92% na primeira época, 84% na segunda) fizeram melhor. NES é o segundo treinador que mais partidas fez nestas quatro temporadas (49), só atrás de Lopetegui (52).

Nenhum deles, porém, chegou à média de vencer sete de cada 10 jogos num clube que vive para ganhar. Facto que só torna mais estranho outro facto - o de as últimas impressões em relação a Vítor Pereira serem quase tão negativas quanto as de todos os técnicos que lhe sucederam. Ele que foi o último treinador campeão pelos dragões (2012/13), fechou o bicampeonato e cumpriu duas épocas em que apenas perdeu uma vez, para a liga, e saiu do clube com uma percentagem de vitória de 70%.

FRANCISCO LEONG

O mais justo é comparar Nuno Espírito Santo mais com Julen Lopetegui, pois foram os únicos a quem, neste período, o FC Porto deixou completar uma época. A comparação, porém, não melhora as impressões para o lado do português. Porque o espanhol do jogo posicional, da bola como bem mais precioso e do querer mantê-la a todo o custo, terminou o campeonato com mais pontos (82-76), mais vitórias (25-22), menos empates (7-10), as mesmas derrotas (2), mais golos marcados (74-71) e menos golos sofridos (13-19).

Ambos tiraram cinco pontos dos quatro clássicos que jogaram para o campeonato, e NES apenas ganha a Lopetegui na série de vitórias: conseguiu nove seguidas (melhor registo das últimas quatro temporadas), o espanhol apenas seis. De resto, o português sofreu golos em 49% das partidas que realizou, registo que apenas é superado pelos 42% da primeira temporada de Lopetegui.

Lopetegui acabou a três pontos do líder, Nuno a cinco. O espanhol chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, às “meias” da Taça da Liga e ficou pela 3ª eliminatória da Taça de Portugal, o português, pela mesma ordem, saiu dessas competições nos oitavos-de-final, na fase de grupos e na 4ª eliminatória. Cada um tinha o seu estilo, modelo e forma de pensar, e aqui já entra o gosto de cada um e de quem lhes paga o salário e de quem paga bilhete para os ver.

Ambos se queixaram de ter uma equipa jovem quando tremeram nas alturas em que se vê a fibra de quem está ali para ganhar, mas nenhum teve uma média de idades inferior a 25 anos. Nem falta de dinheiro para investir - Lopetegui gastou 45,4 e 43,3 milhões de euros em quatro janelas de mercado, Nuno usou 34,7 milhões em duas, de acordo com o site Transfermarkt. Desde 2007 que o FC Porto investe pelo menos 30 milhões de euros, por época, em contratações, embora talvez nunca tenha gasto tanto em salários como nestas quatro épocas.

Ou seja, à parte das coisas que não sabemos - como os potenciais jogadores que Nuno Espírito Santo quis, e não teve -, o treinador com quem o FC Porto separou as águas esta semana teve recursos para gastar, contratar, planear e inventar uma equipa à sua maneira. Mas, à maneira dele, a equipa bateu recordes com empates, teve demasiados fases em que lhe custou marcar golos e, mesmo assim, não se pode dizer que ficou longe do título. José Peseiro, já agora, foi o único a chegar à decisão de uma competição durante este quadrilénio.

O professor de Geografia de quem vos falei dizia que as últimas impressões são as que contam. No caso de Nuno, a noção de que o seu FC Porto só não foi campeão por ter empatado demasiado e em dois momentos decisivos (contra o Feirense e Vitória de Setúbal) serve para melhorar a imagem que os números pioram.

Eles, mesmo sendo perigosos quando a ideia é mensurar o sucesso, dizem que não foi nada especial no meio de cinco treinadores que lograram todos algo especial - nada conquistar num clube que vive de conquistas.

Os números dos treinadores das quatro épocas sem títulos para o FC Porto:

FRANCISCO LEONG

Paulo Fonseca

2013/14 (21 jornadas)

- 34,7 milhões de euros gastos em transferências

Jogos: 37 jogos, 21 vitórias, 9 empates e 7 derrotas
Percentagem de vitória: 57%
Maior série de vitórias: 6
Contra os grandes: 3 pontos em dois jogos

Golos: 69 marcados e 31 sofridos (39-16 no campeonato)
Marcou golos em 81% dos jogos
Sofreu golos em 59%

Luís Castro

2013/14 (9 jornadas)

Jogos: 16 jogos, 9 vitórias, 2 empates e 5 derrotas
Percentagem de vitória: 56%
Maior série de vitórias: 2
Contra os grandes: 3 pontos em dois jogos

Golos: 25 golos e 18 sofridos (18-9 no campeonato)
Marcou golos em 88% dos jogos
Sofreu golos em 63%

Julen Lopetegui

2014/15

- 45,4 milhões de euros em transferências

Jogos: 52 jogos, 36 vitórias, 11 empates e 5 derrotas
Percentagem de vitória: 69%
Maior série de vitórias: 6
Contra os grandes: 5 pontos em quatro jogos

Golos: 113 marcados e 33 sofridos (74-13 no campeonato)
Marcou golos em 92% dos jogos
Sofreu em 42%

Julen Lopetegui

2015/16 (16 jornadas)

- 43,3 milhões de euros em transferências

Jogos: 25 jogos, 17 vitórias, 4 empates e 4 derrotas
Percentagem de vitória: 68%
Maior série de vitórias: 4
Pontos contra os grandes: 3 pontos em dois jogos

Golos: 44 golos e 19 sofridos (31-10 no campeonato)
Marcou golos em 84% dos jogos
Sofreu em 52%

José Peseiro

2015/16 (16 jornadas)

Jogos: 22 jogos, 13 vitórias, 1 empate e 8 derrotas
Percentagem de vitória: 59%
Maior série de vitórias: 2
Pontos contra os grandes: 3 pontos em dois jogos

Golos: 38 marcados e 26 sofridos (31-19 no campeonato)
Marcou golos em 77% dos jogos
Sofreu em 73%

Nuno Espírito Santo

2016/17

- 34,7 milhões de euros em transferências

Jogos: 49 jogos, 27 vitórias, 16 empates e 6 derrotas
Percentagem de vitória: 55%
Maior série de vitórias: 9
Pontos contra os grandes: 5 pontos em quatro jogos

Golos: 88 marcados e 28 sofridos (71-19 no campeonato)
Marcou golos em 76% dos jogos
Sofreu em 47%