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Marco Silva, o cobiçado, resiste à marca do ‘destetra’

Treinador do Hull City volta a ser uma carta no baralho da SAD do FC Porto para o lugar de Nuno Espírito Santo. Em 2014, foi a aposta n.º 1 de Antero Henrique, mas o presidente preferiu Lopetegui e teimou em Peseiro quando o espanhol foi despachado. Agora, é Marco quem resiste à equipa que averbou o inédito ‘destetra’ da era Pinto da Costa

Isabel Paulo

Shaun Botterill

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A saída de Nuno Espírito Santo pela porta pequena do Dragão era só uma questão de dias. Sem um título ou um troféu para resgatar a honra perdida em quatro anos de seca, o autor do grito “Somos Porto” cavou a sua sepultura, não na derrota com o Moreirense, mas uma semana antes, quando o Benfica festejou o inédito tetra campeonato da sua história - e o igualmente inédito 'destetra' do longo reinado de Pinto da Costa.

O dilema dos administradores da SAD, ontem, era se o despedimento deveria ser anunciado de imediato ou silenciado enquanto Pinto da Costa não tivesse na carteira o nome do sucessor do treinador que, por mais juras de portismo e amor à causa, saiu do seu antigo clube de mãos a abanar.

Ao que o Expresso apurou junto de um ex-dirigente do FC Porto, os administradores Adelino Caldeira e Fernando Gomes defendiam que se devia evitar o circo mediático pós-Lopetegui sobre o técnico que se segue, mas Pinto da Costa, contestado no Dragão na penúltima jornada da Liga e apupado em Moreira de Cónegos, optou por “arranjar logo um bode expiatório para apaziguar a ira dos adeptos e dar um sinal para o exterior que está tudo controlado”.

Ao lado do presidente esteve o “sempre alinhado Reinaldo Teles”, tendo contribuído para que o despedimento fosse anunciado logo após a reunião de segunda-feira à tarde.

A separação foi amigável, ao ponto de Nuno Espírito Santo, ao contrário de Julen Lopetegui (que exigiu o cumprimento do contrato até ao último cêntimo) ter prescindido de salários na ordem dos € 2 milhões, relativos a 2017/2018.

“O Nuno falhou como treinador, como gestor de balneário, mas é uma pessoa de bem e portista ferrenho”, diz fonte próxima da equipa, que adianta ser Marco Silva “o sucessor mais desejado” e uma das apostas fortes de Pinto da Costa, depois de o ter descartado no verão de 2014, quando Antero Henrique perdeu o braço de ferro com o presidente a favor do espanhol.

Agora, após quatro anos de queima de cinco treinadores (Paulo Fonseca, Luís Castro, Lopetegui, Peseiro e NES), o ex-campeão grego, mesmo sem salvar o Hull City da descida da Premier League, voltou a ser sondado, o que não aconteceu após a saída em janeiro de 2016 do atual selecionador espanhol, quando Pinto da Costa optou pela experiência de José Peseiro - novamente à revelia do administrador responsável pelo futebol e que bateu com a porta no verão passado, entre outras coisas porque “também torceu o nariz à escolha de Nuno”, lembra fonte próxima da SAD.

Apesar de a TVI noticiar que já há um princípio de acordo entre Marco Silva e o FC Porto e que falta apenas acertar o ordenado e anos do contrato, fonte próxima do treinador afirmou ao Expresso que Marco Silva “está inclinado e entusiasmado com a Premier League”, sem negar, contudo, o assédio ao ex-campeão grego e antigo treinador de Sporting e Estoril.

Pedro Emanuel e Sérgio Conceição, ex-campeões da casa, são outros nomes de quem se fala. Fonte próxima do ex-treinador do Guimarães avançou ao Expresso que é um dos nomes que se mantém na lista, até porque já foi sondado para treinar os dragões em janeiro do ano passado. Já Pedro Emanuel, treinador que deu nas vistas no Estoril, é hipótese pouco viável por ser uma reprise de NES - ex-jogador da casa, muito amor à camisola mas sem títulos nem experiência europeia.

O pecado mortal do penta encarnado

Sem margem para errar, Pinto da Costa tem pela frente a decisão mais difícil dos seus 35 anos no comando dos azuis e brancos. A viver das glórias passadas, com 59 títulos nacionais e internacionais no seu reinado, o até há poucos anos incontestado presidente é cada vez menos intocável, vaiado por adeptos e até pela claque Colectivo 95, proibida de exibir tarjas no Dragão frente ao Paços de Ferreira.

O sinal de que os tempos estão a mudar para Pinto da Costa são as pichagens nas paredes da sua casa, já um ano na moradia do Porto, agora no condomínio onde reside em Santo Tirso. A revolta saiu à rua contra o tetra do Benfica, um feito até agora só partilhado pelo Sporting e FC Porto, mas já paira no ar a assombração da eventual conquista do penta pelos encarnados.

“Será um pecado imperdoável para os portista, detentores deste feito histórico e único no futebol português”, afirmou ao Expresso José Martins Soares, o único candidato que foi a votos contra Pinto da Costa nos idos de 1988 e 1991.

Após anos remetido ao silêncio, Martins Soares publicou no seu facebook, na despedida do campeonato, uma longa carta aberta a Pinto da Costa, na qual não poupa os administradores da SAD nem o presidente, a quem agradece, contudo, pelos três décadas de dedicação ao clube. “A minha indignação é tanta que não consigo calar a revolta e é por por isso, de coração aberto, que me dirijo a si publicamente para lhe pedir mais um grande favor: não volte a erros do passado recente, para que não seja possível que os nosso rivais alcancem algo que apenas nós temos na história do futebol português: ser pentacampeão”, adverte na missiva.

José Martins Soares defende ainda que é tempo de “limpar a SAD, é tempo de voltar a reunir à sua volta quem o possa ajudar a voltar às vitórias”, escreve antes de repisar de novo: “Presidente e amigo, ninguém lhe vai perdoar um pentacampeonato do Benfica”.

Principalmente depois de Pinto da Costa, ufano com o feito inédito, não ter resistido a desfeitear o Benfica dos negros anos 90, quando acabou “de festejar o pentadescampeonato”, Record, 29 de abril de 1999.