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Sérgio Conceição, um treinador de fúrias em tempos de cólera

Após a nega de Marco Silva, Pinto da Costa virou-se para Sérgio Conceição, disposto a contrariar a Lei de Murphy na pior fase dos seus 35 anos de liderança

Isabel Paulo

JEAN-SEBASTIEN EVRARD

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A história é contada por um antigo dirigente do Vitória de Guimarães: “À sobremesa pediu kiwi, não havia, desatou aos gritos ao ponto de terem ido a correr ao supermercado. Quando chegaram, disse que afinal já não lhe apetecia”. Outra história: Sérgio Conceição embrulhou-se com José Eduardo Simões, então presidente da Académica, gritando-lhe para que este lhe pagasse o que devia do tempo em que liderava a equipa de Coimbra. E ainda outra história: o Braga instaurou um processo disciplinar a Sérgio Conceição por “falta de lealdade e respeito”, na sequência “de graves factos ocorridos após o jogo no Jamor”. António Salvador, o presidente dos bracarenses, falou do caráter “agressivo e conflituoso” de Conceição.

Este é o lado de Sérgio Conceição que se teme no FC Porto, agora que as partes negoceiam o desfecho previsível: ele está em vias de tornar-se o treinador do Dragão. Não se põem em causa a qualidade ou o a capacidade técnica, mas a agressividade e falta de experiência.

A confirmar-se este acordo, será o terceiro regresso de Sérgio Conceição ao FC Porto, antigo jogador daquela casa com a qual sempre se identificou. Acontece que Sérgio Conceição é a segunda escolha de Pinto da Costa, após a nega de Marco Silva, e acontece também que a situação não está fácil -– há um mês, Conceição renovou com o Nantes um contrato até 2020.

Esta não é a primeira vez que o presidente do FC Porto tenta contratar o técnico que exibe como melhor cartão de visita a salvação do Nantes da descida de divisão, e ter sido finalista vencido da Taça de Portugal pelo Braga frente ao Sporting, na época 2014/15. Em janeiro do ano passado, o treinador de 42 anos foi um dos nomes mais insistentemente falados para suceder a Julen Lopetegui, tendo acabado por ser preterido a favor de José Peseiro, não só por ter contrato como o Vitória de Guimarães, mas pelo pedido de namoro ter acontecido na semana anterior á deslocação do FC Porto ao Estádio D. Afonso Henriques.

Agora, o convite ao admirador jurado de Jorge jesus, o seu primeiro técnico como profissional, volta a gerar polémica por suceder um mês após a renovação de contrato por mais três anos.

Waldemar Kita, presidente do Nantes, já avisou em entrevista ao jornal “O JOGO” que não lhe irá facilitar a vida, afirmando estar estupefacto com o comportamento de Sérgio Conceição. Para o deixar sair, o Expresso apurou que terá de indemnizar os franceses em €6,5 milhões, a cláusula contratual assinada há um mês. A “traição” do treinador não é a única que Kita lamenta, ao referir que, pelo menos até ontem, não fora contactado pelo FC Porto.

Além da indemnização, o FC Porto terá ainda de convencer Conceição a baixar o salário anual de 4,5 milhões de euros, mais do dobro do que ganhava NES, numa altura em que a meta da administração é emagrecer a massa salarial do clube, superior à dos campeões nacionais. A abordagem ao ex-portista já se prolonga há mais de uma semana e na mesa de negociações deverão estar as condições que o clube oferece ao treinador. Convém não esquecer que, além da crise desportiva, o Porto atravessa dificuldades financeiras, cenário que obriga a vender até 31 de junho, prazo de fecho das contas anuais 2016/17, as suas joias da coroa para realizar mais valias próximas dos €100 milhões.

Ao que apurou o Expresso, Marco Silva não rejeitou liminarmente a ida para o Dragão, mas “apresentou um caderno de encargos na formação do plantel que inviabilizou as negociações”, adianta fonte afeta ao administração. A aproximação a Marco à revelia do seu empresário, Carlos Gonçalves, amigo de Antero Henrique, “foi algo que não facilitou a contratação”.

De acordo com um ex-dirigente do FC Porto, a resistência de Marco Silva é, de resto, um sinal dos tempos, longe dos anos em que os treinadores faziam fila para treinar o FC Porto, uma época marcada pelo desnorte fora e dentro das quatro linhas, como se prova pela queima de cinco treinadores em quatro anos, e “pelas notícias que circulam que o clube ainda tem salários em atraso a Lopetegui e Peseiro”.

Caso troque o Nantes pelo Porto, Sérgio Conceição, opção defendida por Luís Gonçalves, diretor-geral do futebol azul e branco, tem pela frente uma missão de risco: impedir que o Benfica conquiste o título de pentacampeão nacional.

José Martins Soares, numa carta aberta a Pinto da costa, após o tetra da Luz, alertou Pinto da Costa que esse será um pecado que os portistas jamais perdoarão ao presidente que ganhou tudo o que havia para ganhar a nível nacional e internacional. Soares, o único candidato que enfrentou Pinto da Costa nas urnas no final da década de 80 e no início dos anos 90, afirmou ao Expresso que voltará a desafiar o líder dos dragões nas urnas.

Na boca do lobo

Jorge Manuel Mendes, agente que tem acompanhado Sérgio Conceição desde os tempos de jogador, foi evasivo quando há uma semana foi contactado pelo Expresso sobre o interesse do FC Porto. “Tem contrato com o Nantes, mas tal como os jogadores os treinadores também são transferíveis”, disse.

Apesar de várias tentativas, o empresário mantém-se desde então incontactável. No Porto, a reação ao nome do possível sucessor de Nuno é de desconfiança, e comenta-se à boca pequena o que referiu o presidente do Nantes, Waldemar Lita, a “O JOGO” : “O Sérgio Conceição não está preparado para treinar o FC Porto. Vai meter-se na boca do lobo”.

A resistência a Sérgio Conceição prende-se ainda com a fama que ganhou em Braga e em Guimarães. Dos Guerreiros do Minho, foi despedido em junho de 2015, após a SAD lhe ter instaurado um processo disciplinar “por falta de lealdade e respeito”, na sequência “de graves factos ocorridos após o jogo no Jamor”. António Salvador, apesar de não colocar em causa os seus méritos como treinador, queixou-se do caráter “conflituoso, autoritário e agressivo”.

O litígio acabou num acordo extrajudial, tendo o Sporting de Braga pago 87 mil euros a Sérgio Conceição, que pediu inicialmente 1 milhão de euros de indemnização por despedimento sem justa causa.

No Vitória de Guimarães o presumível futuro técnico portista também não deixou saudades. Além do 10º lugar, foi fora do banco que menos empatia causou. Segundo um ex-dirigente vimaranense, próximo da atual da direção, Sérgio Conceição “não tem pulso natural no balneário, criando mau ambiente por ser quezilento e dado a fúrias na relação com os jogadores”.