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Sérgio Conceição, o emotivo (o perfil do novo treinador do FC Porto)

Por fim, Sérgio Conceição é o novo treinador do FC Porto. É o ponto alto na carreira de um treinador que começou por ser um miúdo de aldeia, que teve de crescer rápido por perder os pais, se agarrou à Bíblia e construiu a pessoa que é: “Muito instintiva, demonstro muito o meu humor”. Com ele não há intrusos no balneário ou nos eventos da equipa

Diogo Pombo

CHARLY TRIBALLEAU

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Foram um, dois e três. Ele já não é um coitadinho, tem um bi e um tri para mostrar no currículo, dos tempos de FC Porto, e joga e as pessoas gostam do que ele joga em Itália. A seleção dos portugueses olhados como pequeninos, coitadinhos e certinhos de serem os moribundos de um grupo da morte, acabam de ganhar à Alemanha, à equipa que sempre ganha no cliché dos onze contra onze. Um, dois e três golos na baliza deles, nenhuma na nossa e quem os marca é o mesmo tipo da camisola para dentro dos calções. Das chuteiras clássicas da Adidas. Das madeixas loiras no cabelo.

Sérgio Conceição já era nosso conhecido, mas ficou aí conhecido para os outros. O extremo dos golos, dos remates com os dois pés, das muitas corridas até à linha, no tempo em que o que a seleção tinha mais eram extremos. Os três golos aos alemães, em 2000, no Europeu da desgraça portuguesa na mão de Abel Xavier, foram os pontos altos de uma carreira que começou na Académica, explodiu no FC Porto e lhe calcificou com prestígio entre a Lazio, o Parma e o Inter.

Entre as três épocas no Standard de Liège e outras três no PAOK de Salónica, em que foi um extremo mais pesado, para aguentar com as equipas às costas, cumpriu uma nos Emirados Árabes Unidos. Foi buscar a almofada para o que viesse depois. Veio uma carreira de treinador, primeiro como adjunto, a olhar e a reter o que outros faziam e, findo um ano, logo como o primeiro na linha de comando, em 2011. Faz duas metades de época no Olhanense antes de chegar a meio da temporada à Académica.

Coimbra mexe com ele, com o que tem dentro. Sérgio nasce em Ribeira de Frades, a cinco quilómetros de Coimbra. É uma aldeia, pequena e humilde como a família que tem, que lhe dá uma infância “muito feliz e rica no capítulo sentimental, mas pobre em termos monetários”, conta ao Expresso, em 2001. É feliz e de vida cheia e contente com o que tem até aos 16 anos, quando lhe morre o pai, e aos 18, quando perde a mãe. Para o adolescente não se perder do caminho, agarrou-se à Bíblia. Leu-a, decifrou-a e tentou crescer com os valores que nela via - “Porque me atrai a paz, o amor e a tranquilidade espiritual”.

Ben Radford

Fez-se assim na aldeia e foi lá que conheceu a mulher que o conhece melhor. Cresceram juntos, casaram-se tinha Sérgio os seus 20 anos e são pais de cinco filhos. É a mulher que sabe melhor do que ninguém como ele é “uma pessoa muito instintiva”, que “demonstra muito o [seu] humor”, como admitiu.

Esta confissão, adulta de 26 anos, bate certo com as descrições que hoje fazem dele. “É uma pessoa muito pura, de grandes sentimentos e tem de se perceber muito bem. É muito emotivo, o seu feitio pode provocar reações positivas e negativas, mas é uma pessoa de bem e com enorme coração”, disse Joaquim Teixeira, que o treinou no Leça, no FC Porto e na seleção, ao jornal “A Bola”.

Rúben Micael, médio que Conceição orientou no Braga, teve isto a dizer, quando "O Jogo" lhe perguntou sobre o treinador: “As intenções dele são positivas. Ele não reage bem porque quer ganhar sempre, mas sabe reconhecer quando a equipa dá tudo e é o primeiro a dar os parabéns a todos”. E brindes ou momentos de lazer, também, como idas em equipa ao paintball e a corridas de karts, ou reuniões nos hotéis, pela noite fora, a ver sessões de stand up comedy de humoristas como o amigo Fernando Rocha. Momentos para os jogadores, onde ele não deixa que entrem dirigentes ou caras alheias ao balneário.

Era assim no Braga.

E foi lá que Sérgio Conceição, com um quarto lugar e uma final da Taça de Portugal perdida nos penáltis, contra o Sporting, teve o coração na boca e as emoções a cobrirem-lhe a pele num choque frontal com o presidente, em 2015.

Diz-se que foi grossa a discussão com António Salvador, de tamanho tal que o clube instaurou-lhe o processo disciplinar que o acabaria em despedimento. “O caráter conflituoso, autoritário e agressivo deste treinador, exibido em diversos episódios a que assistimos ao longo da temporada, perante dirigentes de outras coletividades e até associados do Sporting de Braga, não conhece limites”, escreveu, na altura, o clube, em comunicado.

Antes, na Académica, o diz que disse também não pinta um bom quadro para o treinador - Sérgio Conceição terá chegado ao ponto de gritar e berrar com José Eduardo Simões, exigindo que o presidente lhe pagasse os salários que lhe devia.

O oposto ao que aconteceu no Vitória, quando apareceu triste, indignado, cabisbaixo e magoado com as pessoas e os jornais que, durante dias, falaram de um possível conflito de interesses - nos dias em que, antes de vencer (1-0) o FC Porto, se falou de que poderia ser o próximo treinador dos dragões. “O meu clube de sonho será sempre a seleção nacional… E o regresso ao FC Porto”, desabafou, em 2001, ao Expresso.

É por isso, diz-se também, que aceitou ir receber para o FC Porto quase metade do ordenado que o Nantes lhe pagava. Sérgio regressa ao clube do qual saiu, em 1999, para deixar um pai um e um filho chateados e de costas avessas um ao outro. Jorge Nuno não gostou do facto de Alexandre lhe exigir uma comissão a rondar os 55 mil contos pela transferência do extremo para a Lazio.

JEAN-SEBASTIEN EVRARD

Agora, mesmo sem ter as agulhas alinhadas com tudo quanto é gente importante da estrutura do clube, Pinto da Costa fez questão em fazer tudo para ir buscar o plano B a França, após o A de Marco Silva lhe dizer que não.

De Sérgio receberá a intenção de ter uma equipa com rotação, intensa em tudo o que faz, a preferir comer linhas adversários com passes para a frente em vez de passar a bola para engordar a estatística. Jogadores com o chip de atacar os espaços e descobrir caminhos para a baliza, mas com a prioridade de o fazerem a partir de uma base organizada, sempre.

Porque Conceição, pelo que diz e pela forma como o diz, parece querer não sofrer golos antes de os marcar. E gosta que todos pensem para a frente, precavidos do que pode vir a seguir, quando a bola está com os outros. “Gosto muito do futebol realista, pragmático, onde procuramos rapidamente a baliza adversária. O momento mais difícil no futebol é quando temos a bola e estamos a atacar. Insisto sempre neste ponto com as equipas com quem trabalho. Não é apenas o confronto entre o jogo de posse de bola e o de transição. O importante é saber o que fazer quando perdemos a bola”, explicou, há meses, ao “Ouest France”.

É o treinador que, na mesma entrevista, defendeu que “se sofreres três golos e não marcares quatro, é uma merda”, pois “o único resultado que assegura pontos é não sofrer golos”. Comparando-se ao Monaco, o papa-golos da Europa, até vincou uma ideia - "O Leonardo Jardim acredita que é melhor ganhar por 4-3, já eu prefiro ganhar por 1-0. Estou completamente convencido disso". Sérgio admitiu que disse tal coisa “porque [treinou] equipas pequenas” e nunca um grande que é quase gigante em Portugal por ser o único clube a poder vangloriar-se de um penta.

O clube onde, em tempos, ele era um dos que punha os mais diletantes na ordem, como no dia em que foi com Jorge Costa buscar Mário Jardel a uma discoteca.

O que se diz é que o FC Porto contratou alguém que vive com o coração na boca, que adora o clube, é emotivo e que é raro por um travão nas emoções. Que estas coisas podem desequilibrar a balança onde, no outro prato, está a noção de um treinador competente, ambicioso, que dá a cara por tudo e que protege os seus com tudo o que tem.

Quando ia a meio da carreira de jogador, nos tempos em que decorava a casa com quadros da filha de António Oliveira, que o treino no FC Porto e na seleção, e se interessa por arquitetura de interiores, também não queria nada com o futebol se não fosse para o jogar: “Quando arrumar as botas, não quero ligar-me a nada que diga respeito ao futebol”.

As pessoas mudam. Agora é ver se a pessoa, e o treinador, que há em Sérgio Conceição, conseguirão mudar o FC Porto para melhor.