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Por que os goleiros tendem a ser tristes (todos querem ser Ronaldo, quem quer ser Casillas?)

No dia em que Casillas anunciou com um tweet que vai ficar no FC Porto, Plínio Fraga escreve a partir do Rio de Janeiro sobre a tristeza inevitável dos homens que usam luvas. E como a tristeza se sente em todas as línguas e sotaques, esta é uma prosa com coração e grafia brasileira. “Quem é escalado para o gol passa vida na antessala do medo”

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

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O goleiro é um pária, qualquer menino sabe. Entre os piores peladeiros do mundo, o pior dentre eles é forçado a atuar no gol. De certo, para lá caminhará de cabeça baixa, correndo riscos de alguns cascudos. Terá a assombrá-lo a conclusão inevitável de que é a função social que resta ao perna de pau. Àquele sem habilidade para fazer a bola chegar às redes - a suprema alegria do futebol - caberá então evitá-la.

Sendo assim, os goleiros tendem a ser tristes.

Todos querem ser Cristiano Ronaldo. Quem quer ser Iker Casillas?

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Muitos imitam até o topete do craque português, seu estilo de passadas largas na cobrança de falta, seus caprichos de “enfant-gâtè” que deu certo.

Mesmo no pior campo de futebol do mundo, aquele em que a grama já nem sequer é uma vaga lembrança, a posição de goleiro é a menos desejada pelos meninos e, agora, pelas meninas.
Não há talento nato para a posição porque toda criança sonha em brilhar, em fazer o gol de placa que definirá o título mundial. Quem já sonhou com a defesa espetacular que não levará ao título? Sendo assim, quem haverá de se lembrar de imitar um goleiro?

Iker Casillas tem certa tristeza nos olhos. Pode ser invejado pelo salário milionário, por seu ar de galã hollywoodiano, por Sara Carbonero, pelas lágrimas públicas que verteu ao deixar o Real Madrid. Mas ninguém o inveja por ser goleiro.

Pelo contrário, há quem veja em tal sina a predestinação dos sofredores.

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As defesas espetaculares, nas quais o corpo desenha um arco no ar e se elastifica como se fosse um efeito especial, estão à disposição até no You Tube. Para efeito de comparação, para cada clique nos vídeos com as dez defesas mais difíceis de Casillas há dez naquele que exibe os gols mais bonitos de Cristiano Ronaldo.

Gol é alegria; defesa é impedir a explosão alheia. É por si só um momento de contenção, de impingir frustração ao outro. Terapeuta algum listará como sentimento saudável.

O gol muda tudo, a defesa faz com que tudo permaneça como está. Gol é revolução, defesa é estabilidade. Atacantes são rebeldes, goleiros são mantenedores do status quo. Atacantes alimentam esperança, goleiros acumulam desesperanças.

Os torcedores do Porto saudaram a contratação de um mito na chegada de Casillas. Não sem razão. As defesas inacreditáveis na seleção espanhola e no Real Madrid eram cartões postais de temporadas felizes.

Aos poucos, a convivência aplacou as imagens de cartão postal, como se fossem desbotando na geladeira. Os torcedores foram tomados por preocupações com o tempo e com a fisiologia humana, como se novidades fossem. Casillas perdeu reflexos, agilidade, mas, se imaginava, ganharia com a experiência traquejo suficiente para não fazer bobagens.

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As qualidades de um goleiro são silenciosas. Seus defeitos, no entanto, são gritantes. No caso de Casillas, logo disseram: não sai pelo alto jamais nos disparos de canto, não se impõe na área, tropeça com frequência no jogo com os pés e tem o medo gravado na cabeça.

Para falar a verdade, quem não tem o medo gravado na cabeça? Entre os goleiros, talvez só a lenda Lev Yashin (1929-1990), o Aranha Negra. O escritor uruguaio Eduardo Galeano o definia como “aquele gigante de longos braços de aranha, sempre vestido de preto, de estilo despojado e elegância sóbria, que desenhava a espetaculosidade dos gestos que sobram...”

Mas essa era a lenda do destemido Aranha Negra, aquele ser espetacular ao qual Eusébio acariciou os cabelos após conseguir o que parecia impossível e imputou-lhe a bola ao fundo das redes. Pois o homem comum Lev Yahsin, filho de trabalhadores russos, que costumava tomar vodca e pitava um cigarro antes das partidas, dizia que goleiro algum tinha futuro, pois sabia que a história pertencia àqueles que lhe maculavam a rede. Dizia que é desse tormento interior, do medo de ser vencido, que nascia um grande goleiro. O goleiro vive na antessala do medo.

Iker Casillas parece confortável na antessala do medo que frequenta, mas ninguém pode ser feliz entre aquelas linhas da grande área que lhe servem de morada. A glória do atacante é contornar o campo, a felicidade do goleiro é voltar para casa. Que o Porto entenda assim seu papel de porto seguro para Casillas. Terra firme que protege o marujo nauseado das atribulações do mar.