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Aboubakacadabra. E, de repente, o Porto está no ponto (o melhor e o pior de mais um jogo de pré-época)

O FC Porto venceu o Deportivo La Coruña por 4-0, com dois golos de Aboubakar, um de Corona e o último de... Marega

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Por mais cinico que isto vos possa parecer, há contextos em que não ter dinheiro é melhor do que o ter. Vejam o FC Porto, por exemplo.

O FCP teve de vender André Silva e Rúben Neves e não conseguiu comprar mais do que um guarda-redes ao Feirense para ser o terceiro guarda-redes da equipa, atrás de Casillas e de José Sá. Porquê? Porque não há dinheiro. Por outro lado, o FCP viu Marco Silva dizer-lhe "não, obrigado" e aceitar um lugar num clube que luta para não descer em Inglaterra. Porquê? Porque não há dinheiro. E, por fim, o FCP teve de repescar Aboubakar e Ricardo e Marega e Hernâni, futebolistas aledamente proscritos ou com o futuro indefinidamente adiado. Porquê? Porque não há dinheiro.

Acontece que em contextos destes - em que as coisas têm obrigatoriamente de correr bem, porque o histórico de resultados recentes é mau (e o de um determinado rival é bom) - dizia eu, em contextos destes o melhor é fazer como nos filmes americanos: um treinador jovem e motivador e exigente e com o discurso e o jeito certos que injeta o grupo remendado com a confiança necessária para ir à luta.

Sérgio Conceição é esse treinador e o grupo remendado deixou de o ser durante esta pré-época que, para o FCP, termina na quarta-feira, diante do Gil Vicente. Antes disso, hoje, contra o Deportivo La Coruña, o FC Porto dominou completamente (e novamente) o adversário que apanhou pela frente com um futebol de pressão alta, velocidade e constantes trocas de posições, sobretudo entre Brahimi e Soares, e Corona e Aboubakar.

Nos jogos anteriores, o Porto acusou o desgaste e teve períodos instáveis, mas neste isso não aconteceu. Ficou 4-0 e podiam ter sido mais, já que o FCP prolongou durante mais algum tempo a ideia que vem construíndo: insistir, roubar a bola, chegar à baliza contrária com o menor número de toques possível - e marcar. É um estilo direto e arriscado, porque pede muita velocidade nas pernas e precisão no passe, coisas que podem não casar bem.

Aconteceu assim: Aboubakar fez dois, Corona fez um e Marega (sim, Marega) fechou a contabilidade.

Para já, o futebol do grupo treinado por Sérgio Conceição é o melhor dos três grandes: consistente e estável, até porque nove dos onze jogadores que foram titulares hoje estiveram no Dragão em 2016-17 - e os outros dois, Ricardo e Aboubakar, já lá tinham estado antes. A base está feita e, estrategicamente, está tudo como deve ser: Sérgio Conceição e o FC Porto sabem que os rivais ainda estão a arrumar as casas; por isso, convém arrancar melhor do que eles e aproveitar as indefinições alheias, antes que todos se encontrem em condições semelhantes.

O melhor

Aboubakar mostrou outra vez que devia ter ficado no plantel portista no ano passado. O camaronês é intenso, rápido, não desiste e tem aquilo que se pede a um avançado: golo. Brahimi, por sua vez, foi quem veio buscar jogo ao meio-campo quando o Deportivo marcava Danilo e Óliver, mas também foi aquele que mais desequilíbrios causou na linha - o 1.º golo do FCP nasce assim. Motivado, o argelino é sempre candidato a melhor do jogo.

O menos bom

É uma heresia, mas Danilo é o que mais está a demorar a alinhar com as ideias do treinador. Não porque não queira, mas porque durante anos andou a jogar sozinho e a varrer os cantos à casa. Agora, Sérgio pede-lhe que arrisque no passe curto, médio e também longo, e que se ponha muitas vezes ao lado de Óliver na linha do meio-campo. O técnico quer que ele seja mais um médio centro do que apenas um trinco.