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Não foi um doce, mas Moussa de chocolate

O ex-renegado Moussa Marega marcou dois golos na vitória robusta e justa do FC Porto sobre o Estoril. A equipa de Sérgio Conceição dá seguimento à boa pré-época com uma exibição dominadora

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Dentro do tempo cabem muitas coisas e uma delas é o próprio tempo, sendo que o tempo tem - como diz o trava-línguas - tanto tempo quanto o tempo tem. Portanto, o tempo é também uma coisa relativa, ora passa depressa, ora passa devagar, a noção da sua passagem varia e muitas vezes nem percebemos o que se passou entretanto porque nos perdemos a contá-lo.

Por isso é estranho ver este FC Porto tão diferente do anterior FC Porto, embora entre um e outro tenham passado, vá, três meses, o que chega provavelmente para construir uma casa onde antes não existia uma, mas não para destruir uma equipa e pôr lá outra no seu lugar. Um upgrade desses requer comprar boa matéria-prima e depois encaixá-la, reeducá-la, dar-lhes os últimos retoques - em última análise, requer dinheiro, que o FCP tem menos do que os rivais, e tempo, que à partida seria igual para todos.

Mas houve algo que sucedeu que pôs este FC Porto a jogar mais, muito mais,com os mesmos jogadores. Excluindo Ricardo Pereira e Aboubakar, que andavam no desterro dos eternos emprestados, todos os outros tinham sido treinados por Nuno Espírito Santo - e muitos deles já eram do FC Porto desde Lopetegui. Obviamente, estou aqui a puxar pelos nomes dos treinadores porque tenho a impressão que a diferença de então para cá é exatamente esta - o treinador.

O que Sérgio Conceição fez nesta pré-época foi transformar um conjunto viciado no controlo e no equilíbrio numa outra coisa qualquer que ainda se está por descobrir realmente o que é - porque ainda é cedo. Mas há muitos indícios, desde logo o 4x4x2, com dois avançados poderosos, Soares e Aboubakar; depois, um meio campo em que Óliver e Danilo jogam quase lado a lado e não um à frente do outro; e, por fim, aquela intangibilidade que se chama atitude. Ou vontade. Como as equipas também acabam por ser o reflexo da personalidade dos treinadores, este FC Porto é intenso e arrisca e pressiona, fá-lo constantemente, e toda a gente sabe que a probabilidade de errar é maior quanto maior for a pressão a que se está sujeito.

Pois então, o Estoril, que não joga mal e tem boas ideias, foi asfixiado e cercado até sofrer o primeiro golo (35’) pelo ex-renegado Marega (substituiu o lesionado Soares) que aproveitou um disparate alheio. E o Estoril, que tem jogadores interessantes, continuou a ser asfixiado e cercado depois de sofrer o segundo (Brahimi, 54’) e o terceiro (Marega, 62’) e o quarto (Marcano, 70’, com direito a videoárbitro) golos, porque este FC Porto não desarma, mesmo quando já feriu o adversário.

Ter quatro avançados constantemente a perseguir os quatro defesas, ter os laterais bem metidos no meio-campo contrário e os dois médios em rotação, tudo isto contribui para descobrir o caminho para o golo - e o FC Porto já tem o mapa.

Obviamente, há um lado menos simpático, que é aquele buraco que por vezes se vê entre a defesa e o meio-campo, a zona de ninguém que pode ser ocupada pelo adversário se este conseguir passar a primeira fase de pressão portista. O Estoril só o conseguiu fazer lá para o fim do jogo, quando as pernas começaram a fraquejar, pelo que já era tarde para fazer aquela gracinha chamada golinho de honra que atenua a goleada.

Para consumo interno e contra a generalidade das equipas em Portugal, este FC Porto impõe respeito apesar dos poucos aparentes poucos recursos - é que nesta Liga, em que 70% dos adversários dos grandes jogam à defesa, o que realmente importa é fazer golo(s). Depois, é fazer as contas.