Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

Porque os grandes também podem ser humildes

O FC Porto bateu o Rio Ave por 2-1, num encontro em Sérgio Conceição soube reconhecer a qualidade do adversário e mudar a equipa em função dos pontos fortes dos vilacondenses. A vitória, a sexta no campeonato, e a liderança na tabela, são um prémio para uma equipa que não foi brilhante, mas foi muito competente, nomeadamente na 2.ª parte

Lídia Paralta Gomes

FRANCISCO LEONG/Getty

Partilhar

Nisto do futebol, dá sempre jeito ter assim à mão uma tática alternativa. Um Plano B, se quiserem. E por tática não se leia necessariamente “sistema”, mas sim “estratégia”.

Olhe-se por exemplo para o que fez o Sporting em Atenas, que sem mudar exatamente de sistema, mudou claramente de estratégia, com a colocação de Doumbia, rapaz que joga bem em contra-ataque, porque Jesus percebeu que o Olympiacos defendia pior que a malta que costuma jogar no campo ao lado da minha antiga escola C+S. E resultou, como se viu.

Tal como Jesus em Atenas, Sérgio Conceição soube ao que ia na hora de preparar o encontro com o Rio Ave. Sabia que tinha pela frente uma equipa taticamente adulta, que gosta de ter a bola e jogar de olhos nos olhos com os grandes. E, assim, teve a humildade e o respeito de moldar a sua equipa a um rival, no papel, inferior, mas com muitos pontos fortes.

Face a uma equipa que gosta de construir, Sérgio Conceição chegou a Vila do Conde com o meio-campo reforçado, deixando Óliver e Corona no banco e chamando Otávio e Herrera ao onze, rapazes mais preparados para a guerra, para jogar menos bonito se tiver de ser. Porque já antes do apito inicial, o técnico do FC Porto tinha noção que para ganhar em Vila do Conde tinha de ser mais competente que brilhante.

Assim, Marega deixou de ser um segundo avançado para ser uma espécie de extremo e, com Otávio no meio, quer perto de Aboubakar como cá mais para trás, os dragões tiveram outra presença no miolo.

Os frutos acabaram por chegar só na 2.ª parte, com os golos que ditaram o resultado final, mas a construção da 6.ª vitória do FC Porto no campeonato e de mais uma semana como líder começou a ser feita ainda nos primeiros 45 minutos, quando os dragões não se permitiram a ser manietados pelo ataque apoiado do Rio Ave, algo em que o Benfica falhou redondamente.

A 1.ª parte foi assim um duelo tático, brilhante para os que gostam desse aspecto do jogo, mais para o chato para os que apreciam algo mais palpável, golos, remates, oportunidades, essas coisas. Com muito poucos espaços, porque as equipas sabiam exatamente os pontos fortes e fracos do adversário, contam-se pelos dedos de uma mão as situações de perigo.

Logo aos 9 minutos Brahimi podia ter marcado, depois de receber um cruzamento rasteiro vindo da ala, depois de Marega combinar com Ricardo Pereira. O remate saiu forte, mas ligeiramente ao lado. Marega, nas poucas vezes em que não foi apanhado em fora de jogo, também esteve perto, ainda antes da meia-hora, ao enviar uma bola à trave numa jogada em que até tinha Aboubakar na área, mas preferiu rematar.

Quanto ao Rio Ave, e à semelhança do que tinha acontecido com o Benfica, tentou fazer o seu jogo: construção com a bola e pressão alta sem ela. Mas o FC Porto, ao contrários dos encarnados, conseguiu bem travar a primeira fase de construção dos vilacondenses, que tiveram muito menos espaços para progredir. Ainda assim chegaram várias vezes à área do FC Porto, mas sem perigo.

Danilo marcou o primeiro para o FC Porto

Danilo marcou o primeiro para o FC Porto

FRANCISCO LEONG/Getty

O jogo ficou taticamente menos rico, mas mais interessante no que aos acontecimentos de jogo diz respeito, na 2.ª parte, com o FC Porto a entrar melhor, mais rápido, com mais jogo pelas alas. Aos 54’ Aboubakar teve uma grande oportunidade, ao receber um passe em profundidade de Otávio, deixando-o praticamente isolado frente a Cássio. O camaronês até controlou bem, mas demorou tanto tempo a decidir-se que quando rematou já tinha Marcelo em cima.

E no canto, o FC Porto marcou. Alex Telles cruzou e Danilo saltou mais alto para abrir o marcador. O segundo chegaria 13 minutos depois, numa jogada em que Marega tem todo o mérito: correu como louco na ala direita, tentou cruzar, mas saiu-lhe mal, mas quando viu que a bola havia sido recuperada por Brahimi, colocou-se em terrenos mais centrais, pronto para receber o passe do argelino. Depois, foi rematar com força, com a bola a entrar entre Cássio e o poste esquerdo.

Lesão de Telles ia atrapalhando

O FC Porto parecia nesta altura em completo domínio do jogo, mas a lesão de Alex Telles ia atrapalhando em muito os objetivos de Sérgio Conceição. Com a equipa ainda a tentar organizar-se defensivamente e a adaptar Ricardo Pereira à lateral esquerda, um lançamento lateral deu golo para o Rio Ave.

O grego Karamanos recuperou a bola já perto da área do FC Porto e ao ver Nuno Santos sozinho do lado direito colocou-lhe a bola, que o jovem português teve todo o à-vontade para colocar dentro da baliza de Casillas que, pela primeira vez neste campeonato, sofreu um golo.

Faltavam 10 minutos para o jogo acabar e o resultado ficou, do nada, em aberto. Mas a verdade é que depois de um pequeno momento de desacerto, o FC Porto respirou fundo e não perdeu o controlo: o Rio Ave ainda rondou a área de Casillas, mas nunca criou verdadeiro perigo.

A vitória do FC Porto acaba por ser justa, num terreno difícil, não só por ter criado mais, mas essencialmente porque teve a coragem de reconhecer a qualidade do adversário e foi competente, aprendendo ainda com os erros cometidos a meio da semana no jogo da Champions, com o Besiktas.

Tirou um plano diferente na manga e resultou, num campo em que outros não tiveram o mesmo engenho. Ou a mesma humildade.