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Um camaronês, um maliano e um argelino entram num bar e... vocês já sabem o resto

Onde se recupera aquela história de Sampaoli que um dia Jorge Simão citou a propósito da posse de bola. O FC Porto de Sérgio Conceição ganhou por 3-0, com golos de Aboubakar, Marega e Brahimi, depois de uma primeira-parte em que dividiu o jogo com o Boavista de Jorge Simão

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Não tendo eu fontes particularmente bem colocadas em balneários para receber em streaming (claro) informações a cinco minutos do jogo e ao intervalo, resta-me conjecturar o seguinte, depois de uma consulta prévia a diálogos de motivação de filmes americanos no IMBD:

- Aqueles gajos vão em primeiro e as casas de apostas dizem que temos nove por cento de hipóteses de empatar ou ganhar. Mas eles têm duas perninhas e dois bracinhos, são de carne e osso e também se aleijam, hã? Também se aleijam e também têm medo, ok? Portanto, vamos lá para dentro e mostrar como é que se fazem as coisas aqui dentro. Vá, vá, uma rodinha, malta, uma rodinha. Tu também! Um, dois, três, BOAVISTA!

[Abstenho, obviamente, de citar o vernáculo]

Ora, isto é mais ou menos o que Diego Simeone vem dizendo há anos no Atlético de Madrid; a história do esforço ser inegociável, e por aí fora, vocês sabem do que eu estou a falar. Mas, pronto, vamos assumir que isto é verdade, e que esta arma da alma traduzida em palavras como intensidade e velocidade e abnegação e trabalho e sacrifício podem ganhar jogos frente a adversários inegavelmente mais fortes.

Porque é assim que as equipas de Jorge Simão jogam diante dos grandes, obrigando-os a correr mais do que estão habituados e, sobretudo, a a sentir algumas dores no corpo que noutros relvados não sentem. Recupera-se, aqui, uma história por ele contada quando estava no Braga:

"Uma vez, fui sair à noite, fui a um bar e houve uma rapariga muito engraçada que me chamou a atenção. Meti conversa, sentei-me a uma mesa com ela e estivemos a brincar e a beber uns copos até às quatro, cinco da manhã. Rimo-nos, divertimo-nos, foi um fartote. Às cinco da manhã, chega uma outra pessoa, um homem, que invade o nosso espaço, agarra a minha amiga pelo braço. Foram para a casa-de-banho e fizeram amor. O que interessa se tive mais tempo de posse de bola?"

Acontece que, desta vez, Jorge Simão foi ao encontro de um equipa treinada por Sérgio Conceição que faz desses princípios o seu mantra - a fisicalidade e a verticalidade. Portanto, na primeira-parte, aconteceu uma espécie de duelo de quem conseguia igualar quem na competitividade e na disputa da primeira bola e da bola dividida; foram duas equipas desenhadas de forma semelhante: 4x4x2.

E foi equilibrado, porque o Porto não conseguiu ter o jogo interior de que tanto gosta; e porque o Boavista conseguiu impedir que Brahimi e companhia levassem a bola no pé, num primeiro plano, e conseguiu, depois, pôr a bola rapidamente lá à frente através de David Simão ou Fábio Espinho. Houve faltas normais, e outras mais duras, e discussões, empurrões, agarrões, ataques e contra-ataques, enfim, um dérbi à antiga que chegou ao intervalo a zero por manifesta azelhice de Kuca e porque José Sá fez uma boa defesa a um remate habilidoso de Yusupha.

Faltava perceber se o Boavista iria ser capaz de prolongar a intensidade para lá dos 50 ou 60 minutos, já que o Porto - andamos todos nós a ver isso desde o início da época - é bem capaz de aguentar 90 minutos no (cof cof) vermelho nesta altura.

Acontece que, aos 50 minutos, numa jogada de fino-recorte-técnico-tático-coletivo, como diriam os antigos, Aboubakar fez um túnel a David Simão, passou a bola a Marega, Marega para Corona que cruzou para Brahimi que cruzou para Aboubakar para o primeiro golo da noite. Ou seja, aquilo que Kuca falhara redondamente, Brahimi acertou em cheio com uma assistência para o oitavo golo do camaronês.

É que há uma outra verdade escondida atrás da moral da inegociabilidade do esforço - dá jeito ter talento, e o Porto tem Brahimi.

A partir daqui, o jogo teria forçosamente de mudar. O Porto iria encontrar mais espaços porque o Boavista queria mais, e quando Jorge Simão fez entrar André André para o lugar de Corona, Jorge Simão decidiu fazer o all in: tirou um central (Sparagna) e pôs um médio ofensivo (Rochinha) no seu posto; Idris recuou do meio-campo para o eixo e abriu-se um buraco que os portistas povoaram. Correu mal: veio o 2-0, por Marega a passe de Brahimi, e depois o 3-0, por Brahimi a passe de André André. Simão arriscou, Conceição aproveitou.

E o campeonato continua como dantes, com o FC Porto à frente (28 pontos), o Sporting em 2.º (26) e o Benfica em 3.º (23).