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A falta de espaço, de tempo e de soluções (mesmo quando se ganha)

O FC Porto ganhou (2-0) ao Belenenses, mas, durante muito tempo, lidou mal com a falta de espaço imposta por uma equipa fechada, recuada e organizada, que soube esperar até que se notasse a falta de tempo que houve para os dragões recuperarem do jogo a meio da semana

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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Podemos ter jogadores toscos, altos, pouco rápidos e algo trapalhões, com aparente alergia para fazer coisas bonitas com a bola, mas há uma coisa com que, no futebol, ninguém se dá mal - o espaço. Escrevo na primeira pessoa do plural porque podia ser eu e os meus amigos, o leitor que está a ler com os seus, ou uma equipa da distrital, do Campeonato Nacional de Seniores e uma da primeira ou da segunda liga, que o mesmo se aplica e acho que já perceberam a ideia:

Qualquer pessoa que saiba passar, receber e controlar uma bola se dá bem quando está num campo de futebol e tem espaço para jogar.

Podemos estar num jogo entre solteiros e casados, ao sábado à tarde, seguido de uma cerveja para os amigos, ou a ver o FC Porto-Belenenses, que a regra vai dar ao mesmo. E imagino que Domingos Paciência, quando matutou sobre o que poderia fazer no estádio onde as equipas que o visitam perdem quase sempre, disse aos jogadores que treina que teriam de encurtar o campo, recuar, juntar as linhas, obrigar os dragões a jogarem por fora, onde estão mais longe da baliza. Para fazer o mesmo a que todas estas coisas vão dar: tirar espaço ao adversário.

E o Belenenses juntou os jogadores, formou quase duas linhas de cinco, jogadores um metro atrás ou à frente dos outros, encostou-se à própria área e esperou que o FC Porto diligenciasse o transporte de bola até lá para, só aí, apertar e pressionar. A equipa de Sérgio Conceição, intensa, rápida e vertical, mas não tanto como de costume, jogava muito por Brahimi e Hernâni e pouco com André André, Herrera ou Aboubakar com bola e virados para a baliza, ao centro.

Não havia espaço e isso reduzia o domínio e o controlo dos dragões, que existia, aos remates dos dois extremos, que só apareciam quando houve as deficientes receções de bola e os passes simples errados pelos centrais do Belenenses. Porque os pés não melhoram com espaço, mas, com ou sem ele, podem sempre mostrar o que de menos bom têm. Como Maurides ou Ronny, que recebem bolas na área de José Sá, para rematarem, e disparam coisas frouxas no fim de contra-ataques rápidos em que o Belenenses ataca o muito espaço que os dragões deixavam, na sua metade do campo, ao perderem a bola.

Tudo era apertado ou fechado ao centro, com os dragões a serem perigosos por aproveitamento de erros e não por iniciativa contínua, até momento em que o espaço baixa na hierarquia. Um canto, em que o defender de costas para a baliza, o antecipar-se ao adversário e, sobretudo, o atacar a bola sem hesitações, são as prioridades. Nenhuma foi cumprida pelos homens do Belenenses, que falharam na bola cruzada por Alex Telles que foi parar a Hector Herrera, o mexicano que, pelo segundo jogo seguido, marcou (42’) na ressaca de um canto.

O que tantas vezes se vê era previsível que se fosse ver de novo, a partir daqui: o Belenenses, com o tempo, cansar-se-ia mais, a concentração dos jogadores iria descendo e, a perderem, teriam de arriscar e isso abriria espaço ao FC Porto, a este FC Porto rápido, intenso e vertical que, por uma questão física, tem tido mais andamento que a maioria dos adversários.

Não aconteceu e creio haverá razões várias para isso.

Porque o Belenenses, até mais ou menos à hora de jogo, manteve-se compacto, fechado e recuado, o que desgasta os neurónios e as soluções a quem os tinha de desmontar, mesmo que os dragões dominassem quase tudo. Uma insistência que cansou os médios e os atacantes do FC Porto, cada vez menos pressionantes e perseguidores quando a equipa perdia a bola, e os apanhou na curva quando Domingos Paciência passou a jogar com dois avançados e a arriscar, pressionando a todo o campo. E aí, quando deixou de faltar espaço, notou-se a falta de tempo.

As menos de 72 horas desde o jogo de quarta-feira, com o RB Leipzig, a falta de descanso e o único treino como deve ser que a equipa logrou fazer, notaram-se. O espaço passou a ser para o Belenenses usar e ganhar bolas e colocar passes, mesmo que Maurides continuasse sem acertar remates. E o FC Porto tivesse que disparar os seus de longe, ou fruto do improviso individual. Apenas uma desmarcação de Aboubakar na área, seguida de um passe de calcanhar para trás, resultou num duplo tiro de Sérgio Oliveira ao boneco.

Os dragões sobreviveram aos repelões e esticões aleatórios no encontro, sem terem as pernas que, por hábito, lhes têm valido para dar cabo dos adversários, para aproveitarem o espaço que o Belenenses abria ao arriscar. Só aos 90’, no último esforço de Herrera para conduzir um contra-ataque com discernimento, o mexicano fixou e soltou para Aboubakar, na área, sentar um adversário com uma simulação e picar a bola sobre o guarda-redes.

Foi bonita a forma como o FC Porto acabou, embora também fatigante, pouco intensa e lenta. Sérgio Conceição avisou que não iria ter o calendário como desculpa, mas o desgaste que houve com a falta de espaço foi o que o limitou, e muito, a equipa.

Mesmo acabando a ganhar, acabou a notar-se (e muito) a falta de tempo num plantel que é curto e, com gente lesionada (Soares, Marega, Otávio), fica com falta de soluções ao ponto de ter de jogar um miúdo (Galeno) da equipa B.