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Sem medo, mas só até seis minutos do fim

Vítor Oliveira prometera um Portimonense sem receios e foi assim, atrevida, arriscada e organizada, que a equipa foi ao Dragão sofrer um golo, marcar dois a seguir e ficar a vencer até aos 90 minutos. Mas, depois, com menos um jogador e Sérgio Conceição expulso, sofreu com os remates de Aboubakar (90'+1) e Brahimi (90'+5) e viu o FC Porto seguir vivo na Taça de Portugal

Diogo Pombo

JOSE COELHO

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Alex Honnold é um tipo corajoso. Ou, para nós, que somos comuns trabalhadores de secretária, humanos de uma vivência diária situada algures entre o casa-trabalho-lazer-desporto-divertimento-estar com amigos, ele é um maluco. Um chanfrado, um viciado em adrenalina. Alex Honnold é um americano cuja vida é escalar todo o tipo de penhascos verticais e escarpados, quanto mais altos melhor, sem cordas, arneses ou apoios. É alguém que passa horas seguidas, todos os dias, sempre para lá de uma altura da qual, se cair, é morte certa.

É a única pessoa que escalou os mais de 2.308 metros do El Capitán, um monólito de granito no parque de Yosemite, nos EUA, só com a ajuda do próprio corpo.

Querendo jornalistas e cientistas saber o que lhe vai na cabeça, embora não sendo possível, logistica e humanamente, fazerem ressonância magnética enquanto ele está a fazer isto, convenceram-no a entrar numa máquina. Queriam saber se o tipo que é alcunhado de No Big Deal - a resposta que ele mais dá, que se traduz para “nada de especial” - sente, ou não, medo. Sensação que ele, para surpresa, não sente, porque a amígdala, uma parte do nosso cérebro que funciona como uma espécie de filtro para o medo, no seu caso, não é despertada por nada.

Ele praticamente não sente medo. E conto-vos o que ele é e não sente porque medo era a coisa que Vítor Oliveira não queria que os jogadores do Portimonense sentissem no Estádio do Dragão, recinto todo-poderoso onde tinham sido a única equipa, esta época, a marcar dois golos. Quando medo era algo natural e compreensível que sentissem quando, ao quinto minuto e ao primeiro canto do jogo, a cabeça de Danilo lhes castigou, com um golo, uma buracada defesa à zona.

Estar a perder, tão cedo, no campo de um grande, era três quartos do caminho andado para acabar derrotado e, pior, domesticado no jogo. Medo, aqui, não seria temer que os dedos fugissem da saliência a que estavam agarrados e deixassem o corpo em queda livre até à morte, como o que Alex Honnold não sente - mas, sim, ter receio de reagir ao golo sofrido e ir para frente, abrindo espaços, falhando passes e arriscado pressionar um adversário que tem melhores jogadores e é melhor como equipa. Só que o Portimonense não teve esse medo.

A equipa esticou os laterais até às linhas, os centrais mantiveram os passes na relva e para a frente, acertando muitos nos pés de Wellington, Tabata e Nakajima. Os três da frente, nenhum realmente um avançado, que trocavam de posições entre a área e as costas dos médios do FC Porto com uma facilidade anormal. Em poucos passes, por grande parte ser para a frente e nos espaços certos, o Portimonense acabava quase todas as jogadas a cruzar (rasteiro) para a área ou a dar ao japonês os três remates perigosos que fez até ao intervalo.

Descanso a que chegou empatado, porque a falta de medo e a crescente confiança faziam-os pressionar em cima e fazer com que Tabata roubasse a bola a Ricardo Pereira, soltasse em Nakajima, cujo remate ressaltou e alterou-se para um cruzamento que passou por cima dos defesas e acabou no remate de Wellington (30’), diante de um Iker Casillas regressado, mas desamparado.

JOSE COELHO

E os dragões, mesmo sendo rápidos, agressivos e intensos, não encontravam Aboubakar devido aos caminhos tapados pelo adversário. Abusavam de Corona e tornavam-se previsíveis, limitados por Hernâni ser um extremo de receber a bola na linha e não de jogo interior, e por Óliver, apesar de o melhor passador de bola da equipa, mover-se a par de André André e não furar linhas. Por isso apenas ameaçavam através de cantos, livres cruzados para a área e lançamentos laterais longos, jogadas aéreas que o Portimonense nunca ganhava e sempre tremia.

Para amenizar o que fazia pior, a equipa de Vítor Oliveira recuou, junto as linhas e passou a organizar-se, sem bola, uns 10 ou 15 metros mais atrás. O FC Porto ficou com mais bola e mais tempo para ter mais gente na metade do campo adversária, embora com menos espaço. Brahimi substituiu o infrutífero Hernâni pouco antes de uma hora passar no relógio e tentou, com dribles, rodopios e fintas esguias, abrir um caminho que fechado se punha pelos poucos metros que os jogadores do Portimonense deixavam entre eles. Contenção e dobras.

O Portimonense, organizado e com tino, já contra-atacava menos vezes e deixou de explorar tanto a velocidade de Nakajima. Mas, na única vez que se aproximou, com calma, da área portista, um passe rasteiro e para trás ajeitou a bola que Pedro Sá bateu com força para fazer um golaço a 30 metros de distância da baliza de Casillas (69’).

Eles punham-se a ganhar e, nos 20 minutos seguintes, por muito que Brahimi rodopiasse e forçasse a sua vontade com a bola, que Alex Telles cruzasse bolas e Marcano e Felipe as pedissem, na área, os dragões nada inventaram que se assemelhasse a uma oportunidade de golo. Quem vinha de Portimão já só defendia, ainda mais após Felipe Macedo ser expulso (78’), sem medo de unir a equipa na área e proteger um resultado que qualquer equipa ali guardaria. O FC Porto, cada vez mais desesperado e urgente, apenas bombeava bolas e fervia com tudo, como na jogada em que Rúben Fernandes desarma André Pereira na área e Sérgio Conceição é expulso por protestar contra um corte limpo.

Com tanta paragem, falta e interrupções, houve sete minutos para compensar, tempo em que os jogadores do Portimonense pareceram ter o que Vítor Oliveira não queria. Houve o medo de pressionar e não subir para fechar espaços quando, em linha, vários jogadores deixaram Aboubakar atacar o espaço nas costas da defesa e empatar. O medo que Jadson, um central entrado já tarde no jogo, terá sentido para tentar pontapear disparatadamente a bola quando ninguém tinha por perto, colocá-la nos pés de André Pereira. O passe que ele fez era para Aboubakar, que falhou na receção de bola e ela seguiu até ao 3-2 de Brahimi.

Cinco golos, duas expulsões e a segunda reviravolta do jogo, nos descontos, em quatro minutos (90’+1 e 90’+5).

Não foi uma queda vertiginosa de um penhasco mal escalada, mas foi um susto, um valente susto, provocado por um Portimonense que se recusou a ser medroso até aos descontos - quando pensou mais no medo de morrer do que na glória que teria se sobrevivesse. O FC Porto segue vivo na Taça de Portugal, mas Sérgio Conceição bem dissera que o primeiro jogo pós-seleções é "difícil e perigoso".

Também ele terá tido medo. Se sim, com razão.