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Para bom entendedor estas palavras bastam: o Porto está nos oitavos e não fez uma única contratação. Nem todos podem dizer o mesmo

O FC Porto está nos oitavos de final da Liga dos Campeões após uma vitória robusta (5-2) diante do Mónaco. É o único clube português a chegar a esta fase esta época. Os golos portistas foram de Aboubakar (2), Brahimi, Alex Telles e Soares; Glik e Falcao marcaram para os monegascos

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Há um lado libertador mas também claustrofóbico do facto de dependermos de nós - é o facto de só dependermos de nós. Se a coisa correr bem é porque fomos competentes, e se correr mal é porque falhámos; não há meio termo nestes casos e toda a honra e toda a glória fica do lado dos vencedores e a culpa morre proverbialmente solteira no lado dos derrotados.

O FC Porto estava neste ponto. Ou seja, para passar aos oitavos de final bastava-lhe ser melhor do que o Mónaco, independentemente do que viesse a acontecer no Leipzig-Besiktas, e o contexto até lhe era favorável, para não dizer bastante favorável.

O Mónaco, especificamente este Mónaco, é uma equipa enfraquecida pela implacável lei do mercado e definitivamente afastada das competições europeias. Acto contínuo, o Mónaco ia apresentar-se desfalcado no Dragão para encontrar um FC Porto com os seus melhores futebolistas - bom, mais ou menos, que Otávio acabou por se lesionar no aquecimento e por isso André André foi titular.

E talvez isso justifique a pequena confusão no início de jogo portista, que andou ali às apalpadelas até cada um dos seus jogadores encontrar a sua posição, sobretudo à direita onde Ricardo, Herrera e Marega formaram um triângulo maleável, mutável e intenso que baralhou os monegascos. Num desses lances, Ricardo sofreu falta, Alex Telles bateu o livre para a confusão, a bola foi cortada e sobrou para Brahimi que assistiu Aboubakar.

Aos nove minutos estava desfeita a ansiedade natural, e a partir daí o FC Porto passou a controlar o adversário num jogo não muito bem jogado, é verdade, mas que servia os interesses da malta de Sérgio Conceição: transições rápidas, poucos toques e chegada à baliza de Benaglio. E então, num instante de contra-ataque, Danilo assistiu Aboubakar com um toque subtil e este fintou e rematou para o 2-0.

Se houvesse um plano perfeito de jogo, seria parecido com este; e se este plano perfeito não incluísse contingências estúpidas, também seria muito semelhante com este: quando Felipe reagiu à mãozada na cara de Ghezzal e levou o vermelho pôs em causa uma ideia a curto e médio prazo - o brasileiro não irá jogar a primeira mão dos oitavos de final da Champions.

Ora, antes do intervalo, as duas equipas ficaram reduzidas a dez e era muito provável que o jogo ficasse mais partido na segunda-parte, porque havia mais espaço para cobrir e menos pernas. E isso poderia ser perigoso para o FC Porto, não fosse Aboubakar ter trocado de corpo com Brahimi, assistindo o argelino com um passe subtil para o 3-0.

A partir daqui estava tudo feito e a segunda-parte tinha dois caminhos possíveis: o da formalidade, sempre chato e aborrecido; ou o do golo, porque uma equipa já tinha o objetivo praticamente fechado e a outra não tinha um por que lutar.

Foi o que aconteceu, felizmente, e o jogo acabou 5-2, sem que nunca o triunfo portista estivesse ameaçado, já que a vantagem nunca baixou da margem de três golos de segurança, De chofre, foi assim: Glik marcou de penálti e fez o 3-1, Alex Telles rematou em força para o 4-1, Falcão cabeceou para o 4-2 e pediu desculpas aos adeptos portistas, e Soares fez o mesmo a um cruzamento de Ricardo para o 5-2 final.

Em todos os golos sofridos o FC Porto reagiu com golos marcados, o que sugere pragmatismo e cinismo de quem já queria poupar o cabedal para o campeonato. Ou então estou a ver astúcia e estratégia onde estas não existem e isto foi apenas o karma a dar a volta, porque uma valente percentagem dos remates resultaram em golos - coisa que, convém recordar, não aconteceu na sexta-feira passada.

Seja como for, o FC Porto foi competente e capaz e conquistou a sua independência - é o único clube português a disputar os oitavos de final da Liga dos Campeões esta época. E não fez uma única contratação.