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O maior risco na vida é não arriscar, dizem eles

O Rio Ave teve sempre mais bola do que o FC Porto, no Dragão, e como não mudou o que fosse à forma como quer jogar - apoiado, com passes curtos, sem chutões e a construir desde trás pelo centro -, sofreu três golos que podiam ter sido muito mais. Porque é a equipa que mais arrisca tendo em conta as possibilidades que tem

Diogo Pombo

MANUEL ARAUJP/ Lusa

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Já vamos em quatro meses de época e acho que, se não for toda, muita gente saberá que o Rio Ave, salvo as devidas diferenças - que são enormes, gigantes, abismais e outros adjetivos sinónimos que houver -, é uma pequena equipa a comportar-se como uma espécie de Manchester City dos pobres. Uma equipa que assinou um tratado contra o chuto para a frente e firmou um pacto de futebol associativo, de bola sempre na relva, jogo a ser construído desde trás, com passes curtos e jogadores a esticarem-se para que abrirem espaço a outros.

Por isso, ao fim destes meses todos, o Rio Ave é a equipa que, em média, mais posse de bola tem no campeonato, a segunda que mais faltas sofre e a terceira que mais passes curtos faz, estatísticas instantâneas de quem faz questão de jogar como joga: de forma apoiada, com a bola no pé, passes curtos e a abusar do guarda-redes. Porque, e para não me repetir mais, Cássio, um tipo de 37 anos que sempre foi sofrível a fazer coisas com os pés, é o quinto jogador da equipa de Miguel Cardoso que mais vezes tocou na bola esta época.

Quem acha que o futebol é o contrário a jogar longo e direto e a especular com ressaltos ou a improvisar à base da força e da rapidez, gosta do Rio Ave. E dá gozo ver uma equipa chegar ao Dragão, sem um jogador que, no momento, fosse capaz de ser titular no FC Porto, a não mudar uma grama nesta maneira de jogar. No fundo, a arriscar viver como só um grande, com grandes jogadores, tornaria esta vivência sustentável (como, lá está, a forçada comparação com o City de Guardiola).

É por isso que, por muito bonito e agradável que seja ver gente como Tarantini, Geraldes, Rúben Ribeiro e Pelé, quase sempre, com perto de 65% da posse de bola, a avançarem no campo com a bola a ser passada com força e de primeira, eles erram. Aliás, estão sempre mais perto de errar do que o adversário. E quando se tem piores jogadores que o adversário e esse adversário tem Danilo a apertar, Brahimi a driblar, Marega a sprintar nas costas e Soares à espera na frente, arrisca-se ainda mais.

Um passe errado de Cássio faz os dragões recuperarem perto da área, Herrera dar de calcanhar e Soares rematar o 1-0. Os segundos que Rúben Ribeiro queima com a bola queima Geraldes, que antes de receber o seu passe já está queimado pela pressão, perde para Brahimi, que lança Marega na imensidão de metros das costas dos defesas para contornar o guarda-redes e encostar o 2-0.

O maliano converteu uma das cinco ou seis vezes em que os dragões, pressionando perto da área, ou simplesmente fechando bem os espaços na sua metade do campo, recuperaram a bola e lançaram, assim que puderam, alguém no espaço entre a última linha do Rio Ave e o seu guarda-redes. Porque o controlo da profundidade é das coisas em que os vilacondenses erram, e muito, e que os faz pagar como um pequeno o arrojo de arriscarem como um grande.

Não estão preparados para perder a bola ao centro, como quase sempre perdem por ser por ali que insistem e circulam; não apertam rápido e com intensidade após essa perda, como o fazem só quando o adversário constrói desde trás; não têm um plano B ou C de construção de jogadas (laterais a irem buscar dentro, médios a abrirem com extremos, um lateral a trocar com um médio, etc.) para evitarem que quem defende se habitue a defendê-los. E a anulá-los.

Aos poucos, as saídas de bola do Rio Ave emperraram mais e a equipa chegava menos vezes à metade do campo portista. E Marega, o trapalhão e pouco técnico Marega, ia tendo oportunidades para marcar ou assistir alguém, a prosperar onde essas qualidades que não tem se tornam irrelevantes - na profundidade. E quando ele, com o tempo, se cansou, já havia Aboubakar em campo para aproveitar o mesmo mau controlo da profundidade de uma defesa, lenta, que continuava a encostar-se à linha do meio campo.

O camaronês desmarcou-se, sprintou para o espaço e foi travado no resvés da área por Pelé, que foi expulso, já depois de Danilo o ser por empurrar a bandeirola de canto e não ser robótico, como os árbitros às vezes parecem querer. Aboubakar fez o 3-0 e selou a vitória de um FC Porto que se contentou em ter menos bola e se especializou a explorar a maior fragilidade do Rio Ave.

Uma das, pois uma equipa que tanta bola tem e tão bem a troca até à área, tem de ser capaz de rematar mais bolas à baliza (acertou dois e, no campeonato, é apenas a nona equipa que mais remata) e causar mais perigo. Por muito que Rúben Ribeiro, Geraldes ou João Novais tenham bons pés, são gente de dribles e artimanhas lentas e não velozes, das que provocam desequilíbrios. Maleita que se acentua quando na área está um avançado como Guedes, que tem de ser servido para aparecer no jogo.

Mas o risco está, esteve sempre com o Rio Ave, que terminou o jogo sem chutar uma bola para a frente (sim, esperei e não contei uma) e julgo que continuará a estar, porque “o maior risco que [eles têm] na vida é não arriscar”, como diz Miguel Cardoso.

É bom de ver, é muitas vezes de louvar e fazem falta mais equipas assim. Mas é uma filosofia que os faz errar, e muito.