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Sim, ainda há jogos bons na Taça da Liga

O desequilíbrio, que se esperaria de um FC Porto com quase todos os titulares a jogar contra um Paços de Ferreira apenas com habituais suplentes, foi o equilíbrio de um jogo intenso, rasgado e emocionante, ganho (2-3) pelos dragões. Agora, vão defrontar o Sporting nas meias-finais

Diogo Pombo

OCTAVIO PASSOS

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Há dias, um tipo que, quando jogava, pouco falava e muito arisco era a entrevistas, felizmente mostrou como a idade pode mudar uma pessoa. Pablo Aimar conversou com um jornalista argentino. Se, enquanto jogador, dele nunca se ouviu algo a sair de dentro da caixa, era de esperar as tiradas filosóficas e as frases bonitas. Ou o expor de forma simples aquelas coisas que difíceis são de simplificar, como esta: “Quanto mais tranquilos, contentes e libertos os jogadores estiverem, melhor vão jogar. É preciso dar-lhes a tranquilidade de que, ali dentro [do campo], são eles que jogam”.

Julgo que esta frase, simplificada e trocada por miúdos, já que muito miúdos são os rapazes que são ensinados por Pablo Aimar (treina a seleção sub-17 da Argentina), também pode ser escrita assim: “Vão lá para dentro e divirtam-se”. Que é como imagino que Petit a diria aos jogadores que colocou em campo contra o FC Porto, a maioria dos quais muito pouco têm jogado esta época, pelo Paços de Ferreira.

São novos e inexperientes, ou experientes e sem ritmo, todos com poucos minutos e a terem de ir contra uma equipa quase toda preenchida com titulares, por um treinador chateado com o jogo que lhe é imposto na véspera de se assinalar mais uma volta ao sol, pela competição a quem menos gente liga. Eles, pouco habituados a jogarem juntos, levam com o dragão habitual - mecanizado na pressão, vertical no uso da bola e automático a lançar o vício de Soares e (sobretudo) Marega de atacarem a profundidade, assim que alguém se vira para a baliza com a bola.

Cada um permitiu que Rafael Defendi se comporte como o apelido quando Brahimi, quem mais vezes serve os outros com passes e a ele próprio com fintas, irrompe por 60 metros do campo com a bola, num contra-ataque, até a rematar com força na área. O argelino marcava quatro minutos depois de Diego Reyes marcar, num canto. Em 20 minutos, e com Herrera a fazer e a correr como o trinco que nunca se lhe tinha visto, o FC Porto aproveita o estado em que o jogo estava.

Não o controlava, muito menos dominava, mas sim explorava os espaços e as desconcentrações que o Paços ia repetindo. Pouco rotinada e habituada a jogar com estes jogadores, a equipa de Petit não dava um chutão para a frente ou deixava de tentar pressionar numa jogada. E as coisas más do arrojo vieram antes das boas. Luiz Phellippe, um avançado com pés anormais para o tamanho que tem, primeiro dominou, rodou e rematou perante a apatia de Reyes, a bola vinda de um cruzamento. Depois, deu a parte de dentro do pé direito para finalizar a um toque a bola rasteira que Hêndrio lhe passou da esquerda.

O Paços jogava liberto e com jogadores visivelmente contentes por terem uma oportunidade e nada terem a perder (já não se podiam qualificar para a final four da Taça da Liga).

Mas Sérgio Conceição, a quem convinha ganhar para ter a certeza que ia discutir este troféu a Braga, em janeiro, não estava a gostar deste raro jogo aberto, renhido e emocionante na Taça da Liga. O treinador trocou Maxi e Soares por Corona e Aboubakar ao intervalo e, quatro minutos após o recomeço, o mexicano cruzou para a cabeça do camaronês desviar a bola de um guarda-redes em contrapé.

Daqui para diante, a partida tornou-se numa sucessão de passes do FC Porto, a levar a bola de um lado ao outro do campo, com mais faltas, carrinhos e metros entre os jogadores à mistura. Apesar do irrequieto Andrezinho - só ele ameaçou a baliza, de longe, e apenas aos 88’ - e das tabelas que tentava ligar, o Paços não mais encontrou Luiz Phellype na frente, porque é sempre quem menos minutos e ritmo tem que quebra primeiro num jogo.

Um jogo que sucumbiu ao modo de piloto automático, animado e rasgado na intensidade, mas sem os remates e oportunidades que tivera na primeira parte. Tão discutido que as faltas e os choques e o contacto físico em que Danilo, hoje suspenso, prospera, foi a perdição de um Herrera que sprintava para cortar ataques rápidos e batalhava como nunca. O mexicano, após sofrer uma falta, deu uma achega com o cotovelo em Andrézinho e foi expulso, já perto do fim.

O 2-3 apurou o FC Porto para a final four da Taça da Liga que sempre lhe disse pouco, mas à qual, em janeiro, muito quer dizer pelos anos que leva sem troféus. Teve o que pretendia após vencer uma equipa eliminada e muito rodada, com jogadores parcos em minutos que, jogando libertos, tranquilos e contentes, deram luta e animação - foram apenas a segunda equipa portuguesa, esta época, a marcarem dois golos aos dragões.

Quem disse que só há jogos aborrecidos nesta competição?