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Não foi tortura medieval, mas lá que o FC Porto sofreu, sofreu

O FC Porto foi a Santa Maria da Feira vencer por 2-1, num jogo muito difícil e raramente bem jogado. Mas nestes jogos como naqueles com boa nota artística, o que fica para a história são os três pontos

Lídia Paralta Gomes

JOSÉ COELHO/EPA

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De Santa Maria da Feira sabem-se várias coisas, mas vou aqui escolher três. Já se chamou Vila da Feira e há muito boa gente que ainda trata a agora cidade por Vila da Feira, para exasperação dos seus habitantes; é a terra das fogaças e, por fim, alberga aquela que será muito provavelmente a maior feira medieval do país.

As feiras medievais são eventos engraçados, têm boa comida e trajes mas todos nós sabemos que os homens medievais tinham o seu lado sádico e as torturas, por aqueles dias, eram tramadas. E aquilo que o FC Porto passou esta noite em Santa Maria da Feira não foi bem bem tortura medieval, mas deu para sofrer muito. Tal como, aliás, o Sporting já tinha sofrido aqui há uns meses. Terreno difícil este de Santa Maria da Feira.

No final, a vitória por 2-1 do FC Porto, mais na raça no que na estética, é mais do que uma vitória: é uma daquelas conquistas que, muitas vezes, valem campeonatos. Porque depois de se colocarem em vantagem aos 76 minutos, por Felipe, os dragões viram-se em inferioridade numérica, por expulsão do mesmo Felipe aos 84’ e as constantes paragens, num jogo que foi bem durinho, levaram o árbitro Fábio Veríssimo a dar 6 minutos de compensação. Isto num cenário em que as condições meteorológicas foram agravando-se conforme avançava o relógio, num relvado que também não ajudou propriamente à prática do bom futebol.

Bom futebol que, diga-se, não apareceu em Santa Maria da Feira, nem de um lado, nem do outro, algo que se previu logo aos primeiros minutos de jogo. A primeira parte valeu apenas pela emoção que surgiu para lá do minuto 20. Até aí o FC Porto dominava, mas sem criar perigo e o Feirense espreitava, sem nunca conseguir partir para um contra-ataque forte. Foi preciso chegar aos 22’ para os dragões conseguirem finalmente ligar uma jogada coletiva e logo à primeira deu golo, o que não é uma má estatística. E logo num lance que às tantas até parecia morto, depois de Corona cruzar muito largo. Só que Brahimi não desistiu do lance, foi ganhá-lo lá quase na linha lateral e passou atrasado para Aboubakar, que girou bem, rematou e viu a bola tocar em Luís Rocha antes de entrar na baliza de Caio Secco.

MIGUEL RIOPA/Getty

Era aquele golo que, diz-se nisto da gíria do futebol, prometia “desbloquear o jogo” para o FC Porto. Prometia, mas nem se passaram três minutos até Felipe se esquecer de Luís Rocha após um livre de Tiago Silva, com o central a cabecear certeiro para o empate. Foram minutos de alguma emoção daí até ao final da 1.ª parte: o Feirense, em desvantagem, tentou ser mais afoito e do outro lado Caio Secco fez duas boas defesas a remates de Brahimi e Alex Telles.

Após o intervalo o cenário foi mais desolador, ao nível do jogo jogado: houve muita combatividade, às vezes à margem da lei, mas muito pouca qualidade, pelo que o golo de Felipe aos 76 minutos, numa cabeçada lá nas alturas após um canto marcado por Alex Telles, foi festejado por Sérgio Conceição como se estivessemos no último minuto do prolongamento da final de um Campeonato do Mundo.

Percebe-se a descarga de adrenalina de Sérgio Conceição, que algures a meio da 2.ª parte deve ter visto o caso mal parado, mesmo com um FC Porto a arriscar e jogar muito subido, com a linha defensiva quase sempre a pisar a linha de meio-campo. Mas o Feirense defendeu bem, limpou tudo o que conseguiu, jogou com as suas armas, no seu difícil campo e só mesmo um lance de bola parada conseguiu quebrar os homens de Nuno Manta Santos.

Não foi bonito, mas valeu três pontos e no final do campeonato, se o FC Porto foi campeão, este será um daqueles jogos, uma daquelas vitórias que Sérgio Conceição chamará de “essenciais”.