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Não é campeão quem quer, mas quem mais quer e ninguém quer tanto como este FC Porto

O FC Porto deu a volta ao marcador e ganhou ao Vitória de Guimarães por 4-2, sagrando-se campeão de inverno. Agora que acabou a primeira volta, fica a pergunta: e se Sérgio Conceição tiver reforços, onde é que isto vai parar?

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Esta história começa pelo fim, no momento em que Hernâni fala no círculo de jogadores do FC Porto que ali se juntam depois de ganharem ao Vitória de Guimarães por 4-2. É uma imagem insólita, porque Hernâni é habitualmente suplente de um suplente, não é portanto rapaz para ter muitos minutos na equipa. Ainda assim, é ele que se dirige aos colegas, e não Danilo ou Marcano ou Brahimi. É possível que o esteja a fazer porque foi seu o cruzamento para o 3-1 de Marega que desfez as dúvidas num jogo que pareceu tremidinho na primeira parte, mas que acabou com a vitória do campeão de inverno.

Curiosamente, Hernâni e Marega foram jogadores do Vitória de Guimarães e, mais curioso ainda, foram ambos emprestados pelo FC Porto na época passada e agora cá andam os dois. Eles mais Aboubakar, Sérgio Oliveira e Ricardo Pereira, que para tornar isto ainda mais esotérico também jogou no Vitória de Guimarães, e também andou emprestado no ano passado, e também fez uma assistência para Marega (4-2) neste jogo.

Obviamente, tantos renegados-regressados que se tornam úteis não são atos isolados, devem fazer parte de um plano maior, escrito algures num lugar qualquer. A minha teoria, baseada em pouca coisa, é a de que o FC Porto está a seguir um por um os passos protocolares do guião clássico da superação.

Vejamos: há um clube sem dinheiro que contrata um treinador jovem e carismático que pega numa equipa magra - magérrima - e a transforma numa máquina implacável, destruidora de egos e de vontades.

Porque é isto que o FC Porto faz: cerca, amassa, golpeia e quebra os adversários pelo ininterrupto massacre a que os sujeita. Ver este FCP jogar é assistir a explosões de adrenalina e a fibras musculares em constante contração, e contra o Vitória de Guimarães o quadro não mudou, apesar das circunstâncias.

É que o Vitória marcou primeiro, por Raphinha, que apareceu nas costas da defesa num lançamento longo, e os jogadores do FC Porto tiveram então de reagir a um estímulo diferente - era a primeira vez no campeonato que os dragões se viam obrigados a dar a proverbial cambalhota no marcador.

E então houve nervos e erros e berros - o Sporting passara a ferro o Marítimo instantes antes - e até ao final da primeira parte os portistas não remataram uma única vez à baliza de Douglas. Parecia que o plano de Pedro Martins poderia dar certo: defender lá atrás e pôr a bola rapidamente nos corredores para apanhar o Porto em contra-ataque.

Só que os bons planos e as boas estratégias acabam por ruir diante de rivais que os vão desmontando bloco por bloco, peça a peça, com a força bruta e a genética abençoada de Marega, Aboubakar e Danilo, e o talento desgraçado de Brahimi, até não restar mais nada do que o chutão para a frente e a fé em deus nosso senhor jesus cristo.

E quando esse momento chegou e quando o Porto empatou, num vólei de Aboubakar a cruzamento de Corona, já Òliver e o próprio Aboubakar tinham falhado oportunidades de golo, sinal de que o inevitável estava para acontecer.

Depois, Brahimi recebeu um passe de Alex Telles, fintou o pobre Jubal, fez um chapeuzinho a Douglas e aconteceu o 2-1; mais tarde, Hernâni, primeiro, e Ricardo, depois, cruzaram de pé esquerdo e de pé direito para um golo de cabeça de Marega e outro destro também de Marega.

Com 4-1 e com o Vitória diminuído fisicamente pelo adversário, o Porto relaxou tanto que Reyes perdeu uma bola estúpida que Héldon aproveitou para reduzir mais uma derrota dolorosa contra um dos grandes - 0-4 contra o FC Porto (Taça de Portugal), 1-3 contra o Benfica (Liga) e 0-5 contra o Sporting (Liga).

E agora que a primeira volta acabou, fica este dado: o FC Porto é líder isolado, está nos oitavos de final da Champions, joga os quartos de final da Taça de Portugal esta semana e ainda tem a Taça da Liga no calendário - tudo isto sem contratar.