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FC Porto

Rápidos, furiosos e intensos

Os dragões entraram a abrir, marcaram dois golos em 20 minutos e refugiaram-se na qualidade que mais os tem distinguido dos adversários: a intensidade. O FC Porto venceu (1-2) o Moreirense e vai defrontar o Sporting nas meias-finais da Taça de Portugal - garantindo que tenhamos quatro destes clássicos para ver nos próximos três meses

Diogo Pombo

OCTAVIO PASSOS

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Na última semana, das muitas coisas que saíram da boca de Sérgio Conceição, e fora analogias entre o seu filho, bonecos, padres e um treinador rival, houve uma, em particular, em que ele foi o dono da razão. “É muito difícil para qualquer equipa aguentar a intensidade de jogo que temos”, disse quem, diariamente, inventa e planeia e, deduzo sem nunca ter assistido a um, puxa pelos treinos com que prepara os jogadores do FC Porto para exercerem a sua profissão de futebolista.

Longe estamos dos tempos em que se ia correr para os pinhais, dava voltas repetidas ao campo ou se escalam escadas como as que Rock Balboa trepava, em Filadélfia, ao som do “Eye of the Tiger”. Imagino que Sérgio Conceição, fora o trabalho físico, esprema até à última gota todo o suar que os jogadores têm dentro, os obrigue a tudo fazerem na máxima rotação. Só assim a frase que proferiu é irrefutável - e apenas dessa forma poderia acontecer tal coisa, em Moreira de Cónegos, ao oitavo minuto de jogo:

Hector Herrera, o mexicano dos pés competentes, um bom passador e rematador da bola, a quem cinco anos em Portugal deram a fama de molengão e nos fizeram perguntar o que seria dele se mais coisas executasse depressa, recuperou uma bola, passou-a e arrancou. Mas partiu como um jogador de râguebi que embala para atropelar um adversário, sprintando durante 20 metros para receber a tabela na área do Moreira e picar o 1-0 por cima do corpo do guarda-redes Jhonatan.

Se rápido, furioso e intenso é o jogador menos improvável que assim o fosse, é porque algo se passa.

Passa-se que este FC Porto é, de facto, como Sérgio Conceição o defendeu ser. E ser como é num campo como o do Moreirense, o mais pequeno da primeira liga em largura (cerca de cinco metros), é meio caminho andado para pressionar o adversário a todo o campo, cercá-lo com uma pressão alta e retirar-lhe segundos para pensar. Daí surgiu o 2-0, após Danilo apertar com Rafael Lopes, roubar-lhe a bola a 20 metros da área e lançar um Brahimi que não conseguiu driblar o último defesa - mas pediu a Alex Telles para cruzar a bola, cortada para a entrada da área e rematada (20’), de primeira e rasteira, por Layún.

Um mexicano que é outra prova de como, feitas bem e com intensidade, as coisas ajudam toda a gente. Layún jogou no meio campo que engoliu os médios do Moreirense, quase sempre fora do jogo, como na única jogada em que a equipa chegou perto de Casillas: uma bola longa da defesa, num contra-ataque, a saltar as formalidades a centro de campo e a encontrar Ronaldo Peña, cujo remate é defendido por Casillas e a recarga de Zizo, porque a defesa é para a frente, não acerta na baliza.

Os 45 minutos que restavam para os dragões garantirem as meias-finais da Taça de Portugal pareciam um mero formalismo. No Moreirense, apenas o pequeno e franzino Tozé os igualava na intensidade com que se mexia, lutava e disputava as jogadas. O incontornável desnível no físico não lhe permitia mais do que dois remates à baliza, à beira do intervalo, a que o resto da equipa apenas deu seguimento aos 60’, quando Rafael Lopes rematou, de bem longe, a primeira tentativa do Moreirense na segunda parte.

OCTAVIO PASSOS

Com mais ou menos faltas, ressaltos, carambolas e variadas consequências de jogar num campo pequeno e com relva a precisar de carinho, o FC Porto ia mantendo, até aí, a bola mais perto da área do Moreirense do que da sua.

Mas é impossível que a intensidade, por mais que uma equipa se acostume a existir com ela, tenha sempre a mesma constância. Ela implica quebras, desacelerações e gestão das coisas, mesmo que não sejam intencionais, e com o tempo os dragões foram decaindo no ritmo. O Moreirense, também, foi apostando mais em bombear bolas para os últimos 30 metros do campo portista, para fugir a Danilo e Herrera, anular a pressão alta e apostar tudo nas segundas bolas.

Assim teve a bola que, à esquerda, Tozé cruzou para a cabeça de um grande, calvo e trintão que, na época passada, dividira 10 golos por três clubes brasileiros. O golo do curioso Edno alertou os dragões para o perigo de deixaram uma equipa inferior superar-se com o ânimo, a adrenalina e a crença. O FC Porto avançou as linhas, juntou os médios na bola e acelerou os ataques. Esforço que, nos últimos 10 minutos, lhes podia ter dado sossego caso Soares concretizasse duas bolas de golo que Alex Telles e Maxi lhe deram.

A intensidade restaurada preveniu mais sobressaltos até ao fim, o FC Porto venceu e garantiu um embate com o Sporting nas meias-finais - serão dois de quatro clássicos entre dragões e leões, até abril, entre a Taça de Portugal (há duas mãos), campeonato e Taça da Liga. Essa intensidade tudo tem dado e continua a dar à equipa de Sérgio Conceição, mas, também, já lhe vai roubando: Brahimi, o melhor jogador, saiu lesionado na primeira parte e Soares, o avançado que dá descanso aos que têm marcado golos, acabou agarrado a uma perna.

Eles são rápidos e furiosos e intensos, mas assim é sempre mais provável que fiquem, também, emperrados.