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Chapa ganha, chapa gasta

Encaixado um 0-5, ganhou-se por 5-0. Cindo dias após ser goleado pelo Liverpool, na Liga dos Campeões, o FC Porto goleou o Rio Ave e teve a melhor ressaca que poderia ter desejado

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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Eles estão entre as suas quatro paredes, a defrontar um visitante que, objetivamente, tem melhores jogadores e, geograficamente, vem de uma terra onde se joga com mais rotação e intensidade; eles perdem, mas não perdem apenas, é uma derrota com cinco golos sofridos e nenhum marcado, que os desperta para a realidade, no fundo, a jogar da mesma forma como eles jogam: pressionantes sem bola, velozes com ela, verticalmente vertiginosos.

Para uma equipa que, há cinco dias, é atropelada pela pior derrota em casa da sua história, o melhor que podia acontecer, na partida seguinte, é o que, de facto, sucedeu - no primeiro ataque (pela tabela de Alex Telles com Brahimi e o cruzamento que Soares amortece para trás), ao primeiro remate (que sai rasteiro), aos 86 segundos, marcar um golo (por Sérgio Oliveira).

É o mesmo que escrever que, à primeira tentativa de fazer o que seja, o FC Porto teve sucesso.

Tão madrugadora foi essa evidência que a confiança de quem, contra o Liverpool, só pode ter ficado sem ela, regressou. E essa gente, que depende das corridas de Marega em terras de profundidade, nas costas dos defesas, da pressão que o maliano faz com Soares, junto à área, e da intensidade dríblica de Brahimi sempre procurada pelo par de médios, começou a jogar como se a memória tivesse apagado, seletivamente, os acontecimentos de quarta-feira.

E sofrer um golo tão cedo, perante este cenário, era a pior coisa que podia acontecer a, convenhamos, qualquer equipa, mas especialmente o Rio Ave. A equipa que anda há meses a jogar em posse, a construir jogo pela relva dos centrais e do guarda-redes, enfim, como um grande que tem grandes jogadores, foi-se expondo ao erro e sendo castigada pelos dragões, e pelo azar.

O livre à entrada da área, de Brahimi, ainda embateu na barra por culpa de um desvio de Cássio, antes de, um canto, Soares dar seguimento, com a cabeça, à sua ressurreição desde a desavença, em Braga, com Sérgio Conceição. E de um cruzamento, à esquerda, de Marega, ser desviado para a própria baliza pelo corpo deslizante do central Marcelo.

FRANCISCO LEONG

O 3-0 era pesado para a equipa que, como sempre, se dava ao jogo na metade do campo do FC Porto, a querer ter a bola lá, mas era escassa no vazão que dava a essa intenção: apenas foi perigosa quando Herrera, sem olhar, atrasou uma bola para os pés de Francisco Geraldes, que soltou a bola demasiado cedo porque não teve cabeça para fixar Marcano e impedi-lo de ter tempo para chegar a Guedes (que, na área, em vez de rematar, ainda tentou assistir o médio).

O Rio Ave idealizado por Miguel Cardoso é elogiável e elogia-se por querer jogar da forma que, presumo, agrada a qualquer jogador - e contenta todo o adepto de futebol. O treinador grita “joga, joga!” e os jogadores passam a bola, dão-se às trocas, orientam os corpos para trocar e não bater. Fazem-no, contudo, demasiado lentamente demasiadas vezes, não tirando adversários suficientes das jogadas, à medida que avançam no campo.

Uma das razões pelas quais entrava pouco, ou quase nunca, na área portista. E que, durante os 15 minutos iniciais da segunda parte, tentou contornar com mais agressividade na bola e remates de fora da área. João Novais, num livre, fez as mãos de Iker Casillas tocarem pela primeira vez na bola, quatro meses e meio após ter sido titular pela última vez, para o campeonato. Só fez mais um par de defesas, a remates do mesmo Novais e de Geraldes, sem problemas.

O FC Porto tentou gerir e controlar ao mesmo tempo que o Rio Ave fazia por reagir e lutar. O primeiro abrandou, o segundo acelerou, mas os dragões, vendo estes remates, fizeram por inverter (e repor) os papéis.

Voltaram a pressionar muito a saída de bola adversário, a provocar o erro alheio e a abrir espaço para os seus extremos pela exploração dos sprints de Marega. A diferença de ritmos tornava-se evidente, como a perda de cabeça de Nélson Monte, o central que se pegou com o maliano antes de, perto da bandeirola de canto, pregar uma patada em Soares.

O livre à moda de um canto que foi ter com a cabeça de Marega, para o 4-0. Depois, houve uma jogada inventada por Hernâni, que foi rasteirado na área, mas a bola continuou a rolar até ser cruzada para Soares bisar e termos que esperar pelo VAR, que confirmou o 5-0 e o fim da melhor ressaca que o FC Porto poderia ter desejado, depois de ingerido o 0-5 contra o Liverpool.

Por muita bola e privilégio que tenha por ela - rondou muitas vezes os 60% de posse -, o Rio Ave perdeu pela terceira vez, esta época, com os dragões, tendo um rácio de 1-10 em golos (e sofreu 14 nos últimos quatro jogos). E o FC Porto, à obesa derrota que o podia ter abalado, a meio da semana, respondeu com a mesma gordura de números para continuar na liderança do campeonato (antes de ir ao Estoril terminar o jogo que começou, há meses).