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Das pantufas à blitzkrieg, ou como em 45 minutos (e 37 dias) tudo mudou

Estão a ver o FC Porto que a 15 de janeiro chegou ao intervalo a perder 1-0 na Amoreira e a jogar de forma mais meiga do que o habitual? Esqueçam. Esta quarta-feira, nos 45 minutos que restavam depois da bancada norte ter dado um susto a quem lá via o jogo há 37 dias, os dragões foram avassaladores, nunca deixaram o Estoril respirar e rapidamente marcaram três golos para vencerem e colocarem-se a 5 pontos de Benfica e Sporting. Soares marcou dois dos três, o FC Porto podia até ter marcado mais

Lídia Paralta Gomes

JOSé Sena Goulão/EPA

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Ora vamos lá fazer rewind. Um rewind de 37 dias, mais propriamente. Primeiro, o ponto de situação. Olha-se para os jogadores que no dia 15 de janeiro estavam em campo na 1.ª parte do Estoril-FC Porto, antes da infame bancada norte dar de si. Na equipa da casa, Aylton Boa Morte, que entrou aos 30 minutos, já não está. Foi emprestado ao Cova da Piedade. Wesley Dias também já não mora no Estoril - o clube enviou-o para o Paraná. Do outro lado, Miguel Layún também era titular: passou entretanto a fronteira, para Sevilha.

Estes não contavam para a noite desta quarta-feira. Também não contavam Dankler, Ailton, Matheus Sávio, Ewandro e Gonçalo Santos, inscritos depois de 15 de janeiro pelo Estoril. Ou Gonçalo Paciência, Paulinho, Waris ou Osorio, que eram jogadores não do FC Porto mas de outros clubes há 37 dias.

Jogou-se, portanto, neste final de tarde de quarta-feira, com os que restavam.

Voltemos aos apontamentos que tirei a 15 de janeiro, antes da infame bancada norte dar de si. Ah, foi aquele jogo em que Sérgio Conceição entrou com quatro laterais em campo. Não havia Brahimi, que estava lesionado. Ficou esquisito este FC Porto, sem jogo interior. Pelo menos, foi o que escrevi na altura.

Apesar de estar a jogar pouco, os meus rabiscos dizem que o primeiro lance de perigo foi obra de uma cavalgada de Moussa Marega e de um remate que Renan defendeu. Isto perante um Estoril que, escrevi, “está a arriscar, com uma linha defensiva subida, a chegar amiúde à área do FC Porto” e ainda a “arrancar muitas faltas”.

Bom, olhando para isto, não é estranho que, antes da infame bancada norte dar de si, o Estoril estivesse em vantagem. O golo que deixou os da casa na frente aconteceu aos 17 minutos, num livre direto encostadinho à direita que Eduardo Teixeira colocou ao ângulo quando toda a gente, e particularmente José Sá, estaria à espera de um cruzamento.

(Ah, José Sá nem sequer foi convocado para a segunda metade do jogo porque Sérgio Conceição voltou a confiar mais em Casillas e, por ter sido titular há 37 dias, o guarda-redes português não pode ir para o banco, diz a alínea c) do ponto 10 do artigo 41.º do regulamento de competições da Liga).

Continuando. Alguns minutos a seguir ao golo do Estoril, Aboubakar quase marcou. Esta quarta-feira isso nunca podiria acontecer, na medida em que o camaronês está magoado. Aboubakar que a 15 de janeiro foi de tal maneira mal servido que esta escriba, às tantas, sublinhou nos seus apontamentos o facto do avançado ter sido obrigado a vir buscar uma bola ao meio-campo defensivo do FC Porto.

E só por aqui se vê que as coisas não estavam a correr, digamos, bem para o FC Porto.

Esta é uma imagem de há 37 dias: o Estoril a vencer, o FC Porto meio perdido

Esta é uma imagem de há 37 dias: o Estoril a vencer, o FC Porto meio perdido

Pedro Fiuza/Getty

Só perto do intervalo, uns momentos antes da infame bancada norte dar de si, é que o FC Porto criou de novo perigo, dizem as minhas notas. Após um canto, há um cabeceamento (palavra que nos meus apontamentos está cheia de gralhas, que isto com a pressa às vezes falha-nos umas teclas) de Marega, que bate em Reyes e vai à trave.

Pelos meus apontamentos (e pela minha memória), diria que o FC Porto de há 37 dias foi um FC Porto anormalmente mansinho, muito pouco à imagem do seu treinador.

Mas bem, estão a ver os meus apontamentos de dia 15 de janeiro? Pois, esqueçam tudo.

Esqueçam tudo porque o FC Porto que entrou esta quarta-feira em campo para este meio jogo de futebol, em português cuidado, levou tudo à frente, com um futebol direto, intenso, rápido, pragmático. Não foi futebol bonito, foi futebol destruidor.

Antes de mais, vendo que a estratégia da 1.ª parte tinha claramente falhado, Sérgio Conceição mudou seis jogadores face ao 1.º tempo e apostou no 4-4-2 possante dos últimos jogos. E depois, a atitude. Parafraseando Pepa, o FC Porto entrou com o pé na chapa, para 45 minutos de futebol de ataque contínuo, avassalador, autoritário.

E essa atitude ficou logo bem patente na primeira jogada desta tarde: bola no pé de Marega, correria desenfreada, meia equipa do Estoril de bofes de fora e a defesa a limpar sem cerimónias. Sem imaginar ainda, decerto, o massacre que iria sofrer no que restava do encontro.

Aos 50 minutos, Herrera teve a primeira oportunidade flagrante para o empate, que aconteceria três minutos depois por Alex Telles, num golo em muito parecido ao golo do Estoril, com o lateral a marcar de forma direta um livre bem puxado à direita, ficando a dúvida se a ação de Soares, em fora de jogo posicional, não influenciou o lance - o árbitro e o VAR assim não o consideraram.

Feito o empate, continuou o vendaval (apenas metafórico, o que nem sempre acontece na Amoreira) e ainda antes dos 60 minutos o FC Porto já estava na frente, após mais um dos incontáveis ataques rápidos dos dragões. Conduziu e rematou Marega, Renan ainda defendeu e na confusão da ressaca Herrera tentou a recarga mas a bola iria ter com Soares, que junto ao poste só teve de encostar.

Esta é uma imagem desta quarta-feira: o FC Porto ao ataque, o Estoril prostrado

Esta é uma imagem desta quarta-feira: o FC Porto ao ataque, o Estoril prostrado

José Sena Goulão/LUSA

O terceiro só demorou mais seis minutos. Mais um lance de intensidade e pressão máxima, Herrera recuperou rapidamente um lançamento de Renan, deu para Corona na área, com o mexicano a rematar cruzado. Renan afastou, mas a bola foi parar aos pés de Soares que bisou, num jogo em que até podia ter feito mais dois ou três golos.

De repente, um 1-0 foi transformado num 3-1 e o FC Porto continuou a sua demanda pela baliza, atacando de forma impiedosa a defesa do Estoril, fosse em jogo corrido ou em bolas paradas, com a equipa da casa petrificada, incapaz de disputar uma bola, de pressionar, como se o vendaval ofensivo do FC Porto fosse uma espécie de tranquilizante para cavalos. Foi como se nem sequer tivesse subido ao campo.

Entre abordagens melhores ou piores, o guarda-redes do Estoril, Renan, acabou por salvar a sua equipa a uma humilhante goleada de um FC Porto que parecia um bombardeiro, um barco arrastão, que aproveitou que estavam em disputa apenas 45 minutos para lançar uma blitzkrieg quase cruel, para se colocar a 5 pontos de Benfica e Sporting na tabela.

Um FC Porto que entrou em pantufas e que em 37 dias tornou-se numa máquina de assalto.

Ah, nestes 45 minutos, mal tirei apontamentos - e confesso que fiquei cansada só de ver.