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Quando a fé no plano A é demasiado imparável e inamovível

O FC Porto perdeu pelo segundo jogo consecutivo longe de casa e, em menos de um mês, mostrou como não basta ser intenso, agressivo e vertical para ganhar sempre ou dar a volta às coisas, quando é preciso. A derrota por 2-0 com o Belenenses fez a equipa perder a liderança do campeonato e ficar a um ponto do Benfica quando faltam duas semanas para o clássico na Luz

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Quando se vêem dois centrais grandes, brutos e musculados, cada um à sua maneira, são uma força imparável a avançar na direção da bola, de forma urgente e rápida, o que ali se passa não é um paradoxo. A bola não é um objeto inamovível, ela foi posta a mexer por um cabeceamento sem nexo, para a frente, e continuará a mexer-se mesmo que eles não lhe toquem e, ainda por cima, há um jogador do Belenenses a aproximar-se da bola que é de ninguém.

Mas, nas probabilidades medidas a olhómetro, um entre Felipe ou Osório deveria chegar-lhe primeiro, porque ambos estão mais perto e os números estão do lado deles. O problema é que o brasileiro parece pensar em abordar a bola com a cabeça, o venezuelano escolhe atacar a bola ao pontapé, com tudo, e como nenhum fala ou antecipa cenários, eles anulam-se. Chocam, tombam o outro e a bola fica para Nathan.

Esse avançado que corre rápido, de peito feito e confiante apesar de só ter um golo marcado, sprinta até estar a um metro de Iker Casillas, um lendário guarda-redes que construiu a sua lenda com muitas coisas, uma delas a sua capacidade em não ser batido no um contra um. Ele aguenta em pé até à última e Nathan, nessa fronteira, pica-lhe a bola por cima, com a ponta da chuteira.

Um golo que começa rocambolesco e acaba com classe. O que podia ser sinal de paradoxo por uma jogada ter tanto de trapalhada como de coisas bem feitas, mais ou menos como é jogada a primeira parte no Restelo.

Este cenário acontece aos dez minutos e passam, no máximo, outros dez até os jogadores do Belenenses alterarem o seu comportamento. Não necessariamente por vontade própria, porque eles começam a partida a construíram a três, desde trás e usando o guarda-redes, com os jogadores a apoiarem-se de perto, nas costas da pressão dos avançados do FC Porto, e a renegarem ao chuto aéreo para a frente.

Mas é vontade dos dragões que não o façam e, como dizia Silas, “todos jogaram contra o FC Porto e ninguém esteve perto de ganhar”. Por causa de um estilo que os leva a pressionar alto e na frente a saída adversária, a serem agressivos na disputa de qualquer bola e a olharem longe quando é altura de passar pela relva, para deixar contrários fora da jogada.

Mesmo que sem espaço ao centro, porque o Belenenses fecha-se bem, os dragões encontram espaço por fora, abusam dos cruzamentos de Alex Telles (que nunca é pressionado) e apostam no contrapé em, pelo menos por quatro vezes, apanham Fredy. O cabo-verdiano é extremo de ter a baliza de frente e não médio de interagir com a bola de costas, como joga, e erra e perde-a ou dá-la ao ser pressionado.

Brahimi e Aboubakar rematam sem acertarem na baliza, como Telles não acerta muitas bolas que coloca na área e a culpa é da lei dos números e do acerto - o Belenenses tem sempre lá mais jogadores e eles, quase sempre, estão bem posicionados para atacarem a bola de frente. O FC Porto cruza, remata, passa, intensifica e pressiona mais e ganha em tudo quanto é disputa, mas, devido ao choque atabalhoado entre os seus centrais, está a perder.

FRANCISCO LEONG

E como perde quando, virtualmente, está sem a liderança do campeonato que é sua desde a quinta jornada, a urgência acentua a forma como está em campo. A pressão e os cercos às segundas bolas convencem, ainda mais, o Belenenses a recuar as linhas. Encosta-se à própria área, tenta encarar os cruzamentos, luta para não dar tempo aos dragões que apanham as bolas que caem de ressaca à entrada da área.

O jogo, no fundo, fica de sentido único para a baliza dos azuis, que se auto-comprimem para a luta, a garra e o ir a todas as bolas, esperando que haja alguma que lhes dê para saírem no contra-ataque. Com tanto espaço para embalar desde trás e para ter alguém, a meio do campo, a manter a bola a circular de um lado ou outro, para jogadores que estejam colados à linha, Conceição tira Maxi para ter Ricardo recuado na lateral e coloca Paulinho para ser o passador de serviço (e Óliver, no banco, a ver).

Até ao fim, a bola foi dominada pelo FC Porto e perdeu-se a conta às vezes a que foi cruzada, à direita ou à esquerda, para a área, à procura de cabeças que estavam em minoria. Encontrou as de Felipe e Gonçalo Paciência, mas os remates foram parados por André Moreira nessas duas vezes em que a previsível e repetida forma de os dragões atacarem deu resultado. Só um remate vindo de um pé chegou à baliza, ou, no caso, às mãos do guarda-redes.

De tanto se esforçar, insistir e carregar na procura de um golo, os dragões tornaram-se previsíveis, demasiado instintivos a caçar uma coisa que exigia outras coisas: cabeça, pausa, bola a atrair jogadores para abrir espaços, pensar o jogo em vez de o forçar. O FC Porto foi traído pela própria urgência, a que fez o já de si precipitado Felipe a carregar nas costas de um Licá sem saída junto à bandeira de canto. Essa imprudência deu o livre que Fredy cruzou para a área e Maurides, de cabeça, transformou no 2-0 que, mesmo com 20 minutos de sobra, matou o jogo.

O FC Porto não mudou, apenas prosseguiu na convicção de que a velocidade, intensidade, roubos e cruzamentos que teria a mais lhe chegariam, como em tantos jogos atrás, para superarem um adversário nos golos. Estes jogos, em que contrários como o Belenenses marcam um golo na única vez que chegam à baliza, “acontece em um a cada 30 jogos”, como disse Iker Casillas, um tipo chegou aos 1.000 jogos no Restelo.

A equipa de Sérgio Conceição é a mais intensa, rotativa, agressiva (no bom sentido) e vertical equipa do campeonato e a que melhor joga a ser assim. O onze que teve contra o Belenenses reflete-o, mais veloz e bruto quando o jogo pediu mais pausa e pensamento. O FC Porto foi, durante muito tempo, uma força imparável, até o cansaço de uma época em várias frentes, um plantel curto e a falta de outra forma de fazer as coisas o derrotarem, pelo segundo jogo consecutivo fora de casa. O plano A resultou durante muito tempo (sete meses) e, quando não resulta, insiste-se, porque não parece haver um B ou um C - ou a crença na primeira opção é, essa sim, imparável e inamovível.

E aqui é que pode haver um paradoxo.

Esta derrota no Restelo e a que ocorreu em Paços de Ferreira deixam os dragões a um ponto do Benfica, no segundo lugar do campeonato, a duas semanas de irem ao Estádio da Luz. A única coisa boa é que continua a depender apenas dos seus resultados para regressar à liderança.