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Felicidade é a arma quente de Marega

Um golo aos 89 minutos colocou o FC Porto a apenas um ponto do título nacional. O herói foi, de novo, Marega, o maliano improvável, o homem que em agosto talvez ninguém estivesse a ver no plantel dos dragões. Mas ele ficou e este domingo puxou o gatilho pela 22.ª vez na liga. E este tiro é bem capaz de ter dado um campeonato

Lídia Paralta Gomes

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

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Uma das discussões mais animadas nos idos de 1968 era sobre o significado daquela música maluca que estava no White Album dos Beatles. O que quereria dizer John Lennon com happiness is a warm gun? Uns diziam que era inspirada numa qualquer trip marada em drogas de Lennon, outros que era um piscar de olho em forma de metáfora ao irresistível apetite do compositor por Yoko Ono.

Lennon viria mais tarde a admitir que o significado era mais carnal do que psicotrópico, ficando assim fechada a discussão sobre que raio afinal era aquela felicidade em forma de arma quente.

Vamos agora voltar a 2018. Em 2018, nomeadamente em sede de FC Porto, não há grandes sentidos dúbios quanto à expressão. A felicidade do FC Porto esta época passou muitas vezes pela arma quente de Marega, 22 vezes para sermos mais específicos. E o 22.º tiro certeiro do rapaz que no início da época toda a gente via de novo emprestado ou com hipóteses marginais de brilhar no FC Porto e que mereceu até tarjas em estádios alheios em jeito de gozo, é bem capaz de ter sido o tiro da felicidade suprema: aquela que se tem quando se ganha o campeonato nacional.

Falta um ponto ao FC Porto para lá chegar, depois da vitória por 1-0 nos Barreiros, onde os dragões não ganhavam desde 2012. Um golo de Marega, aos 89’, um golo do homem que não estava lá quando os dragões foram abaixo e estava lá quando o FC Porto voltou a ganhar força. A felicidade é de quem a busca, de quem luta por ela e Marega, com mais ou menos técnica, mais ou menos requinte nos pés, procurou-a sempre, nas arrancadas que trucidaram defesas, nos golos decisivos, como o deste domingo.

O jogo do quase-título do FC Porto foi difícil, como era certo, porque o Estádio dos Barreiros é sempre terreno tramado para grandes e pequenos. Para os dragões, a busca da felicidade teve de ser na paciência, face a um Marítimo muito bem a defender e não muito pior a sair para ataques rápidos.

Falta um ponto mas já se vai festejando o título no FC Porto

Falta um ponto mas já se vai festejando o título no FC Porto

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Um ataque que ficou praticamente anulado após a expulsão do guarda-redes Amir no final da 1.ª parte, que obrigou Daniel Ramos a tirar Jean Cleber e a resguardar-se lá mais atrás. E depois de uns primeiros 45 minutos sem oportunidades de parte a parte, apenas com o coração de Marega sempre a bombear enormes quantidades de sangue, na 2.ª parte, como seria de esperar, o FC Porto foi com tudo para a frente e o jogo fez-se, essencialmente, se não totalmente, no meio-campo defensivo da equipa da casa.

O volume foi grande, sempre. A clarividência menos. Sérgio Oliveira tentou de longe, Brahimi nas fantasias individuais e Soares um pouco na trapalhice, até que ficou claro que, perante Zainadine e Pablo Santos em dia particularmente intratável, só uma bola parada ou um erro crasso poderia desempatar aquele empate.

Assim foi. Aos 89’, já com toda a gente a olhar para a tabela da liga e a pensar “isto vai ficar esquisito”, Alex Telles marcou o canto e Marega saltou alto, mais alto que toda a gente e marcou o golo da felicidade do FC Porto, que poderá até ser campeão na próxima jornada sem jogar, caso o dérbi termine empatado.

Não acabando empatado, todas as odds, como se diz agora, estão do lado dos dragões: em dois jogos, precisam de fazer um singelo ponto.

E voltar a ser feliz, cinco anos depois.