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Marega, o melhor jogador de quem se esperava o pior

No dia em que treinou, pela primeira vez, em Portugal, diz quem lá esteve que impressionou toda a gente no Marítimo com "a estampa física e a velocidade", as mesmas que o fazem ser "um bicho". O Moussa Marega que era desconsiderado trapalhão é hoje a ponta da lança vertiginosa e exploradora de espaço do FC Porto, por ter uma equipa que faz por deixá-lo correr com a bola à frente, e não entre os pés

Diogo Pombo

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No dia em que pegou na caneta e anuiu, rubricando e assinando o contrato, é assunção e não presunção pensar que Sérgio Conceição tinha plena noção de estar prestes lidar com a distorção futebolística de uma banalidade popular: não é que inexistissem ovos para a omelete, o treinador teria era que arranjar forma de cozinhar uma só com os poucos que existiam na caixa, culpa de euros, números e contas que lhe eram alheios.

Também não foi, por certo, quando teve de planear um treino no FC Porto, pela primeira vez, que Sérgio Conceição matutou sobre os jogadores que tinha e a forma como os queria, em equipa, a jogarem. Porque, nesse dia, os dragões eram uma equipa como quase todas as outras o são, em pré-época, um emaranhado de dezenas de futebolistas a manter, a vender, a emprestar ou a ver se cabem ali e na ideia que o treinador tem na cabeça.

Nesse distante dia, em julho do ano passado, não constava Moussa Marega.

Mas, no imaginário de quem estava encurralado a tirar proveito do que tinha, e não do que, comprando, poderia vir a ter, já plantada estaria a ideia de que era de esperar pelo maliano. Quem treina equipas para serem verticais no passe, velozes no ataque e respeitantes do mais rápido troço que a leve à baliza pensou em quem era o jogador fisicamente mais explosivo, veloz e potente. A olhos vistos.

Sérgio Conceição esperou que as ligações à seleção, primeiro, e os problemas pessoais, depois, libertassem Marega. Ele falhou os quatro encontros de arranque da pré-temporada, teria a metade do tempo e precisaria do dobro do esforço que os restantes para descomplicar a sua vida na equipa, avisava o treinador. As semanas rolaram e à primeira jornada, mesmo começando do banco, o maliano foi logo a personificação intensa do que o FC Porto ainda é, a dois jogos do fim do campeonato e um ponto do título.

MIGUEL RIOPA

A equipa que urge em pressionar a saída de bola do adversário, pior das alturas para se ser roubado e melhor dos momentos para um ladrão, precisava de um jogador tão intenso e quanto incansável.

A equipa que, com propósito, amolece a bola nos médios recuados e convida a pensar que está ali uma pista para serem pressionados, pedia um tipo que embalasse como um sprinter no ataque ao espaço nas costas dos defesas e na cara do guarda-redes. Um jogador que arrancasse uma desmarcação mal os olhos que têm a bola olhassem para lá.

Uma equipa que vive desse espaço, a profundidade, e do quão capaz é de o abrir a cada jogo, necessitava de um género de futebolista. Alguém que pela bênção da genética fosse o primeiro a chegar a todas essas bolas e, pela simplicidade de pensamento, decidisse, com poucos toques, o que fazer à bola quando lá chegado.

Esse alguém é quem mais beneficiou, neste campeonato, da forma como o feliz encontro entre a necessidade de uma equipa e o engenho de um treinador aguçaram as capacidades específicas de um jogador.

Coisa parecida ao que Marega experimentara há quatro anos, quando “impressionou todos” logo ao primeiro treino que fez no Marítimo. António Xavier foi um dos que ergueu os sobrolhos perante “a estampa física e a velocidade” de um matulão desconhecido, maliano que nascera em França e escondido estava na Tunísia (Espérance de Tunis), que não tinha “grande recorte técnico” ou era de “grandes fintas”.

Era, sim, consciente do que possuía por oposição às coisas em que o futebol não lhe fora muito altruísta. Ou, como quem diz, “muito inteligente” a “explorar ao máximo aquilo que são as suas capacidade”, diz à Tribuna Expresso o extremo do Paços de Ferreira, que ainda estava no clube madeirense quando Marega apareceu (2014/15), descodificando o avançado que a equipa começou a aproveitar.

Com as devidas diferenças, o Marítimo começou a priorizar o que o FC Porto tem hoje em mente - forçar o espaço na profundidade e atacar, ou contra-atacar, sabendo que “ele quase sempre chegava primeiro que os defesas” a bolas para lá lançadas. E o matulão algo reservado, não de grandes conversas e sempre “no mundo dele”, paupérrimo no inglês e que se refugiava em Salin (hoje guarda-redes do Sporting) para entender o que era pedido, foi mostrando as capacidades que tem.

Carlos Rodrigues

Até ao dia em que o forçaram a tentar fazê-lo fora do sítio, das condições e do estilo que o ajudassem, depois de Marega como que forçar a saída dos madeirenses para os dragões, em janeiro de 2016 - o então treinador, Nelo Vingada, queixou-se que ele terá simulado uma lesão para não treinar, nem jogar para rumar à equipa, na altura, de José Peseiro.

O treinador que afastou Marega da máxima que Xavier reconhecia ao maliano, afastando-o para um dos lados de um ataque de três homens numa equipa à qual se juntou a meio da época. Uma equipa, à época, formatada na paciência da posse e de encontrar espaços passando muito a bola. Repetiam-se as vezes em que ela estava nos pés de Marega, pedindo coisas a quem um terceiro ou quarto toque na bola seria sempre demasiado, quando não em velocidade e para finalizar uma jogada.

O corpo grande e musculado do maliano era estranho ali, desajeitado porque a equipa nunca colocava o que fosse a jeito das capacidades de Marega. Foi para Guimarães chateado com Nuno Espírito Santo e desacreditado como trapalhão e voltou com 14 golos marcados. O sucesso no futebol não se reduz a quem tem tudo nos pés e a necessidade de o FC Porto em espremer o que tinha beneficiou quem concentra no físico o que de bom tem.

A equipa, com o tempo, acentuou a sua queda pelo espaço nas costas dos defesas adversárias, onde a preocupação é arranjar um passe que deixe Marega e a baliza com a bola no meio. À frente dele e não com ele, a pedir um remate ou um toque que ajeite um remate.

E o falso desajeitado e trapalhã Moussa Marega vai com 23 golos esta época, só por duas vezes esteve mais de três jogos seguidos sem marcar e, em média, remata mais de três vezes por cada jogo do campeonato. Tantas (3.3) quanto Jonas, o verdadeiro tecnicista no real sentido de técnica, que vulgarmente associamos a jeito, arte e leveza de pés que raramente erram. Do brasileiro tornou-se comum sempre esperar o melhor, mas do maliano parecia ser senso-comum aceitar o pior a cada aparição em campo.

Marega era o patinho que passou seis meses a ser posto no sítio errado do lago, onde as suas capacidades não funcionavam, e que muita gente considerou feio por não terem isso em conta. Um ano e um treinador que apostou as fichas no seu físico depois, Marega é o melhor jogador de quem se esperava o pior e, provavelmente, o melhor futebolista do FC Porto esta temporada.

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