Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

Pinto da Costa: aos 80 anos, o título mais aguardado e sofrido - e também celebrado

Decano dos presidentes de clubes europeus tem o 21º título nacional suspenso por um ponto, à entrada da penúltima jornada. Após a maior seca desportiva desde que foi eleito em abril de 1982, Pinto da Costa trava o assalto do Benfica ao draconiano penta e faz nova de vida aos 80 anos. Até quando se manterá ao leme do FC Porto? É um incontornável tabu

Isabel Paulo

MIGUEL RIOPA

Partilhar

Após os anos de ira, os adeptos azuis-e-brancos enterraram o machado de guerra. No estranho mundo da bola, do ódio aos renovados votos de amor vai um título, o 21º do longo reinado de Jorge Nuno Pinto da Costa. Amanhã frente ao Feirense - ou na última jornada, caso Marega e companhia não vençam ou, em Alvalade, este sábado, os arquirrivais não empatem do dérbi -, as faixas de campeão nacional não terão o lustro do primeiro tri e tetra do FC Porto, conquistados pela antiga glória António Oliveira, nem o brilho único do até agora inédito penta do engenheiro Fernando Santos, nos idos de 1999, mas não deixarão de ser simbolicamente especiais.

O 29º título da história do FC Porto, o mais duramente aguardado na era do rei 'Dragão', coloca um ponto final no mais longo deserto de títulos desde a que dupla Pinto da Costa/Pedroto chegou de rompante às Antas para virar a mesa do duopólio lisboeta do futebol português até ao dealbar dos anos 80, década em que o FC Porto ganhou fama e proveito nos palcos europeus e mundiais. O primeiro título de Sérgio Conceição, ex-jogador icónico do domínio azul e branco dos fabulosos anos 90, representa não só o renascimento da raça portista, mas o terceiro fôlego de Pinto da Costa, acossado pelos adeptos mais fundamentalistas e ciosos do invicto penta na travessia do deserto das últimas quatro épocas.

Agora que o temido assalto à joia da coroa do galarim das vaidades portistas parece arredado, pelo menos por mais cinco anos, os militantes da causa azul-e-branca preparam-se, aparentemente sem mágoas do doloroso passado recente, para voltar a içar bandeiras e agitar cachecóis no ”maior salão de visitas da cidade”, expressão roubada a Rui Moreira para designar a Avenida dos Aliados. Sócio indefectível do FC Porto, o presidente da Câmara do Porto terá pela primeira vez, a 12 ou 13 de maio, a oportunidade de cumprir a promessa eleitoral de voltar a franquear as portas dos Paços do Concelho e a varanda sobre a Praça Humberto Delgado, onde se destaca o monumento a Almeida Garrett, o escritor e poeta portuense que deu o nome ao colégio frequentado na juventude pelo sócio 808 do FC Porto, recitador e amante de poesia: “A mim, a poesia relaxa-me. Quando estou stressado, é quando mais procuro ler poesia”, confessou numa entrevista, em 2003, o ano em que José Mourinho

o ano em que José Mourinho venceu o seu primeiro título nas Antas,quebrando ou o jejum de três épocas de seca de títulos nacionais, à data a mais prolongada crise do até há pouco incontestado presidente do FC Porto.

Pinto da Costa, timoneiro o clube mais ganhador cá dentro e lá fora, passou então no intervalo das críticas das más contratações e do bodo das comissões na compra e venda de jogadores, dirigidas na altura, sobretudo, aos irmãos Caldeira, Adelino administrador da SAD, e José agente de jogadores, vistos como dois cristão-novos da doutrina portista. A nuvem negra dos anos em que o Sporting (duas vezes) e Boavista ousaram ser campeões nacionais foi afastada com a chegada do providencial Mourinho, que nesse mesmo ano daria ao clube a primeira Taça UEFA e a segunda Champions ao FC Porto.

A hora de Sérgio Conceição

Novamente em estado de graça, Pinto da Costa cairá na tentação de sair em alta? A questão circula em surdina nos bastidores do clube, mas ninguém se atreve a porfiar quando e em que circunstâncias abdicará da soberania absoluta exercida há 35 anos no reino do Dragão pelo presidente que se atreveu, em pleno olho do furacão, a candidatar-se aos 78 anos a mais um mandato, fazendo orelhas moucas ao coro de críticas de «comissionista», grafitadas na parede da casa no Porto e às pressões para se demitir, no final da época passada, gritadas e carimbadas em faixas no adeus ao quarto título consecutivo em Moreira de Cónegos.

Mas como escreveu Gabriel Garcia Márquez, no seu 'Amor em tempos de Cólera', “a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas”, e Pinto da Costa, sem nº 2 no clube e na SAD, volta a ser o bem-amado da nação portista. E como no futebol a um ganhador tudo se perdoa, na hora de festejar poucos se lembrarão que o clube continua intervencionado pela troika da UEFA, sujeito às apertadas malhas do Fair Play Financeiro, o que obrigou Sérgio Conceição, o novo mais que tudo dos adeptos, a fazer de uma manta de retalhos de jogadores caídos em desgraça, como Herrera, e de enjeitados de volta a casa, como Brahimi e Marega, uma equipa vencedora.

Conceição, o treinador que chegou viu e venceu após Pinto da Costa se ter batido como um dragão para o resgatar ao Nantes, revelou-se a melhor contratação da época, não tendo hesitado em sentar no banco Iker Casillas para provar que, com ele, não haveria vacas-sagradas na equipa, mas que também não hesitou em devolvê-lo à baliza, quando José Sá já se sentia dono da baliza e frangou.

Agora de novo em estado de graça, Pinto da Costa cairá na tentação de sair em alta? A questão circula em surdina nos bastidores do clube, mas ninguém se atreve a porfiar quando e em que circunstâncias abdicará da soberania absoluta exercida há 35 anos no reino do Dragão. Em entrevista ao Expresso, em agosto de 2010, à pergunta sobre o que se veria a fazer fora do futebol, respondeu “descansar, escrever e passear”. Até ver nunca traçou uma linha temporal para o adeus às armas no seu clube de sempre, e não esperou pela reforma para se dedicar à escrita. Em 2004, lançou a obra 'Largos Dias têm 100 anos' e, em 2013, '31 anos de presidência, 31 decisões'.

Em ano de tudo ou nada, além de travar a corrida ao penta do arquirrival, a máquina portista desvendou e divulgou dezenas de e-mails comprometedores para a direção do Benfica, que levaram a PJ e o MP a investigar um alegado plano do clube da Luz para dominar o futebol português. Uma vingança servida a frio, uma década depois dos anos de brasa do 'Apito Dourado' que abalaram o FC Porto e o mais titulado dirigente do futebol português.

FC Porto pós Pinto da Costa em números

Títulos nacionais - 20

Taças de Portugal - 12

Supertaças - 19

Títulos Internacionais - 7

Liga dos Campeões Europeus - 1986/87

Taça Intercontinental - 1987

Supertaça Europeia - 1988

Taça UEFA - 2002/03

Liga dos Campeões - 2003/04

Taça Intercontinental - 2004

Liga Europa 2010/11