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Tática e estratégia: o modelo de Sérgio Conceição que deu o campeonato ao FC Porto

A atacar, a defender e a transitar - o analista de futebol Tiago Teixeira explica como é que o FC Porto de Sérgio Conceição jogou e conquistou a Liga 2017/18

Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Tático

Gualter Fatia

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Desde o primeiro jogo oficial desta época (vitória por 4-0 contra o Estoril, no estádio do Dragão) que Sérgio Conceição demonstrou qual o modelo de jogo que queria implementar no seu FC Porto, e de que maneira esse modelo podia potenciar as características individuais dos jogadores que dispunha.

Vamos por partes.

Momento defensivo

Organizado em 4-4-2, foi durante toda a época um FC Porto bastante competente no momento defensivo, tanto a nível individual (muitos duelos ganhos) como a nível coletivo, não permitindo aos seus adversários criar muitas oportunidades de golo durante os 90 minutos.

Em bloco baixo ou médio, a equipa de Sérgio Conceição apresentou-se com as linhas bastante juntas, coordenadas e posicionadas para orientar a construção do adversário para os corredores laterais.

A 1ª linha de pressão é composta pelos dois avançados, sempre posicionados em diagonal para não deixar o médio defensivo adversário receber a bola nas suas costas. A linha média tem os dois médios centro também na diagonal para diminuir o espaço entre linhas e proteger o espaço à frente dos dois centrais, e os dois extremos sempre articulados com os médios, preocupados em fechar o corredor central quando a bola se encontrava no lado oposto.

O FC Porto em organização defensiva

O FC Porto em organização defensiva

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Em bloco alto, isto é, quando quis condicionar a primeira fase de construção do adversário, foi sempre um FC Porto muito agressivo e muito competente na maneira como pressionou.

Numa primeira linha pressão, os dois avançados sempre a pressionarem os dois centrais adversários e um dos médios a acompanhar o médio adversário que recuava para receber a bola perto dos centrais, para que este não recebesse a bola com espaço.

Mais atrás, uma linha de três (o médio defensivo e os dois extremos) posicionada no corredor central, sendo que os dois extremos se encontravam sempre preparados para pressionar os laterais adversários caso a bola chegasse a eles.

O 1º momento de pressão do FC Porto, em bloco alto

O 1º momento de pressão do FC Porto, em bloco alto

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Momento ofensivo

Não se pode dizer que tenha sido um FC Porto muito criativo no seu processo ofensivo durante a presente época, mas é inegável que na maior parte dos jogos os portistas foram extremamente fortes naquilo que o seu treinador definiu para o momento ofensivo.

Uma capacidade tremenda para conquistar o espaço nas costas da linha defensiva adversária através dos movimentos de rutura da dupla de avançados e a muita presença e agressividade em zonas de finalização para corresponder aos cruzamentos foram, juntamente com as bolas paradas, as grandes armas do FC Porto a nível ofensivo.

A ideia de Sérgio Conceição passou sempre por ter os laterais muito projetados de modo a darem largura e profundidade ao ataque do Porto e com isso permitir que os extremos se posicionassem no corredor central para receber a bola entre linhas e servir os movimentos de rutura dos avançados, como aconteceu neste lance que serve de exemplo.

Alex Telles a dar largura no corredor lateral esquerdo e Brahimi posicionado no espaço entre os defesas e os médios adversários. Assim que Brahimi recebeu a bola e se virou para a baliza adversária apareceu logo o movimento de rutura de Marega, que recebeu a bola já nas costas da linha defensiva adversária.

Mesmo nas situações em que Brahimi recebia a bola ainda com os médios adversários pela frente, a procura dos movimentos de rutura dos avançados é uma constante. No lance que serve de exemplo, apesar de Brahimi ainda ter à sua frente a linha média e a linha defensiva adversária, procurou logo servir Marega nas costas dos defesas do Marítimo.

Também em transição foi um Porto demolidor sempre que houve espaço nas costas da linha defensiva adversária. Brahimi foi sempre a principal referência para conduzir as transições (qualidade em condução e perceção do momento para soltar a bola).

Recebia a bola e conduzia para depois servir os movimentos de rutura dos avançados nas costas da linha defensiva do adversário.

Com o adversário num bloco mais baixo, o FC Porto foi sempre uma equipa muito perigosa através dos cruzamentos. O posicionamento mais interior dos extremos (principalmente Brahimi) permitiu várias vezes que os laterais (principalmente Alex Telles) recebessem a bola com espaço e tempo suficiente para cruzar. Além da qualidade de execução de quem cruzava, a ideia de Sérgio Conceição passou sempre por ter vários jogadores agressivos e fortes nos duelos aéreos (Soares, Marega, Abubakar) em zonas de finalização, o que acabou por se revelar determinante para a marcação de vários golos através de cruzamentos.

A dimensão física esteve muito presente no futebol praticado pelo FC Porto durante a época e apesar de alguns acidentes de percurso (houve jogos em que faltou mais criatividade e inteligência em vez de tanta velocidade e força), não há como negar que o FC Porto foi bastante competente dentro do estilo de jogo que Sérgio Conceição definiu como identidade.

Posto isto, parabéns ao Futebol Clube do Porto pela conquista do campeonato!