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A noite em que o Porto subiu ao trono no reino do Dragão para a matança do polvo

A reportagem da consagração no reino do Dragão e da noite em que o céu noturno se fez azul com o fumo das tochas, em que Marega e Gonçalo Paciência fizeram a matança do polvo, enquanto na bancada ecoava o “Penta Ciao”. Depois de quatro temporadas de jejum, assim foi o “grand finale” para os adeptos azuis e brancos com a barriga cheia de felicidade, bifanas e “mines”

André Manuel Correia

RUI DUARTE SILVA

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Faltam duas horas e meia para o início do jogo entre o FC Porto e o Feirense. A noite de sábado foi longa, na Avenida dos Aliados, inundada por um clima de festa, espoletada pela conquista do 28.º campeonato nacional. A cidade parou para quebrar um jejum de quatro temporadas, mas a fome insaciável de celebrar prossegue. “Sentido, direction: Estádio do Dragão”, ouve-se no interior do metro. De estação em estação, a distância encurta-se e aumenta o entusiasmo de uma onda azul e branca impossível de travar. Não cabe mais ninguém nas duas carruagens, abarrotadas com um exército extasiado e em marcha para o reino do Dragão, enquanto uma jovem, alheada de toda a azáfama, está sentada com um portátil pousado nos joelhos e auscultadores nos ouvidos, compenetrada a assistir à primeira temporada de “Game of Thrones”. Todos, menos ela, escutam cânticos proclamando que “o campeão voltou” e com despedidas mordazes ao desejo nutrido pelo eterno rival de se sagrar pentacampeão - façanha lograda, em Portugal, apenas pelo FCP, entre as épocas de 1994/95 a 1998/99.

“Chora o Vitória, chora o Vieira e o penta ciao, o penta ciao, o penta ciao ciao ciao”. Este quase parece ser o novo hino do clube, sendo repetido vezes sem conta. Duas amigas aproveitam para dar os últimos retoques no “outfit”. Fazem as habituais pinturas faciais. Olham-se ao espelho. Tiram mais uma selfie. Estão prontas. “Arraaaanca”, gritam os adeptos, impacientemente, para o maquinista sempre que o veículo pára, até que às 18h45 chegam ao estádio. “Bambooora”, exclamam quando as portas do transporte público se abrem.

RUI DUARTE SILVA

Correm para se juntarem a uma multidão de milhares de apoiantes do FCP, aguardando militantemente pela chegada do autocarro do clube, recebido em apoteose às 19h10. Acendem-se tochas azuis e escuta-se o estrondo do rebentamento de petardos. O cheiro a bifanas e sandes de leitão exala das muitas roulotes. É hora de forrar o estômago para uma barrigada de emoções fortes. “Ó Pica, anda buber um mine, pago eu”, convida um dos adeptos, abraçando-se ao amigo que o acompanha.

“Chegou a hora da estocada final”

Dali seguem para o interior do estádio, onde mais de 50 mil pessoas assistiram à consagração caseira do novo campeão nacional. “Chegou a hora da estocada final”, está inscrito o aviso numa das tarjas das claques afetas ao clube, enquanto noutra se pode ler: “obrigado mister por trazer de volta os nossos valores”. O apito inicial de um jogo em que a importância do resultado poderia ficar no banco é dado às 20h15. Um minuto de jogo e a famosa “onda mexicana” já faz levantar as bancadas. O clima é de euforia, mas a equipa escalada por Sérgio Conceição entra concentrada e com raça. O treinador permanece sempre de pé, no seu estilo inquieto e irreverente, a gritar indicações, a corrigir posicionamentos e a incentivar os atletas. Joga-se a sério, até porque para o Feirense a partida é de importância vital na luta pela permanência.

22 minutos de jogo e os adeptos cantam o nome do Iker Casillas. O “portero” espanhol agradece com palmas, naquele que pode ter sido o seu último jogo no Estádio do Dragão. O guarda-redes foi, durante grande parte do tempo, mais um dos espectadores, até que aos 15 mins quase foi surpreendido com um chapéu de longa distância que embateu na trave. Pouco mais de dez minutos depois, Sérgio Oliveira é o responsável pela primeira explosão de alegria, ao inaugurar o marcador. As bandeiras agitam-se e os ânimos também, enquanto jogadores como Moussa Marega, Alex Telles, Brahimi, o capitão Herrera e o presidente Pinto da Costa vão sendo constantemente ovacionados. A primeira parte termina, mas a festança avança sem intervalo.

RUI DUARTE SILVA

A segunda parte começa e em campo já não está Otávio, preterido para dar lugar a Corona. Também aos 54 mins, Tiquinho Soares dá lugar a Aboubakar, avançado camaronês que entrou em campo disposto a mexer com o jogo. E mexeu mesmo, porque cinco minutos bastaram para picar a bola e fazer a assistência para um belo golo de Brahimi, em que o argelino passou a bola por cima de uma adversário no interior da área, ficando isolado e encostando com classe para o fundo da baliza por entre as pernas do guarda-redes Caio. Estava feito o 2-0. A vítória estava no bolso, em que os jogadores do FCP vestiram o fato de macaco para uma noite de gala. Já depois dos 90, José Valência, de cabeça, fez o golo de honra do Feirense, mas nem isso fez esmorecer os cânticos dos adeptos azuis e brancos. Nada podia deter a festa e todos aguardavam pelo apito final do árbitro Luís Godinho.

A matança do polvo

O jogo termina e 50 mil pessoas estão em delírio com o “Mágico Porto”. A festa começa no relvado e os jogadores espantam os fantasmas dos adeptos portistas, batendo e pontapeando, literalmente, um polvo para bem longe, com um remate em força de Marega para a bancada. Sérgio Conceição cumprimenta todos os jogadores e é um íman de abraços, sendo posteriormente levantado e lançado ao ar pelas mãos de todo o plantel.

RUI DUARTE SILVA

O palco é montado no centro do relvado para a entrega do troféu. O presidente da Liga Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, entra em campo, recebendo um monumental coro de assobios. O primeiro jogador a ser medalhado é Casillas, logo seguido de Maxi Pereira, festejando o primeiro campeonato desde que trocou o Benfica pelo Porto no verão quente de 2015. O central brasileiro Felipe entra com uma cambalhota quando o “speaker” anuncia o seu nome e, logo a seguir, Soares ajoelha-se, abre os braços e olha para o céu, onde fogos de artifício rebentam em cores. Todo o plantel, vestindo uma camisola com o número 28, acompanhado pela equipa técnica, está já no palco. Ouve-se o hino pela voz de Maria Amélia Canossa. Erguem-se os cachecóis em todo o estádio, quando Herrera agarra e levanta bem alto o troféu.

As celebrações continuaram no exterior do estádio, na Alameda, onde todos aqueles que não estiveram nas bancadas puderam igualmente ver de perto os novos heróis azuis e brancos. Um Porsche Carrera pintado de azul e branco passeia pelo meio da massa humana, seguido por camiões apinhados de adeptos. Alio Baldé é um dos muitos em delírio. Veio de Albufeira com um amigo só para comemorar o título. “Pentacampeões em Portugal só nós, os outros que esqueçam isso”, remata o apoiante portista de 33 anos. A festa continuou até às 2h da manhã, porque muitos não arredaram pé até Pinto da Costa ir à varanda do estádio e acenar aos adeptos mais resistentes. Acenou e até saltou. Estava dada a benção do “Papa” aos fiéis seguidores portistas, onde os banhos de cerveja e champanhe deram lugar à água benta.