Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

O dragão e a cidade do Porto: uma história de bravura e gratidão

A figura do dragão está conotada com o Futebol Clube do Porto, mas ainda o clube não tinha nascido e já esse animal mitológico era um símbolo da cidade. Na origem da história, está uma demonstração de valentia das gentes do Porto

Margarida Mota

Um dragão negro na parede do estádio do Futebol Clube do Porto

Rui Duarte Silva

Partilhar

Invencibilidade, força, espírito de luta. Para um portista, é tudo quanto o dragão simboliza e, por arrasto, é esse também o ADN do Futebol Clube do Porto (FCP). Nos últimos anos, o protagonismo do clube e os feitos desportivos alcançados dentro e fora de portas levaram a uma conotação entre a criatura e a principal instituição desportiva do Porto. Mas um passeio pela cidade revela que o dragão já era um símbolo do Porto antes mesmo da fundação do clube.

“Podemos datar a associação do dragão à cidade do Porto de 14 de janeiro de 1837, quando D. Maria II promulgou o novo brasão da cidade, que trouxe novidades”, explica ao Expresso o arqueólogo Joel Cleto, autor e apresentador da série “Caminhos da História”, emitida no Porto Canal. “Essas novidades tinham a ver com algo que acontecera na cidade poucos anos antes, um acontecimento injustamente esquecido e que, no entanto, foi crucial para a História do Portugal Contemporâneo — o Cerco do Porto”. Ou, como a ele se referiu o escritor portuense Almeida Garrett, ele próprio um dos “cercados”, o momento em que “o Portugal velho acaba e o novo começa”.

Com D. Miguel no trono, é instaurado o absolutismo em Portugal. O descontentamento popular generalizou-se e o país mergulhou numa guerra civil (1832-1834). D. Pedro IV (primeiro imperador do Brasil), irmão do monarca e anti-absolutista, regressa a Portugal, organiza um exército nos Açores, desembarca na praia de Pampelido (hoje, praia da Memória, concelho de Matosinhos) e avança para o Porto. Tinha com ele 7500 homens.

Estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade. No sopé, o brasão antigo da cidade do Porto, com um dragão

Estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade. No sopé, o brasão antigo da cidade do Porto, com um dragão

Rui Duarte Silva

De Lisboa, partem 40 mil homens fiéis a D. Miguel que, chegados ao Porto, montam um cerco à cidade. Frente a frente, muito mais do que dois irmãos em luta pelo poder, estavam conceções opostas de sociedade e de organização do Estado: absolutismo (D. Miguel) e liberalismo (D. Pedro).

“D. Pedro resiste porque não tem ao seu lado apenas 7500 homens... Muito rapidamente, a eles se juntam uma boa parte da população do Porto”, diz Joel Cleto. “É isso que explica que ele resista um ano e, depois, consiga romper o Cerco, que constitui o início do fim do absolutismo.”

Entre 8 de julho de 1832 e 18 de agosto de 1833, o Porto é diariamente bombardeado, há dificuldades de abastecimento, morre-se à fome e proliferam doenças (cólera, tifo). Após vencer a guerra, D. Pedro proclama rainha D. Maria II, sua filha, e toma uma série de medidas para recompensar as gentes do Porto pelo seu heroísmo e apoio inesgotável à luta pelo liberalismo e pela liberdade.

“D. Pedro tem consciência de que se não fosse o Porto não teria triunfado”, diz o historiador portuense. “Durante um ano, ele e a sua filha, D. Maria II, vão fazer imensas coisas para agradecer ao Porto.”

Pormenor da estátua do Infante D. Henrique, no jardim com o mesmo nome, em frente ao Palácio da Bolsa, Porto

Pormenor da estátua do Infante D. Henrique, no jardim com o mesmo nome, em frente ao Palácio da Bolsa, Porto

Rui Duarte Silva

Manda que se crie uma grande biblioteca (Biblioteca Pública Municipal do Porto), um grande museu (o atual Museu Nacional Soares dos Reis, para onde manda que se transfira a espada de D. Afonso Henriques que estava no seu túmulo, em Coimbra) e um jardim para as mulheres da cidade (Jardim de são Lázaro).

Atribui à cidade o título que ainda hoje a define — Invicta —, acrescentado aos outros que o Porto já detinha: “Antiga, Muy Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”. Confere-lhe a mais alta condecoração do país: a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Decreta que o segundo filho do Rei de Portugal passe a ostentar o título de Duque do Porto, de cuja coroa sobressai “um dragão negro das antigas armas dos senhores reis d’estes reinos”. E doa o seu coração à cidade –— atualmente guardado numa urna de prata na Igreja da Lapa, que D. Pedro frequentou durante o Cerco.

A 14 de janeiro de 1837, por carta régia redigida por Almeida Garrett, D. Maria II outorga à cidade um novo brasão (que incluía a coroa ducal, e portanto a figura do dragão), onde estão representados os agradecimentos de D. Pedro.

Brasão da cidade outorgado por D. Maria II, em 1837, na fachada da Câmara Municipal do Porto

Brasão da cidade outorgado por D. Maria II, em 1837, na fachada da Câmara Municipal do Porto

Rui Duarte Silva

Símbolo das armas da Casa Real Portuguesa e personificação dos valores que sobressaíram durante o Cerco do Porto, o dragão passa a figurar, como elemento decorativo, em dezenas de locais por toda a cidade.

Pode-se vê-lo na fachada da Câmara Municipal (Avenida dos Aliados), no Palácio da Justiça (Cordoaria), na estátua equestre de D. Pedro IV (Praça da Liberdade), na estátua do Infante D. Henrique (Jardim do Infante D. Henrique), na Casa dos 24 (junto à Sé Catedral), no Palácio da Bolsa, e no altar onde está depositado o coração de D. Pedro IV.

Estes dragões, sintetiza Joel Cleto, têm a ver “com o Duque do Porto e, acima de tudo, com o Cerco do Porto e com o caráter invencível, resistente, heroico, imortal, indomável da cidade do Porto.” Tudo o que um portista reconhece no “seu Porto”.

Desde 2015 que, numa iniciativa do Museu do Dragão, Joel Cleto é o guia da “Rota do Dragão”, um passeio a pé pelas ruas do Porto com paragens junto a fontanários, estátuas e monumentos decorados com dragões. A 18 de maio arranca a primeira visita de 2018, outras três se seguirão a 24 de junho, 14 de julho e 29 de setembro.

Até à inauguração do Estádio do Dragão, em 2003, o Palácio da Bolsa era o edifício da cidade que mais dragões tinha

Até à inauguração do Estádio do Dragão, em 2003, o Palácio da Bolsa era o edifício da cidade que mais dragões tinha

Rui Duarte Silva

A origem da relação entre o dragão e o FCP data de 1922, quando o clube, fundado 29 anos antes, adota aquele que é o seu emblema atual, e que mais não é do que a sobreposição das armas da cidade promulgadas por D. Maria II (onde um dragão encima a coroa ducal) ao emblema original do clube (uma bola de futebol antiga azul com as letras FCP a branco).

O dragão passa, então, a fazer parte do património do FCP. E assim continuará mesmo após o Estado Novo ordenar uma reforma heráldica e “declarar guerra” à imagem do dragão.

Na fachada da Câmara Municipal do Porto, há brasões anteriores e posteriores à reforma heráldica de 1940, ou seja, com e sem dragões

Na fachada da Câmara Municipal do Porto, há brasões anteriores e posteriores à reforma heráldica de 1940, ou seja, com e sem dragões

Rui Duarte Silva

Através de uma portaria com data de 25 de abril de 1940, é aprovada uma nova constituição heráldica das armas, selo e bandeira dos municípios portugueses, onde ficou evidente a vontade de apagar dos brasões de concelhos e freguesias todos os resquícios liberais e monárquicos. Das armas da cidade do Porto, desapareceu — até aos dias de hoje — a coroa ducal com o dragão, substituída por uma coroa encimada por cinco castelos.

Mas na cidade, nem todas as instituições acataram a ordem do Estado Novo. “Algumas mantiveram a coroa e o dragão nos seus emblemas, que lá continuam nas suas sedes e nas fachadas dos seus edifícios”, diz o historiador. “É o caso do Orfeão do Porto, dos Bombeiros Portuenses, da Associação de Futebol do Porto e de duas instituições poderosas da cidade: a Associação Comercial do Porto e o FCP.”

Pormenor da fachada do Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial do Porto

Pormenor da fachada do Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial do Porto

Rui Duarte Silva

Ao recusar adotar as novas armas da cidade impostas pelo Estado Novo, o FCP teve na manutenção da coroa e do dragão uma manifestação de resistência em relação ao poder central. “Desde muito cedo que o clube tem orgulho na presença do emblema da cidade no seu lema. O próprio hino do FCP diz isso: ‘Teu pendão leva o escudo da cidade, Que na história deu o nome a Portugal’”, recorda Joel Cleto.

Já com Pinto da Costa na presidência, o dragão toma o clube “de assalto”. O dragão dá nome ao estádio, ao museu e ao pavilhão das modalidades (Dragão Caixa). O projeto de formação desportiva chama-se Dragon Force, organizado em torno do lema “Tu tens o poder do Dragão”. O clube publica a revista “Dragões” e premeia atletas e funcionários com um Dragãos de Ouro. No estádio, em dias de jogos, a mascote Draco partilha o palco com “a equipa dos dragões”.

“Julgo que foi uma reação aos clubes da capital, que começaram a ser identificados como ‘o clube da águia’ e ‘o clube do leão’”, conclui Joel Cleto. “Mas pegou com grande sucesso.”