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O mar azul inundou os Aliados para ver o campeão à varanda

O prometido era devido e Rui Moreira abriu as portas dos Paços do Concelho às comemorações do FCP, fazendo com que nos Aliados desembarcasse o mar. Um mar azul de adeptos em festa, envolvidos com a equipa como há muito não se via, enquanto o céu era pintado de vermelho com o fumo das tochas, numa noite em que a chama do Dragão voltou à varanda municipal, 19 anos depois

André Manuel Correia

Rui Duarte Silva

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Foram 19 anos à espera para ver o campeão na varanda. Foi demasiado tempo. Memórias de outro milénio, quando em 1999 o FC Porto foi recebido pela última vez no edifício da câmara municipal. O clube teve de se acostumar a fazer a festa no ninho do Dragão, impedido durante os três mandatos de Rui Rio de ser recebido nos Paços do Concelho para erguer o troféu da primeira liga portuguesa.

Mas não há fome que não dê em fartura, diz a sabedoria popular, e tudo tem um fim. O longo jejum foi quebrado este sábado, com aproximadamente 250 mil pessoas presentes no coração da baixa portuense para assistirem à consagração da equipa, assim como à atribuição da medalha de honra da cidade a Jorge Nuno Pinto da Costa.

“Foi muito tempo. Não só pelo anos em que não vencemos, mas sobretudo pelos anos em que encontramos as portas fechadas”, frisou Pinto da Costa, visivelmente emocionado no momento em que foi agraciado pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, alguém que, acrescenta o presidente do clube, “ama o Porto e quem ama o Porto evidentemente tem de abrir as suas portas àqueles que honram e levam o nome da cidade a todo mundo”.

O dirigente desportivo, com 80 anos, preside o FC Porto há 36 e muitos foram os momentos que viveu naquela varanda, até o voo dos dragões entrar em rota de colisão com Rui Rio, o homem que assumiu as rédeas da autarquia entre 2001 e 2013. “Passados 19 anos estamos novamente para festejar e mostrar a todos os adeptos a taça conquistada brilhantemente”, disse Pinto da Costa, tomado por uma “grande alegria e saudade” de voltar a pisar o tapete vermelho das escadas do edifício municipal. “Conseguimos, pelas mãos de Sérgio Conceição, transformar a onda azul num mar azul que nos levou aos maiores sucessos a esta época”, salientou o presidente do Futebol Clube do Porto.

Os ponteiros do relógio da torre dos Paços do Concelho marcavam as 16h15 e o clima de festa, que haveria de se prolongar pela noite dentro, já transbordava, com uma enorme moldura humana a pintar de azul um quadro de celebração. A bola rolava em Guimarães nesta tarde de sábado, enquanto na Avenida dos Aliados milhares e milhares de pessoas assistiam ao jogo entre o Vítória SC e o FC Porto.

O resultado da partida não era o mais importante e, como o caneco já estava no papo, muitos adeptos podiam ser encontrados em fora de jogo, a beber uma cerveja e a trincar uma bifana, num clima animado e saracoteado com o “som de cristal” de Marante, um dos muitos artistas a atuar durante a tarde. Alguns dos adeptos anteciparam-se e já trouxeram a taça (de porcelana) de casa, passeando com ela debaixo do braço pelas ruas da baixa, como é o caso de Joaquim Ferreira, de 47 anos, assegurando que, para ele, a festa não teria horas e enaltecendo que “para os portistas é sempre muito bom ver os jogadores na varanda e tê-los a festejar bem perto”.

Celebra-se à moda do Porto, mas há simpatizantes e sócios dos quatro cantos do país, como Paulino Ferreira, nascido na Invicta mas a viver há 20 anos em Lisboa. Foi adepto do Benfica até aos sete anos, quando o coração se tornou azul e branco. Não falha um único jogo no Estádio do Dragão, onde tem dois lugares cativos, fazendo-se acompanhar muitas vezes pelo sogro que, aos 64 anos, se tornou portista.

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Na cidade banhada pelo Rio Douro desembarcaram também os Super Dragões do Vale do Tejo, com a líder do núcleo, Fátima Vila Boas, a agitar incessantemente uma bandeira da claque onde se lê: “seja a norte ou a sul, o nosso grande amor és tu”. A adepta de 45 anos conta à Tribuna Expresso que “ser do FC Porto no sul não é fácil e ser Super Dragão é ainda muito mais complicado”. Fátima assegura, no entanto, ter força para “aguentar isso tudo” e “rebentar com eles”, enquanto o sistema de som instalado na avenida faz ecoar a música “Highway to Hell”.

Um grupo de jovens enverga a camisola de Marega. Entre eles tinham feito apostado no início da temporada, que o avançado não marcaria mais de dez golos. Ninguém acreditava que o maliano de 27 anos acabaria por colocar a bola no fundo das redes em 22 ocasiões, tornando-se num ídolo inesperado da torcida azul e branca. Outros adeptos exibem camisolas com nomes de jogadores incontornáveis como Jardel, Vítor Baía, Deco ou Ricardo Carvalho.

O jogo termina, o Porto venceu com um golo solitário de Marcano apontado aos 69 minutos, mas os cântico não cessam e Draco, a mascote do clube, vai animando os adeptos. O ambiente está fervilhante e a Avenida dos Aliados vai recebendo cada vez mais gente à medida que a tarde avança e a noite cai.

Todos querem tirar uma fotografia com José Pereira. Correm para pedir uma selfie ao lado dele. Ele pára e acede a todos as solicitações, sempre com um sorriso. O motivo de ser tão procurado é o fato azul e branco, personalizado pelo próprio, complementado com as luvas e a cartola com que se passeia envaidecido pela avenida. “Já estou habituado a ser tão requisitado, até porque já uso este traje desde 1987, quando o Porto foi campeão europeu. Sempre que o clube é campeão, tiro-o do armário”, explica o adepto de 75 anos e sócio do FCP há 37. “Já vivi muito e chorei muito por este clube. Fui muitas vezes a pé e à boleia para ver o Porto”, recorda, com emoção, “Zé” Pereira.

As palavras de Casillas e Herrera

É de autocarro panorâmico que os jogadores do FCP saem do Estádio do Dragão, às 20h45, rumo à baixa portuense. É a contagem final para uma explosão de alegria. Tochas são acesas, cachecóis são elevados, bandeiras são brandidas e, por vezes, escuta-se o estrondo do rebentamento de mais um petardo. Quando o céu fica escuro, os mais de 200 mil adeptos acendem as lanternas e os isqueiros, transformando os Aliados num manto de luz, enquanto é entoada a “Pronúncia do Norte”.

O autocarro chega, circundado pela multidão. “O campeão voltou”, canta-se, em únissono, na Avenida dos Aliados. Passa já das 22h quando Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, recebem e cumprimentam Jorge Nuno Pinto da Costa à porta do edifício dos Paços do Concelho, para a atribuição da medalha de honra da cidade, enquanto no exterior os jogadores continuam a festejar com os adeptos.

É quando falta pouco para as doze badaladas que os jogadores dão entrada também na Câmara Municipal do Porto, iluminada de azul e branco, para subirem à varanda. Lá em cima, bem longe, Herrera exibe a taça e a tradição recuperada 19 anos depois, aproximando ainda mais os adeptos do clube. O momento é de euforia e pontuado com fogo de artifício.

De baixo para cima, de cima para baixo. A celebração prossegue com todo o plantel e equipa técnica a ser chamada ao palco e a desfilar em festa na passarela instalada no centro da Avenida dos Aliados.

O primeiro a ser chamado é Casillas, o emblemático guarda-redes de 36 anos, ainda com o futuro incerto para a próxima época. Nas últimas semanas, têm-se intensificado os pedidos para que o “portero” continue a defender as redes azuis e brancas. “Iker quédate”, cantam os adeptos e os colegas de equipa, mas um silêncio total envolve os Aliados no momento em que o jogador pega no microfone. Todos querem ouvir o que dirá, que caminhos podem indicar as suas palavras. “Quero dizer: vamos em busca do bicampeonato”. A mensagem é curta, mas reveladora, deixando a massa adepta em êxtase.

O último a ser chamado é Herrera, já sem o sombrero mexicano na cabeça. O capitão de equipa quis sublinhar que a conquista do título não é apenas dos jogadores e da equipa técnica. “É de todo o Porto. Todos formamos o Porto. Somos Porto, c…!”