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Eles são os maiores, mas já começa a deixar de ter piada

E agora, algo de velho: a Nova Zelândia venceu o torneio das Quatro Nações outra vez. Mas fê-lo com mais estilo do que o costume, porque acabou com a pontuação máxima, marcou mais de quatro ensaios (ponto bónus) em todos os jogos e igualou o recorde mundial de vitórias seguidas. E Tomaz Morais disse-nos que isto já não é muito bom para o râguebi

Diogo Pombo

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Phil Walter

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“É uma supremacia gigantesca, o que também não é bom para o râguebi. Porque há claramente uma Nova Zelândia e depois há os outros.”

É das primeiras frases que vem do outro lado do telefone. A diferença horária tramou-o, não viu os jogos todos. Tomaz Morais refugiou-se mais nos resumos das partidas do Quatro Nações, a competição que junta as melhores seleções da parte debaixo do mundo, o redondo e o oval. O antigo selecionador nacional de râguebi nem precisava de estar muito atento, por ali não houve grandes novidades. A Nova Zelândia venceu o torneio pela décima quarta vez em 21 edições e, moral da história, vê-la ganhar já é tão trivial como levantarmo-nos da cama cedo, esfregarmos o sono dos olhos e comermos o pequeno-almoço.

Não é novidade que os matulões que vêm de umas ilhas do outro lado do mundo, o redondo, são os melhores no jogo que se inventou com uma bola oval. É tradição, é cultura, é gosto e até é genética, como até nos disse Tomaz Morais: “Os neo-zelandeses, pela fibra genética que têm, estão mais dispostos para o râguebi do que os outros. Fazem tudo a uma velocidade que os outros não conseguem fazer”. Será uma das razões que, no sábado, levou os All Blacks - alcunha pela qual os jogadores são conhecidos - a fecharem o Quatro Nações com estilo. Ainda com mais estilo do que o costume.

Os neo-zelandeses foram à África do Sul ganhar por 57-15, a maior vitória de sempre contra os rivais, que também sempre foram bons de râguebi. Isto quando, ao intervalo, apenas tinham uma vantagem de três pontos. Os sul-africanos até nem tinham acordado “num dia mau”, a fazer tudo mal, como Tomaz Morais diz que muitos têm dito. O problema, para toda a gente, é que os All Blacks jogam com uma rapidez, forma, dinâmica e força que ninguém é capaz de igualar, pelo menos durante 80 minutos. “Cada neo-zelandês é sempre melhor que o seu adversário direto. E os que ficam no banco, ficam de propósito, estão pensados para entrarem naquela meia hora final e destruírem os adversários”, lembra o antigo selecionador português.

Eles nem tinham grande necessidade de o fazer. A destruição dos sul-africanos aconteceu na última ronda do Quatro Nações, quando já tinham garantido a conquista do torneio, dois jogos antes. Mas queriam-no fazer com o tal estilo, só pode. Com esta vitória, tornaram-se os primeiros a vencer a competição - que os junta com a África do Sul, a Austrália e a Argentina - com 30 pontos, o máximo possível. Ou seja, levaram um ponto bónus dos seis jogos que fizeram, prenda que uma equipa recebe quando marca mais de quatro ensaios.

Por aqui chegamos aos números, que servem para aumentar o tamanho deste monstro papão.

Phil Walter

Nem é preciso pegar em muitos: os neo-zelandeses marcaram 38 ensaios no torneio, mais seis que o total entre as restantes três seleções; apenas 7% dos ensaios da competição foram contra eles; falharam, em média, apenas 12 placagens por jogo; e têm o melhor marcador, um médio de abertura chamado Beauden Barrett, que esperou anos para que Daniel Carter se retirasse (após o Mundial de 2015, quando foi eleito o melhor jogador do mundo) e está a fazer com que ninguém se lembre dele.

Este tipo, que acabou o torneio com 81 pontos nas mãos e no pé, mostra outra proeza que, ciclicamente, a Nova Zelândia consegue. Cuida da gestação dos próximos craques, que sempre aparecem, enquanto os atuais ainda jogam, rendem e decidem. Quando esses se reformam, há outros, frescos e prontos a vestirem o equipamento preto. Aconteceu depois do Mundial, quando não tiveram que puxar muito pela cabeça para substituírem Carter, Richie McCaw, Ma’ Nonu ou Kevin Mealamu, todos calmeirões com mais de 100 internacionalizações.

O país adora râguebi, os miúdos brincam com bolas antes de saberem andar, é desporto escolar, é modalidade de estádio cheio e até está na preocupação do governo.

Porque até Josh Key, o primeiro-ministro da Nova Zelândia, se pronunciou sobre o que Aaron Smith, médio de formação dos All Blacks, fez no dia a seguir a outra vitória contra a África do Sul, na quinta jornada do Quatro Nações. No aeroporto de Christchurch, o jogador entrou com uma mulher na casa de banho para pessoas com deficiência e por lá ficou durante 10 minutos. A mulher não era a dele, que estava em casa, mas outra, com quem fez “barulhos que não deixaram dúvida sobre o que eles estavam a fazer lá dentro”, diria uma testemunha. Pelo que fez, os jogadores e capitães dos All Blacks decidiram expulsá-lo da seleção e suspendê-lo do último jogo da competição.

Aaron Smith chorou, pediu desculpas em público e protagonizou um escândalo que nem beliscou a equipa - mesmo sendo alguém importante, como o tipo que lidera o Haka. A vitória contra a África do Sul foi a 17.º seguida da Nova Zelândia, com a qual igualaram um recorde que podem bater já a 22 de outubro, caso vençam a Austrália.

Nesse dia, os All Blacks, que venceram os dois últimos Mundiais (em 2011 e 2015) terão a hipótese de darem mais uma prova de serem a equipa mais dominadora de sempre do râguebi - e do desporto, talvez?

Isto é muito giro e engraçado para nós, que assistimos, mas é um problema para quem treina, joga e compete contra eles. O fosso entre os neo-zelandeses e os outros parece ser cada vez maior. Tomaz Morais diz que “a única forma” de os enfrentar é “tentar igualá-los na intensidade e na dinâmica de jogo” porque, nos resto, eles serão sempre melhores. Se tudo continuar como está, se calhar chegaremos ao dia em que deixará de ter piada ver os All Blacks a ganharem tudo.