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Nisto a Nova Zelândia tem sorte: sai um melhor do mundo e entra outro

Beauden Barrett é o nome do melhor jogador de râguebi de 2016. Assim, sem mais nada, isto pode não lhe dizer muito. Mas trata-se do neozelandês que sucedeu a Daniel Carter no prémio, na camisola 10 dos All Blacks e na liderança do jogo da melhor seleção do mundo. Ele que veio de uma família de agricultores que, quando emigrou durante uns meses para a Irlanda, o deixou ir descalço para a escola

Diogo Pombo

Anthony Au-Yeung

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Há um ano, mais coisa, menos coisa, um trintão de sorriso fácil, arma mais fácil de disparar contra a timidez, subia a um palco. Parecia estar envergonhado por ser o melhor e por toda a gente reconhecer os outros eram piores do que ele. Aos 33 anos, o tipo atormentado pelos próprios joelhos, que tivera dúvidas se podia continuar a jogar râguebi, era considerado o melhor jogador do mundo. Daniel Carter tinha acabado de vencer o Mundial, com a Nova Zelândia.

Algures, um rapaz loiro e alto, na flor da idade, batia-lhe palmas.

Esse tipo, também pouco dado a grandes palavreados, devia estar a sorrir. Não foi distinguido por nada, mas sabia que, por fim, estava prestes a deixar de ser uma sombra. Há muito que estava ciente de como as coisas funcionam nos All Blacks, seleção de râguebi neozelandesa. Daniel Carter era um médio de abertura, posição em que se controla o jogo de uma equipa, com as mãos e os pés, e se decide por onde se joga, que jogadas se fazem, com que ritmo se ataca, que espaços se exploram e por que lado se vai tentar ganhar terreno. Tem sempre o número dez na camisola e se há alguma semelhança com o futebol, é essa - o número identifica o jogador de quem se espera organização, talento, técnica, carisma e liderança.

Daniel Carter é dos melhores de sempre a fazer tudo isso. Ele ganhou um par de Mundiais, foi duas vezes eleito o melhor do mundo e, aí, resolveu aventurar-se e ganhar algum dinheiro. Foi jogar para Paris. Tornou-se o homem com o maior salário no râguebi e, ao mesmo tempo, virou as costas aos All Blacks, que têm a regra de apenas convocarem quem estiver a jogar numa equipa da Nova Zelândia.

Daniel Carter a passar a bola a Beauden Barrett, durante um treino da Nova Zelândia no Mundial de 2015, que venceram.

Daniel Carter a passar a bola a Beauden Barrett, durante um treino da Nova Zelândia no Mundial de 2015, que venceram.

GABRIEL BOUYS

A lenda decidiu ir chutar aos postes, fazer fintas de passes, mostrar classe e preparar a reforma para o outro lado do mundo. Beauden Barrett devia estar a bater ainda mais palmas ao ídolo.

Ele sabia que os anos durante os quais coexistiu com Daniel Carter, o primeiro ao sol e ele à sombra, a jogar uns dez ou quinze minutos por jogo, tinha um propósito. “Fora da Nova Zelândia, as pessoas podiam pensar que a saída de vários líderes ia causar uma descida de forma. Mas, nos últimos quatro anos, tínhamos sistemas montados para nos protegermos contra isso. Demos oportunidades aos futuros líderes, eles vinham a reuniões com os mais velhos, aprendiam o que estávamos a fazer e como geríamos a equipa”, explicou Carter, em setembro, quando lhe perguntaram por quem lhe tomou a camisola.

No fundo, ele já suspeitava que o rapaz loiro e alto podia ser bem mais do que uma promessa que o substituía em quase todos os jogos e, com passada larga, velocidade e queda para furar linhas com a bola na mão em vez de a passar. Beauden Barrett podia ser a next big thing do râguebi mundial, como o é agora.

No mesmo dia em que um sismo abalou a Nova Zelândia, ele foi considerado o melhor jogador do mundo de 2016, tornando-se no segundo médio de abertura seguido a ser distinguido, ao quinto ano consecutivo em que alguém do país onde há mais ovelhas que humanos ganha o prémio. E, como grande parte dos neozelandeses - até John Key, o primeiro-ministro, chegou a jogar -, Barrett chegou aqui, em parte, por ter nascido no meio de uma família com muita queda para o râguebi.

Beauden tem cinco irmãos e duas irmãs. Cresceu num casa cheia de irmandade onde o pai, Kevin, jogou râguebi até ao dia em que decidiu parar e dedicar-se ao futuro, tanto da família, como do jogo. “Vou cultivar alguns All Blacks”, respondeu, no dia em que se retirou do jogo. Os Barrett, rurais e residentes no campo, viram Beauden, o segundo mais velho entre os filhos, a ajudar o pai a cuidar das cerca de cem cabeças de gado e, no resto do tempo, a brincar com uma bola oval no quintal lá de casa, com os irmãos. “Não faziam mais nada. Eles chutava a bola por todo o lado. Não havia Playstations, não tínhamos disso. Eles estavam sempre ao ar livre”, contou o pai ao The 42, um jornal irlandês.

Foi para esse país que, no início do século, os Barrett emigraram. Tinham lá família, o pai soube de uma quinta que precisava de uma espécie de gestor e foram. Cruzaram o mundo e passaram lá 15 meses. Continuaram a viver no campo, entre terra, lama e animais, habituados a esta vivência, ao ponto de, no primeiro dia de aulas na Irlanda, os rebentos Barrett irem descalços para a escola. “As pessoas fizeram aquele olhar ‘oh, estes pobres rapazes da Nova Zelândia’, mas nós éramos assim”, disse o pai, lembrando como os filhos, sem o râguebi, começaram a jogar futebol gaélico, modalidade nacional na Irlanda, que o o progenitor considera ter ajudado Beauden a melhorar os seus pontapés e jogo ao pé.

O que é curioso. Primeiro, porque o recorde de 18 vitórias seguidas da seleção neozelandesa, foi interrompido, no fim de semana passado, pela Irlanda (29-40). E, tantos anos depois, quando Barrett já venceu um Mundial (2015), um Super Rugby (campeonato anual que junta as melhores equipas da Nova Zelândia, África do Sul, Austrália com uma da Argentina), é titular da seleção e considerado o melhor do mundo, é nos pés que está o - talvez único - defeito que lhe apontam.

E o que nos faz regressar a Daniel Carter.

No último mundial, o médio de abertura que hoje está no Racing 92, de Paris, teve uma eficácia de 88% nos pontapés aos postes. Durante o Rugby Championship, também conhecido como o torneio das Quatro Nações, que a Nova Zelândia conquistou em outubro, a média de Beauden Barrett diz que ele acertou apenas seis de cada dez pontapés que tentou. O que é muito pouco num jogo que, muitas vezes, se decide nos pontos que se vão buscar aos postes quando, na relva, as equipas se equilibram no número de ensaios.

Scott, Beauden e Jordie, do mais velho para o mais novo, os três All Blacks.

Scott, Beauden e Jordie, do mais velho para o mais novo, os três All Blacks.

Phil Walter

É algo em que, com 25 anos, ainda tem tempo para melhorar. De resto, a vida está boa para ele e para a família Barrett. De momento, Beauden tem a companhia de dois irmãos nos All Blacks - Scott, um segunda linha, foi convocado, assim como Jordie, um ponta/arriêr que é o aprendiz na digressão que a Nova Zelândia está a realizar pelo hemisfério norte - a seleção escolhe sempre um jogador para treinar e ter a primeira experiência com a equipa.

Este 2016 vai correndo bem a Beauden e aos Barrett.