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Râguebi

E se ninguém quisesse saber dos rucks, o que seria do râguebi?

A Inglaterra venceu a Itália (36-15) na terceira jornada do torneio das Seis Nações, mas algo de estranho aconteceu - além de o resultado não ter sido tão desnivelado como de costume, os italianos usaram as regras do râguebi a seu favor e não contestarem os rucks. O que lhes permitiu eliminar a lei do fora de jogo no jogo corrido. Os ingleses, sobretudo o seleccionador, Eddie Jones, não gostaram

Diogo Pombo

ADRIAN DENNIS

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Para fazer as introduções ao que se passou, este fim de semana, no torneio das Seis Nações, é preciso explicar algumas regras do râguebi.

Na variante que coloca 15 jogadores de cada lado, o ruck é, talvez, a coisa que acontece mais vezes durante um jogo. Um ruck, ou, em português, uma formação espontânea - fiquemo-nos pelo ruck, mais fácil de dizer, de escrever e de entender -, forma-se quando um matulão placa outro, ambos caem na relva, e pelo menos um jogador de cada equipa entra ali, em disputa pela bola. Por norma, são muitos mais. O objetivo é garantir a posse de bola e impedir que adversários o façam. Como? Limpando corpos, como se costuma dizer, afastando dali jogadores, mantendo os pés na relva.

Os rucks, além de se repetirem éne vezes durante uma partida, permitem que haja uma coisa importante - a linha do fora-de-jogo. É a partir do sítio onde um ruck se forma que toda a gente em campo sabe onde está a tal linha. Um jogador, vendo um ruck, sabe que tem de ficar atrás dos pés do último homem que o disputa (da sua equipa), e só pode avançar no momento em que a alguém coloca as mãos na bola para a tirar dali. Em suma, foi um curso rápido sobre o como, e o porquê, de existirem rucks no râguebi.

Mas podem sempre haver problemas, como os houve no domingo, quando a Inglaterra defrontou a Itália, na terceira jornada do Seis Nações, no estádio de Twickenham.

Os ingleses, que são a segunda melhor equipa do mundo, fizeram o que toda a gente esperava e superaram os italianos, chegando à 17.ª vitória consecutiva (já só estão a uma do recorde da Nova Zelândia). Contudo, e além do resultado, bem mais magro que o habitual (36-15), eles não souberam lidar com a estratégia à qual os italianos se cingiram - não provocarem rucks.

E, durante 80 minutos, cada transalpino que placava um inglês e o derrubava, abandonava o sítio o mais rápido possível, enquanto nenhum jogador da sua equipa ia disputar a bola. Os italianos, simplesmente, mantinham-se diante da bola. Como não havia um ruck formado, não existia uma linha de fora de jogo. O que permitiu que eles se colocassem entre o médio de formação (por norma, quem vai tirar a bola do ruck e torná-la jogável) e os jogadores a quem a podia passar.

O que é muito, muito estranho.

Tanto de se ver, como de se jogar. Não existindo um ruck, os italianos não quebrarem nenhuma lei do râguebi, mas não poderiam ter sido menos ortodoxos. Os ingleses demoraram muito a lidar com esta estratégia.

Ao intervalo estavam a perder e, a meio da partida, vários jogadores perguntaram ao árbitro, o francês Roman Poite, o que estava a acontecer. “Não posso dizer. Sou o árbitro, não um treinador”, ouviu-se, a certa altura,o homem do apito responder a James Haskell, terceira linha inglês que lhe perguntou o que tinham de fazer para No râguebi, o árbitro está equipado com um microfone, sendo possível ouvir, no estádio e na transmissão televisiva, o que vai dizendo.

Tudo isto deu em mais confusão após o jogo terminar. Eddie Jones, o seleccionador inglês, disse que o Inglaterra-Itália “não foi um jogo de râguebi”, apesar de reconhecer mérito ao arrojo dos italianos. “Parabéns à Itália. Acho que foram brilhantes na execução, mas, se aquilo é râguebi, vou retirar-me. Aquilo não é râguebi. Se pagaram pelo vosso bilhete, peçam o dinheiro de volta”, criticou, levando até a Federação Inglesa de Râguebi a esclarecer que não ia devolver o dinheiro por “palavras ditas no calor do momento”.

Mas o australiano, que treina a Inglaterra desde setembro de 2015, carregou ainda mais: “Se querem ver râguebi assim, boa sorte. Não quero estar envolvido neste tipo de jogos. Prefiro ir para casa, pegar nas minhas coisas, pô-las no saco e ir para casa. Não acho que seja um râguebi inteligente. No futebol, eles dizem estacionar o autocarro. Não sei o que eles [italianos] tinham, mas era maior que um autocarro”. Eddie Jones admitiu que, ao serviço do Japão, chegou a pensar fazer o mesmo que a Itália, mas, na altura, pensaram “que era contra o espírito do jogo”.

Os italianos nada fizeram de ilegal ou proibido. Exploraram uma lei do jogo e tentaram usá-la a seu favor, fosse isso bonito, ou feio. Conseguiram dar nas vistas e, em termos de resultado, pela positiva - a Itália entrou para o Seis Nações em 2000 e, nas 16 edições em que já participou, levou a colher de pau (último lugar) para casa em 11 anos. Até a World Rugby, entidade que manda na modalidade, defendeu o árbitro do encontro e afirmou que as regras do ruck serão “discutidas nas estruturas e reuniões normais”.

Já Conor O’Shea, seleccionador italiano, disse no final do jogo que as regras, por certo, vão mudar: “Claro que sim. Mas nós fomos legais e jogámos de acordo com a lei”.

Shaun Botterill

Mesmo com tanta conversa e polémica, não foi a primeira vez que se viu uma equipa abdicar dos rucks. No final do ano passado, a Austrália fez o mesmo em alguns períodos de um jogo frente à Irlanda. E, há uns anos, os Chiefs, equipa neozelandesa, recorreramm a igual estratégia durante uma partida do Super Rugby (uma espécie de Liga dos Campeões anual entre clubes da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argentina e Japão).

O que aconteceria se, a partir de agora, muitas equipas optassem pela mesma estratégia?

Clive Woodward, antigo treinador que, em 2003, levou a Inglaterra à conquista do Mundial, não acha que tal seja bom para o râguebi. “Isto é demasiado confuso para que seja permitido continuar. E, provavelmente, teria uma vida curta, porque assim que as equipas chegasse a um antídoto, deixaria de ser eficaz. Para o bem maior, o anti-rucking tem de ser proibido agora”, defendeu o ex-seleccionador, na coluna de opinião que escreve no Daily Mail, que também pegou nos binóculos e olhou para mais longe:

“O râguebi ainda é uma modalidade média no mundo e estamos a tentar vender-nos para uma audiência maior. Jogos como este servem apenas para confundir e frustrar potenciais fãs e jogadores que o experimentam pela primeira vez.”