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Sonny Bill Williams e o trabalho árduo para ser melhor pessoa (sem patrocínios imorais)

Sonny Bill Williams é um dos melhores centros do mundo - e um dos mais conhecidos jogadores de râguebi. Acontece que, em 2008, converteu-se ao Islão para lutar contra um passado de alcoolismo e, agora, recusou-se a vestir equipamentos que tenham patrocínios a bancos. Mas só agora, porque já os usou, muitas vezes, em outras ocasiões: "Sei que não sou perfeito. Todos os dias trabalho arduamente para me tornar melhor pessoa"

Diogo Pombo

Estão a ver a fita adesiva na gola da camisola? Foi assim que Sonny Bill Williams tapou o logotipo do Bank of New Zealand, no sábado, quando jogou pelos Auckland Blues contra os Highlanders, numa partida do Super Rugby

Dianne Manson

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Sonny Bill Williams é um neozelandês de grande porte. Tem uns 108 quilos de músculo espalhados por 1,94 metros, num corpo que parece ter sido construído para jogar râguebi. Além de forte, alto e brutamontes, é rápido, ágil e esguio a desviar-se de outros corpos, para evitar que uso o dele para os abalroar.

Sonny Bill é dos melhores do mundo a ser mestre do offload, nome que se dá à técnica que se tem de ter para passar a bola com uma mão, quando se está a ser placado, por trás do corpo do placador ou pelo lado (em caso de dúvida, o melhor é ver aqui).

Sonny Bill é, aos 31 anos, um jogador de râguebi com a vida já bem preenchida. Ele nasceu no país em que a modalidade é tema para políticos e debates nacionais, e onde começou no rugby league, a variante do râguebi sem rucks e só com 13 jogadores em cada equipa e que o levou à seleção da Nova Zelândia. Depois, passou ao râguebi de 15, foi com 23 anos para o Toulon, em França, onde estão os ordenados milionários, mas não a hipótese de representar o país (os All Blacks apenas convocam quem jogue na Nova Zelândia).

Sonny Bill Williams voltaria à terra dele, jogou e fez por ser chamado à seleção que venceu o Mundial de 2011 e mudou de ideias outra vez. Voltou à rugby league, foi eleito o melhor do mundo e saiu de lá, de novo, para conquistar um segundo Mundial de râguebi de 15 com a Nova Zelândia, em 2015. Pelo meio, ainda deu para jogar no Japão, experimentar uma breve carreira de luvas nas mãos e no meio dos ringues - fez oito combates de boxe e ganhou sempre - e converteu-se ao Islão.

Só por tudo isto, Sonny Bill já seria alguém especial. Mas é-o ainda por outras coisas. Umas más, como os problemas que teve devido ao consumo de álcool, quando o neozelandês foi parado e multado algumas vezes pela polícia e chegou a ser apanhado a urinar na rua. Outra boas, como na final do Mundial, quando, após um miúdo de 14 anos ser placado por um segurança, o levou de volta aos pais, na bancada, e lhe deu a medalha de vencedor da competição.

É normal, portanto, que tudo o que Sonny Bill diga ou faça tenha uma certa repercussão.

Sonny Bill Williams será o primeiro a ter consciência disto. E foi por causa dela que, no sábado, no seu regresso ao Super Rugby, após se ter dedicado à seleção de sevens neozelandesa que foi aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro - ele é mesmo especial e viajado -, tapou, com fita adesiva, as siglas do Bank of New Zealand (BNZ) que estava na gola da sua camisola. Sendo ele quem é, o gesto deu nas vistas e suscitou perguntas.

Sonny Bill, especial como é, começou por escrever, no Twitter, que “em relação à camisola”, iria “clarificar o assunto durante a semana”. O alarido foi muito. Na quarta-feira, em comunicado, a federação de râguebi da Nova Zelândia deu conta que, no contrato assinado com o jogador (no hemisfério sul, os jogadores têm vínculos com as federações, e não com os clubes), existe uma cláusula de objeção de consciência, que Sonny Bill Williams accionou.

Dianne Manson

Essa cláusula permite que o jogador se recuse a usar qualquer logotipo de marcas, ou bancos, que vão contra as suas crenças. Sonny Bill é muçulmano e a Charia, nome conferido à lei e às regras islâmicas, proíbe que se contraiam empréstimos com taxas ou juros. Caso tal suceda, o Islão considera-o como uma Riba, ou seja, ganhos injustos, imorais ou eticamente reprováveis.

Na quarta-feira, Sonny Bill lá se pronunciou sobre a polémica e confirmou que tudo se deve a religião: “Quero tornar claro que não tenho nada contra o BNZ e a Investec [entidade bancária que patrocina o Super Rugby, que também não vai promover]. A minha objeção em vestir roupa que promova bancos, álcool ou empresas de apostas é central para as minhas crenças religiosas. À medida que aprendo e desenvolvo a compreensão da minha fé, já não me sinto confortável em fazer coisas que costumava fazer. Um logotipo numa camisola pode ser uma pequena coisa para algumas pessoas, mas, para mim, é importante que faça o que está certo de acordo com a minha fé”.

Foi pelo facto de Sonny Bill Williams já ter vestido, ene vezes, várias camisolas com logotipos de bancos e tudo mais, que muito se falou sobre a decisão que tomou no sábado. A seleção da Nova Zelândia, por exemplo, é patrocinada pela AIG (American International Group), uma seguradora.

Falta saber se o jogador vai recusar, ou não, a vestir a camisola de uma das equipas mais conhecidas do desporto que contenha esse logotipo. Em 2013, no futebol, Papiss Cissé, também muçulmano, recusou-se a vestir a camisola do Newcastle quando o clube passou a ser patrocinado pela Wonga, uma entidade de crédito.

Sonny Bill Williams, resumindo, é especial. Ou, como ele diz: “Sei que não sou perfeito. Todos os dias trabalho arduamente para me tornar melhor pessoa”.

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