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Os pássaros voam, o céu é azul, a chuva molha, a Nova Zelândia ganha

Os British and Irish Lions perderam (30-15) contra os All Blacks. No primeiro de três jogos da digressão à Nova Zelândia, a seleção britânica foi muitas vezes atropelada pelo poderio físico dos que vestem de preto e não conseguiu anular o jogo dos avançados da melhor equipa de râguebi do planeta

Diogo Pombo

David Rogers

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Há meses e meses e meses que se esperava por isto no mundo oval. Não é como no futebol, em que estamos num ano ímpar, sem um Mundial ou um Europeu, e se tenta contentar as pessoas com uma taça que, no fundo, ainda não significa muito na escala do prestígio. No râguebi, o que está a acontecer neste momento tem quase o tamanho de um Campeonato do Mundo, embora seja jogado por apenas duas equipas, mas que nelas concentram uma senhora percentagem dos melhores jogadores do mundo.

No sábado, quando era manhã em Portugal e bem de noite em Auckland, a 11 horas de fuso horário de distância, na Nova Zelândia, os British and Irish Lions jogaram contra os All Blacks.

A seleção que apenas se junta a cada quatro anos e tenta juntar o que de melhor há entre ingleses, galeses, escoceses e irlandeses, defrontou a equipa que não sabe o que são bolas redondas e tem uma percentagem de vitória a tocar nos 80%, desde sempre. A digressão dos Lions já não passavam pelos nossos antípodas desde 2005, há tanto tempo que coincidiu com a explosão de um miúdo e médio de abertura, nos seus vinte e poucos, chamado Daniel Carter. Foi mesmo há muito, muito tempo.

Porque, além de se juntarem a cada quadriénio, os Lions vão trocando o país que acolhe a sua digressão, entre a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Desta vez, perderam o primeiro jogo da série de três frente aos All Blacks, por 15 pontos de diferença. O resultado de 30-15 foi definido quase no último minuto do encontro, quando os Lions marcaram o seu segundo ensaio.

Até lá, o intensidade dos avançados da Nova Zelândia, que se fartaram de galgar metros com a bola na mão. Kieran Ried, o capitão, foi o exemplo maior de como eles impediram, constantemente, que a primeira placagem de que eram alvos fosse efetiva (serem parados no local do contacto). A técnica dos maiores, e mais fortes e mais pesados neozelandeses para rodarem sobre o placador, ou irem buscar um par de metros extra à força de pernas, para empurrarem o adversário, fez com que os All Blacks furassem a linha de defesa adversária.

Rieko Ione, o novo ponta maravilha neozelandês, de 20 anos, marcou dois ensaios. Já tinha marcado um ensaio aos Lions pelos Blues, no segundo jogo da digressão (além da série de três jogos frente aos All Blacks, há partidas contra equipas neozelandeses e seleções provinciais).

Ione marcou-os antes e depois de os Lions inventarem o melhor ensaio do encontro - a jogada começou na sua área de 22 metros, foi sempre jogada à mão e terminou com rápidas e curtas trocas de passe até Sean O´Brien, o flanqueador do lado aberto, fazer o toque de meta na área de ensaio neozelandesa.

O ensaio deu espetáculo, mas a partida esteve quase sempre controlada pelos All Blacks. Como sempre, foram excelente a fazer muito bem as coisas mais simples, como lembra Nick Evans, antigo internacional neozelandês, há mais de uma década a jogar na Europa, que escreve para o The Guardian e conta como os treinos da Nova Zelândia se baseiam em testar a técnica sobre condições de pressão e de fadiga máximas.

Daí que em rucks, em disputas de bola na relva ou em momentos em que o jogo de mãos tenha de se esmerar, os neozelandeses serem tão avessos ao erro como uma calculadora. Os Lions nunca conseguiram aproveitar o jogo ao pé de Owen Farrell, médio de abertura inglês e um dos melhores pontapeadores do mundo, que apenas teve um pontapé de penalidade em 80 minutos.

É por isso, também, que em campo estejam rapazes que ignorem as leis da física e da contorção do corpo como Beauden Barrett, que resgatou uma bola da relva, com uma mão, em vez de mergulhar sobre ela e garantir a sua posse, como 99% dos jogadores o fariam.

Não vai ser mesmo nada fácil para os Lions virarem a série de três jogos. O próximo será sábado, 1 de julho.

Hannah Peters

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