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Quer saber qual é o acontecimento do ano no râguebi? Este neozelandês explica

Carl Murray viveu e jogou râguebi, durante muitos anos, em Portugal. Foi internacional pela seleção portuguesa de 15 e de sevens, mas é neozelandês. Por isso, pedimos-lhe para explicar, escrevendo, o que significa a digressão dos British and Irish Lions para um kiwi. O último jogo contra os All Blacks é no sábado (8h35) e “esperar 12 anos por uma desforra é muito tempo”

Diogo Pombo

Hannah Peters

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A digressão dos Lions tem um impacto maior que um Campeonato do Mundo. A cultura de bebida, misturada com o amigável ambiente kiwi, fazem com que seja incrível fazer parte da experiência de uma digressão.

Uma das minhas memórias de râguebi mais antigas é o jogo dos Lions contra North Auckland, em Whangarei [em 1993]. Nessa altura, até o fofinho leão de peluche que deixava na linha do meio campo era razão para entusiasmo. Já tive a oportunidade de viver duas digressões, quando tinha oito anos e com 20. Ambas deixaram marcas nas minhas memórias e esta digressão não será diferente, apesar de estar no outro lado do mundo.

Agora consigo vê-la de outra perspetiva. Treino e jogo num clube inglês, onde as brincadeiras têm sido levadas até outro nível.

Os adeptos dos British and Irish Lions são dos mais apaixonados que há. Mantiveram-se calmos durante as primeiras semanas da digressão. Mas, segundos depois do apito final no segundo test, a minha caixa de mensagens estava cheia de piadas amigáveis. Uma frase que repetiram, constantemente, foi “Carl, acho que agora deves ser 100% português”. Sou um adepto fervoroso dos All Blacks e não sou o melhor dos perdedores, como qualquer Kiwi, acho eu. Portanto, foi difícil de encaixar.

Depois de, no primeiro jogo da digressão, os Lions quase perderem contra uma equipa feita de jogadores provinciais [New Zealand Provincional Barbarians 7-13 Lions], achei a 100% que a Nova Zelândia ia ganhar. Mas, à medida que a digressão prosseguiu, os Lions fortaleceram-se como equipa. Tiveram os seus soluços pelo caminho e o Warren Gatland, o selecionador, tem recebido muitas críticas. Nunca uma digressão tinha sido tão transmitida pelos media internacionais e quando os Lions perdem a crítica é enorme. Mas merecem crédito - mantiveram-se unidos, como equipa, juntaram vitórias importantes e construíram confiança.

Provaram no segundo test que conseguem jogar râguebi e que estão aqui para ganhar a série de três jogos.

As escolhas do “Gats”, na semana passada, foram muito questionadas, mas a experiência do Sam Warburton, Alun Wynn Jones, Johnny Sexton e do Owen Farrell conseguiram sair das entranhas de um jogo que, aos 20 minutos, pensava estar decidido. Maro Itoje, aos 20 anos, foi excecional. De ser o bebé dos Lions, ele tem-se transformado num herói de culto para os adeptos que acreditam numa vitória histórica contra os All Blacks, amanhã à noite.

A velocidade e evasão de Anthony Watson, Liam Williams e Elliot Daly têm causado muitos problemas nos All Blacks. A dupla ameaça de haver dois playmakers com Sexton e Farrell fez com que os Lions conseguissem explorar as fraquezas dos All Blacks, na semana passada, a partir do momento em que o Sonny Bill Williams viu um cartão vermelho. Foram capazes de corrigir os erros, melhoraram na placagem, defenderam a linha da vantagem e tornaram-se mais físicos no ruck e no maul, duas áreas nas quais se tinham focado durante a preparação para a digressão.

Posso ser um pouco parcial, mas tenho a sensação que eles acordaram o gigante.

Os All Blacks vão numa série de 31 vitórias em Eden Park [estádio onde se vai jogar o terceiro e último jogo, em Auckland], que vem desde 1994. Não há muitos jogos de râguebi melhores do que este. Para um kiwi, estarei a pular na cadeira até ao apito final, quando, espero, poderei apreciar uma cerveja com os meus mates ingleses, no clube de râguebi local. Nós, os kiwis, somos muitos apaixonados com os All Blacks, tal como os portugueses o são com a seleção nacional de futebol.

Phil Walter

Sinto-me um pouco nervoso só de pensar no último jogo da série.

Sempre pensei que os All Blacks iam ganhá-la por 3-0. A vitória dos Lions na semana passada fez com que esta seja a partida mais antecipada de sempre, que me lembre, dos meus 32 anos. No final, penso que o estilo e a compostura de Beauden Barrett, Julian Savea, Kieran Reid e a capacidade física dos avançados dos All Blacks serão demasiadas coisas para enfrentar.

A técnica que eles possuem está a um nível diferente. A mistura entre isso e a história que há no Eden Park, espero, vão dar-nos a série. Isto só acontece a cada 12 anos, mas qualquer miúdo saberá o que são os Lions. Ainda tenho memórias da digressão que pude ver em 1993. Não consigo descrever o significado de uma vitória para os neozelandeses. É demasiado.

Esperar 12 anos por uma desforra é muito tempo, por isso, a maioria dos All Blacks tem o peso do país a cair-lhe sobre os ombros.

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