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Râguebi

A batalha decisiva

Uma equipa com jogadores de quatro países (Inglaterra, País de Gales, Irlanda e Escócia) desafiou o poderoso jogo neozelandês. Foram dez jogos inesquecíveis em seis semanas alucinantes. Lions e All Blacks estiveram frente a frente, e no fim ganhou o râguebi

António Aguilar

David Davies/PA Wire

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Silêncio. “Aotearoa, Aotearoa”, gritou o chefe dos guerreiros maoris, com cara de poucos amigos, enquanto dançava, gesticulava com uma lança na mão no meio da tradicional receção no aeroporto de Auckland à comitiva dos Lions. O capitão dos visitantes, o galês Sam Warburton, bem à frente dos colegas de equipa, tinha debaixo do braço a mascote Billy, um leão de peluche, e escutava serenamente, olhos nos olhos, os cumprimentos, concluídos com o típico toque de nariz com nariz que traduz as boas-vindas na cultura e tradição do povo maori. Esta é a tribo que habita desde sempre a Aotearoa, a “terra da longa nuvem branca”, e que sempre dispensou a especial saudação às seleções de râguebi que viajam em digressão à Nova Zelândia. Desta vez, porém, é uma ocasião muito especial para os neozelandeses: não só porque acontece apenas a cada 12 anos como os visitantes britânicos, que representam os antigos colonizadores do pequeno país com duas ilhas situado no meio do oceano Pacífico e do mar da Tasmânia, vêm desafiar nos relvados aquilo que de melhor no desporto os neozelandeses mostram ao mundo: a sua seleção de râguebi, os famosos All Blacks.

Não é para todos os atletas nem para qualquer desporto coletivo reunir os melhores internacionais de quatro nações, como ingleses, galeses, escoceses e irlandeses, habitualmente adversários de enorme rivalidade, e formar uma equipa no final de uma época desgastante na Europa, incluindo jogos de campeonato e jogos de cada seleção — como o fazem nos intensos duelos do Torneio das Seis Nações. De quatro em quatro anos, os adversários feitos companheiros de equipa viajam, alternadamente, até às três potências do Hemisfério Sul: África do Sul, Austrália e, este ano, Nova Zelândia.

British and Irish Lions chama-se a seleção nascida nos finais do século XIX e destinada a celebrar e a propagar os valores do râguebi pelos então muito amadores jogadores britânicos — em especial os ingleses, inventores do jogo da bola oval que, passados quase cento e cinquenta anos, em plena era do desporto profissional, preserva todos os princípios que levaram à sua fundação. Ser um Lion está muito além da felicidade e da honra de representar o seu país. Transporta o atleta para uma dimensão extra e fá-lo ser parte da história, roçar a eternidade.

Arthur Shresbury, o capitão da seleção inglesa de críquete, organizou em 1888 uma longa viagem de 21 jogadores de râguebi até à Nova Zelândia e Austrália. Realizaram 35 jogos, vencendo 27 e praticando em 18 deles as australian rules, numa longa viagem de oito meses e que só no trajeto de Londres a Wellington levou 46 dias. O primeiro jogo oficial teve lugar a 28 de abril de 1888, em Otago, e o então chamado Shaw & Shresbury Team venceu por 8-3 a essa província neozelandesa. Na equipa que jogou de camisolas listadas azuis e vermelhas não havia jogadores irlandeses, e o capitão era o inglês Robert Seddon — que morreria já na Austrália, afogado, quando nadava no Hunter River, na Nova Gales do Sul.

União. Diferentes nacionalidades, diversos clubes, mas o mesmo amor à modalidade. Jogadores dos Lions e dos All Blacks lado a lado no final de um dos jogos da exigente digressão dos Lions ao Hemisfério Sul

União. Diferentes nacionalidades, diversos clubes, mas o mesmo amor à modalidade. Jogadores dos Lions e dos All Blacks lado a lado no final de um dos jogos da exigente digressão dos Lions ao Hemisfério Sul

FOTO Nigel Marple/REUTERS

Nos dois Tours seguintes, em 1891 e 1896, rumaram à África do Sul, tendo na primeira viagem, a convite da Western Province da Cidade do Cabo, disputado o primeiro test-match diante de uma equipa de internacionais sul-africanos. Nesses dois anos, os britânicos eram chamados de British Isles, face ao reconhecimento oficial da Federação inglesa. De então para cá houve 37 digressões oficiais dos Lions, todas às três potências do Hemisfério Sul (excetuando três realizadas à Argentina, nos anos de 1910, 1927 e 1936). Casos de exceção, ou seja, jogar em solo britânico ou na Europa, apenas três: em 1955, em Cardiff, diante de uma equipa internacional galesa, no centenário da Federação local; em 1977, em Twickenham, um Lions-Barbarians (ver caixa especial com a história da visita portuguesa) para angariação de fundos no Jubileu de Prata da Rainha; e ainda em 1986, em Paris, frente à França, nas celebrações dos 200 anos da Revolução Francesa.

Da história das digressões destaque para o facto de, a partir de 1950, no Tour à Nova Zelândia, terem sido chamados de Bristish Lions e o equipamento corresponder já ao atual. Em 2001, juntou-se a denominação de Irish, quando já muitos jogadores irlandeses tinham sido chamados. Em mais de trinta Tours, que só a partir de 1989 se fixaram em ciclos de quatro anos, não poderemos deixar de invocar as vitoriosas digressões de 1971 à Nova Zelândia (a única até a data), e as de 1974 e 1997 à sempre muito agressiva África do Sul. Em ambas os capitães foram dois colossos de jogadores: o irlandês Willie John McBride (recordista com 17 jogos) e o inglês Martim Johnson.

O ano de 2017 voltou a ser de digressão para os Lions e, como tal, estava destinado a ser um evento único e imperdível, não só para os numerosos seguidores das equipas envolvidas como para toda a comunidade do râguebi de diversas latitudes e credos: argentinos, fijianos ou mesmo norte-americanos. E nós, os portugueses também apaixonados pelo jogo, de novo vimos a extensa rede de canais de televisão, dos públicos aos privados, passar totalmente ao lado de um inigualável acontecimento desportivo.

Esse momento da receção no aeroporto era o primeiro de uns excitantes 42 dias de estadia não só para a extensa comitiva dos British and Irish Lions como para o país acolhedor, uma cativante Nova Zelândia habitada por um povo acolhedor, simples, de mentalidade própria e com muitas zonas ainda rurais e de uma beleza natural inusitada. Os 40 jogadores dos Lions (16 ingleses, 12 galeses, 11 irlandeses e um escocês) — escolhidos e comandados, por incrível que pareça, por um treinador neozelandês, Warren Gatland, ex-selecionador do País de Gales, do qual se libertou esta época para se centrar na escolha dos eleitos — sabiam que tinham pela frente o maior desafio das suas carreiras: enfrentar o mais forte, melhor organizado, apaixonado e também ameaçador râguebi ao cimo da terra.

À entrada para o 12º Tour à Nova Zelândia, o balanço das Series anteriores era desanimador: dez derrotas, a última das quais bem negra, em 2005, com 3-0. Apenas em 1971 tinham os Lions alcançado vantagem no conjunto dos três test-match diante dos All Blacks, numa digressão marcante e inspiradora em que pontificavam na equipa do Hemisfério Norte lendas como os galeses Gareth Edwards, Barry John, Phil Bennett, o capitão, o irlandês Willie John McBride e o inglês Bill Beaumont. 46 anos passados, os Lions traziam na bagagem a ambição e o objetivo de voltar a ganhar as Series. Mas tinham dez jogos para realizar, porventura sob as condições chuvosas e frias do atual inverno neozelandês: cinco diante de equipas provinciais recheadas de internacionais e que atuam no Super Râguebi, campeonato que envolve também equipas sul-africanas e australianas; e mais duas com seleções especiais, os maori All Blacks e os Barbarians.

Todos ferozes opositores, superatletas, em plena época competitiva, cheios de ritmo de jogo nas pernas e implacáveis nos duelos físicos que, como se sabe, são uma constante num jogo como o râguebi, cujas características assentam na conquista e ocupação do espaço, de cada metro do relvado, e de toda uma panóplia de combinações táticas e execuções técnicas que parecem um confronto entre dois exércitos no campo de batalha. Com dois jogos, em média, por semana, totalizando cinco semanas significava, este ano, ter duas equipas e gerir com enorme critério a escolha dos jogadores, até ao primeiro teste com os All Blacks, pois esse seria já o sétimo jogo da digressão.

FOTO David Gray/REUTERS

Inédito. Há meio século que não acontecia nada igual, mas as Series de 2017 ficam marcadas pela expulsão de um jogador neozelandês. E logo o mais mediático, Sonny Bill Williams. No final, porém, sem um vencedor, prevaleceu o desportivismo

Inédito. Há meio século que não acontecia nada igual, mas as Series de 2017 ficam marcadas pela expulsão de um jogador neozelandês. E logo o mais mediático, Sonny Bill Williams. No final, porém, sem um vencedor, prevaleceu o desportivismo

Jason Reed/REUTERs

O selecionador Gatland estava consciente do pouco tempo de preparação. Os seus jogadores teriam de se conhecer melhor, afinar o coletivo, agilizar as diferentes combinações e jogadas durante os primeiros encontros e, se possível, garantir vitórias. A estreia, em Whangarei, foi boa, com um triunfo (13-7) sobre os Baba’s neozelandeses, mas três dias depois, no fatídico estádio de Eden Park, casa dos Auckland Blues (equipa do campeonato Super 18), a oposição feroz dos locais suplantou a manifesta falta de soluções dos britânicos, que perderam por 22-16. Soaram os alarmes nos Lions, mas Warren Gatland, muito atacado pela imprensa local, foi absorvendo com fleuma a pressão das críticas. Nos quatro jogos seguintes, obtiveram triunfos sobre os Crusaders de Christchurch, os Chiefs de Hamilton e os ameaçadores maoris All Blacks deram mais crédito ao potencial dos Lions — que não foi abalado com a derrota (23-22) em Dunedin, diante da poderosa ‘franquia’ dos Highlanders, fechando um ciclo exigente e que antecedia o primeiro test-match — dos três frente à seleção de todos os recordes e dos quais, no fundo, dependia o sucesso deste Tour.

Pela frente, os Lions teriam a equipa mais vencedora do mundo do desporto, como atestam os seus títulos em mundiais de râguebi (1987-2011 e 2015) em apenas oito edições da prova; os 14 títulos no torneio no râguebi Championship [outrora o Tri-Nations, com os seus velhos rivais África do Sul e Austrália, alargado para o ‘4 Nações’ em 2012, face à admissão da Argentina num total de 21 edições da prova] e ainda o facto de se manter como seleção nº 1 do ranking desde novembro de 2009. Acrescia para o primeiro duelo do Tour entre All Blacks e Lions que o local marcado não era de todo indiferente e muito menos inocente.

O Eden Park, em Auckland, funciona como um sagrado relvado-fortaleza dos neozelandeses. Diria até mítico, face às duas finais de Mundiais lá conquistadas (1987 e 2011) e ao registo de resultados lá alcançados: invencíveis desde 3 de julho de 1994 (frente à França, 20-23), num ciclo de 38 vitórias. Eram já 23 anos sem derrotas neste estádio. E o registo manteve-se nesse dia 24 de junho, com as previsões e o otimismo geral a confirmarem-se no triunfo justo dos All Blacks por 30-15 face à superior eficácia e intensidade de jogo demonstrados.

Oito dias depois haveria novo duelo, mas houve tempo de lamber as feridas no seio dos Lions. Nada estava perdido, só que a pressão de não poderem perder o segundo teste era gigantesca, ainda que, também, desafiante e motivadora. A meio dessa semana, viagem até Wellington e jogo frente aos Hurricanes (campeões do Super Râguebi em 2016 e com alguns All Blacks na equipa): empate a 31-31 e apreensão generalizada face à forma como os Lions quebraram nos minuto finais.

Ainda na capital, Wellington, a 1 de julho chegavam os primeiros 80 minutos decisivos. Só a vitória salvava os Lions e a verdade é que o jogo foi rico em vicissitudes e momentos dramáticos. Talvez o maior tenha sido a expulsão do All Black mais mediático e influente, o ‘centro’ Sonny Bill Williams. Uma placagem alta e perigosa, atingindo a cara do inglês Anthony Watson, embora de forma involuntária, sancionada pelo vídeo-árbitro e bem. Um cartão vermelho e exclusão, situação que não acontecia a um jogador neozelandês há 50 anos. A verdade é que a sua equipa jogou uma hora com 14 jogadores e tal permitiu na reta final a recuperação dos Lions e o suado triunfo por 21-24. A decisão das Series foi adiada para o terceiro jogo e os Lions interrompiam um impressionante ciclo de 47 vitórias em casa dos All Blacks, desde 2009, ou seja, 2849 dias sem experimentarem o sabor da derrota.

Empate nas Series que se esperava ser desfeito, de novo no Eden Park, com 50 mil espectadores. Quase 10 mil eram britânicos que viajaram para apoiar os Lions no outro lado do mundo. No ar pairava mais o otimismo neozelandês face ao valor dos campeões do mundo. O capitão, Kieran Read, ao completar as 100 internacionalizações, ambicionava celebrar o feito com a conquista destas Series. O lado britânico contrapunha com a confiança inabalável na astúcia do ‘kiwi’ Warren Gatland para surpreender os seus compatriotas, tendo para tal mantido o mesmo quinze titular de novo capitaneado por Sam Warburton.

A dois minutos do fim de um intenso jogo com enorme tensão, logo após os Lions terem empatado o jogo (15-15) e a frustração dos da casa, eis que no pontapé de reinício de jogo há um despique de bola no ar e o galês Ken Owens é apanhado fora de jogo (intencional ou não?) e ao tocar na bola a decisão do árbitro francês aponta uma penalidade. Logo aí os All Blacks rejubilam, pois tentando aos postes poderiam ainda ganhar o jogo. Mas pressionado pelos Lions, o árbitro consulta o vídeo-árbitro e este, porventura sentindo o gigante peso da decisão, considera um fora de jogo involuntário e impõe o empate no jogo e nestas Series.

Sensações antagónicas pairaram sobre o estádio no final. Os neozelandeses, tão perto de manter a tradição de há 46 anos, cediam um empate frustrante. Os Lions, mais felizes, salvavam-se de um novo desaire. Sob a chuva que caía inclemente, cercados pelo calor das emoções de adeptos, jogadores e treinadores, prevaleceu o peso e a imagem dos capitães, juntos, partilhando o troféu.

O galês Warburton, a quem o guerreiro maori cinco semanas antes saudara, elogiou o esforço da equipa, o alto nível do râguebi praticado, a felicidade pelo empate e todo o apoio do seu público (o Red Army). Kieran Read, com 100 jogos internacionais, tinha no rosto o amargo do momento, tão perto tinham estado da vitória. “O trabalho dos árbitros é muito difícil, nós tivemos oportunidades de marcar ensaios no jogo, que desperdiçámos, e daí pagámos um preço”, afirmou o jogador neozelandês. “Estou orgulhoso de ter completado os 100 jogos com esta camisola, mas trocava todos esses jogos por uma vitória hoje. Não jogamos para empatar. Queremos sempre ganhar. Claro que um empate é melhor do que termos perdido. Demos o melhor de nós, mas custa acreditar não haver um vencedor nestas fantásticas Series. Mas o râguebi saiu como o grande vencedor.” Como se o leão descansasse ao lado da lança.

‘Podengos’ viram o Lions-Barbarians há 40 anos no Jubileu da Rainha Isabel II

d.r.

Três anos depois da Revolução de Abril, as informações que chegavam a Portugal sobre o râguebi internacional eram escassas. Valiam, então, as transmissões históricas que a RTP, ainda a preto e branco, nos oferecia do Torneio das 5 Nações, com os não menos valiosos e saudosos comentários de Cordeiro do Vale. “São mais três pontos para o País de Gales”, dizia o Serafim Marques — era esse o seu nome. Uma enorme audiência vibrava com as exibições dos melhores do mundo, em especial das seleções do País de Gales e de França, onde brilhavam estrelas como a melhor ‘formação’ de sempre: Gareth Edwards, o virtuoso fly-half Barry John e o defesa de cabelo comprido J.P.R. Williams. E ainda Pierre Villepreux , o loiro ‘asa’ Jean Pierre Rives ou o capitão francês, Jean Claude Skrela.

Por cá, o râguebi era totalmente amador e jogado em campos pelados. Fora a seleção, eram raros os clubes que ousavam viajar para defrontar emblemas estrangeiros, e apenas os duros duelos com nuestros hermanos, na Taça Ibérica, nas décadas de 60 e 70, animavam as hostes. As esporádicas viagens de clubes como o Benfica, CDUL, Direito, Técnico e Belenenses ao Sul de França (Biarritz e Dax, ambas cidades de râguebi) e a Inglaterra quebravam o marasmo. Sem os muitos canais de hoje na televisão, internet ou Facebook, mas inspirados no que se ia lendo dos Lions e Barbarians na única revista mensal que chegava lá de fora, a “Rugby World” (esgotavam rapidamente os poucos exemplares na Livraria Bertrand em Lisboa, na Rua do Carmo e na Av. de Roma), vários jogadores de diferentes clubes de Lisboa ousaram formar também um clube de convites para viajar e jogar râguebi.

Em 1977, nasceram os ‘Podengos’, nome consensual entre todos os atletas, porventura inspirados nas virtudes do irrequietismo e atitude ousada desta raça canina, argumentos capazes de ajudar nas exibições da equipa além-fronteiras. Para estreia, nada melhor do que viajar até à pátria do rugby union. Compradas do nosso bolso as viagens e as libras esterlinas (bem caras na altura versus o nosso escudo...), eis-nos no início de setembro de 1977, em plenas comemorações do Jubileu de Prata do reinado da rainha Isabel II de Inglaterra. A celebração incluía um duelo mágico e raro em solo britânico entre Lions e Barbarians, algo que a todos nos empolgou. De Londres rumámos poucos quilómetros até à casa de um típico e pequeno clube inglês, o Guilford & Godalming R.F.C., contra quem 23 estreantes ‘Podengos’ se bateram. O resultado pouco interessa ou, melhor, já não me lembro...

Tínhamos umas desbotadas camisolas azuis escuras, calções brancos e cada um com as meias do seu clube, tal como os nossos ídolos da altura faziam nos Barbarians Football Club — o primeiro e centenário clube formado por jogadores convidados que apenas fazem três a quatro jogos por época, por norma no Reino Unido e algumas vezes contra grandes seleções como os All-Blacks ou os Springboks. Não faltou o cunho bem português de alguns de nós terem posado para uma fotografia de equipa, tirada pela Kodak de um acompanhante antes do jogo, com melões, porventura de Almeirim e levados não sei como nas malas. Algo que intrigou os muito sérios adversários ingleses.

Pela primeira vez participámos também na famosa terceira parte do jogo, quando convivemos com uma pint de cerveja na mão com os jogadores adversários no seu club-house, decorado com as fotografias antigas das equipas. Era um edifício fronteiro ao relvado, onde estava muito da cultura e do espírito do râguebi. Ou seja, adversários no campo amigos fora dele. A experiência com os ‘Podengos’ permitiu que ficássemos mais amigos uns dos outros, malgrado sermos rudes adversários no campeonato português representando os nossos clubes. Para a memória, eis os nomes de alguns dos internacionais (e respetivos clubes) que alinharam pelos ‘Podengos’ nesse dia 9 de setembro de 1977: o ‘capitão’ da seleção, Raul Martins ( C.R. Técnico), Carlos Nobre Ferreira, João Carlos, José Rafachinho e José Gaspar Ramos (Benfica), Filipe Oliveira e Pedro Leal (G.D. Direito), Joaquim Pereira, Domingos Megre e Carlos Moita (CDUL), Manuel Fonseca e Costa (Belenenses), entre outros.

No dia seguinte, sábado, rumámos à catedral do râguebi, o estádio de Twickenham, ainda com as duas bancadas centrais em madeira e dois peões nas cabeceiras, donde assistimos a um jogo histórico, único, entre duas equipas verdadeiras pérolas da identidade do jogo de râguebi. Os Lions, formados por estrelas das quatro Home Nations, e os Barbarians, também com britânicos de eleição, e mais três franceses: Rives, Skrela e Bastiat no quinze titular. E lá estavam, na presença da rainha e do jovem príncipe Carlos, os Lions de vermelho e branco e os Baba’s de camisola branca e preta às riscas largas e transversais, calção branco e as meias de cada clube. De pé no peão, ou melhor no Ground Ticket, lugar que me custou uma libra — algo caro na altura, mas que valeu por inteiro — vi jogar ao vivo o Edwards, o Bennett, o Quinell, o Fenwick e o J.P.R. Williams. Lembrei-me logo de nós, ‘Podengos’, na véspera também com as meias diferentes... É uma experiência impossível de apagar da memória e que ousei partilhar numa altura em que os Lions voltaram a ser notícia ao cumprirem mais uma inesquecível digressão.

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