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Pedro Leal e a vida: "Estagnámos porque, sem dinheiro, não é fácil. Continuamos no nosso cantinho a brincar ao râguebi"

Os sub-20 portugueses jogaram no domingo, e pela primeira vez, a final do World Rugby Trophy, uma espécie de Mundial B do râguebi. Vão jogá-la quase 10 anos depois de Portugal ter estado no Campeonato do Mundo a sério. Pedro Leal foi um dos que lá esteve e, como conhece "praticamente 80% da equipa", falámos com ele sobre râguebi português e o "grande impacto" que esta final pode ter

Diogo Pombo

Mark Tantrum

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Para contextualizar, quão importante é o facto de os sub-20 estarem na final do World Rugby Trophy?
É importantíssimo e um feito inédito. Não tenho a história da federação, mas, se não me engano, acho que é a primeira vez que chegamos a esta final. Ainda para mais após batermos as Ilha Fiji, uma equipa à qual nunca ganhámos em sevens, 15, juniores ou juvenis, em nada. Claro que terem ganhado os primeiros jogos já foi bom, contra o Uruguai e Hong Kong. Não são equipas com tanto nome, são basicamente da mesma qualidade que nós. Mas ganhar às Fiji não é para qualquer um e eles já demonstraram que podemos ter ali uma grande equipa para o futuro. E o principal objetivo é manter esta equipa unida - foi assim que nós começámos muito antes de 2007 - para ver se conseguimos chegar ao Mundial. O de 2019 já não, mas para o próximo. Ainda para mais estando eles na final com as condições que tiveram.

Não fizeram um único jogo treino de preparação, por exemplo.
Toda a gente sabe quais foram as condições que eles tiveram: praticamente nada, foi zero. A preparação foi muito reduzida, tiveram muito pouco apoio e treinaram entre eles. Ficaram em Portugal, não jogaram com ninguém, enquanto as outras seleções trabalharam forte e tiveram um bom investimento. Nós não, foi contra tudo e contra todos.

Agora vão jogar a final contra o Japão.
Sabemos que é uma equipa fortíssima, que está a apostar muito no râguebi por causa do próximo Mundial, que vão jogar em casa. Como se sabe, o Japão tem muito, muito dinheiro, e até neste escalão já tem samoanos e fijianos a jogarem por eles. Já olham para esta geração e pegam nestes jogadores para os moldarem para fazerem parte do Campeonato do Mundo. Vai ser o jogo mais difícil, sem dúvida, até porque as Fiji já tinham perdido com o Uruguai, o que não tira o mérito aos nossos jogadores, que foram incansáveis.

Tens visto todos os jogos?
Tenho, tenho, felizmente. Só não vi o primeiro, estava de férias e sem internet. Acho que Portugal tem deixado um bocado a imagem que nós deixámos no Mundial [em 2007]: espírito de solidariedade, que é o mais importante, e uma defesa muito aguerrida. Até acho que eles jogam melhor do que nós jogávamos na altura [ri-se].

Achas a geração deles melhor?
A minha geração não teve assim tantos jogadores a chegarem à seleção e a irem ao Mundial. Fui eu, o Gonçalo Uva, o Pedro Carvalho e o Tiago Girão. O Pedro Cabral já era um bocadinho mais velho. Tivemos cinco, seis jogadores, o que já não é nada mau. Mas, olhando para esta equipa, pode ter mais futuros Lobos do que a minha teve. Vejo ali muito potencial. O râguebi hoje em dia é diferente, também. No meu tempo, aos 17 anos já se era sénior, hoje é um pouco mais tarde. Mas já há muitos jogadores a jogarem na primeira divisão, nas melhores equipas.

Hoje é mais fácil, digamos assim, jogar râguebi, do que há 10 anos?
Acho que sim, porque o râguebi é mais falado do que era na nossa altura. Os treinadores estão mais bem formados e acho que eles têm mais condições. Mas hoje é mais difícil chegar a um Mundial. Em 2007, o râguebi era profissional, mas pronto, equipas como o Uruguai ainda eram muito amadoras. Se calhar, na altura, ganhávamos facilmente ao Japão e, hoje, não é bem assim. Equipas como a Bélgica ou a Alemanha têm orçamentos gigantes e são profissionais, e nós continuamos aqui no nosso cantinho, um bocado a brincar ao râguebi.

Muitos países evoluíram enquanto nós estagnámos.
Sim, claramente. Ainda por cima também houve um grande boom com os sevens, que chegaram aos Jogos Olímpicos, há muito dinheiro envolvido. Nós estagnámos porque, sem dinheiro, não é fácil. Quando estava no circuito de sevens vi isso: uma pessoa tem que estudar, tem de trabalhar, e é impossível passar tanto tempo fora. Por isso é que também saímos do circuito. Mesmo os jovens que estavam na universidade faziam um ano e, depois, no segundo, os pais diziam “meu amigo, já perdeste um ano, agora vais estudar”. As condições não são fáceis.

FRANKIE DEGES

Quer eles ganhem ou percam a final, o que pode a federação fazer para potenciar esta geração de jogadores?
Tem que dar condições aos jogadores e tentar que alguns deles consigam ir jogar lá para fora. Muitos deles têm propostas, mas, depois, têm medo de partir para essa aventura. E, ao nível das universidades, ajudar a que os jogadores consigam conciliar os estudos com o râguebi. Porque há sempre o problema de irem jogar pela seleção e faltarem a exames, por exemplo. A federação não consegue falar com as faculdades e conseguir que os professores mudem os exames, pelo estatuto de alta competição. Acho que isso era importante, é meio caminho andado para que os jogadores não desistam. Muitas vezes eles querem continuar, mas os pais não deixam porque sabem que o râguebi não será o futuro deles.

Mas não deve ser fácil ir para fora com aquela idade.
Sim, mas é a altura ideal para ir, eu tive essa sorte. Com 17 anos fui para França exatamente assim. Houve um Campeonato da Europa de sub-19, fui contratado e fui. Sei que alguns destes jogadores já têm propostas, mas os pais não deixam, ou eles próprios não querem. Mas, depois desta competição, é uma boa altura para irem, porque vão estar mais expostos e com mais clubes atrás deles. É uma grande oportunidade para irem.

Conheces jogadores desta seleção?
Sim, muitos. Alguns do GD Direito, outros da seleção de sevens, conheço praticamente 80% da equipa. Os avançados conheço menos, porque não jogam nos sevens.

Tens falado com eles?
Claro que sim. E tenho tentado passar força e boa sorte. Um jogador importante da seleção, o Zé Luís, que é um dos melhores, magoou-se, e ainda há bocado falei com ele. Disse que estava à rasca, mas que hoje [sexta-feira] já está melhor. Espero que consigo, porque ele e o Vasco Ribeiro são uma dupla de centros impressionante. Tenho falado com quase todos e também com o António Aguilar, o treinador, que é meu amigo.

E deduzo que com o Luís Piçarra também, o treinador principal [todos estiveram no Mundial de 2007]
Exato!

O que achas que eles vão dizer aos jogadores no dia da final?
Vão-lhes dizer para desfrutarem. O jogo mais difícil foi o anterior, que era um mata-mata, ali é uma final, não há muito a fazer. É divertirem-se e jogarem com a alma com que eles jogam. Eles já fizeram história. Claro que ninguém se lembra dos perdedores, mas, se eles ganharem, vão poder jogar um Mundial a sério, com as Nova Zelândias e as Austrálias, o que vai ser incrível.

Para eles e para o râguebi português.
Sem dúvida. Ainda hoje estava a ver as notícias e já falavam um bocadinho da vitória de Portugal contra as Fiji. Ganhar ao Japão talvez tenha menos impacto, mas, vendo o que o Japão fez no último Campeonato do Mundo, e que o próximo será jogado lá, acho que vai ter um mega impacto. Mesmo para a World Rugby [entidade que rege o râguebi mundial], pode ser que eles voltem a olhar para nós e que nos deem mais apoio. Como descemos de divisão perdemos o apoio e acho que é uma boa oportunidade. Estes jogadores são o futuro do râguebi português e, ganhando, vão ter um grande impacto.