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Râguebi: perder uma final que nunca chegou a terminar

Chovia a potes e estava um temporal em Montevidéu, no Uruguai, onde a seleção nacional de râguebi de sub-20 jogou a final do World Rugby Trophy, contra o Japão. Tão severo estava o clima que, a 14 minutos do fim, o árbitro interrompeu o jogo - que não voltaria a recomeçar. Tudo acabou com o resultado que se registava (3-14) e Portugal perdeu uma final sem jogar até ao fim. A federação já protestou contra a decisão

Diogo Pombo

World Rugby

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Chovia muito, o céu estava tapado por nuvens, trovejava. O campo empapado e pesado, tudo molhado, e duas seleções num campo de relva a tentarem jogar râguebi. Eis o cenário que Montevidéu, no Uruguai, montou para a final do World Rugby Trophy que a seleção portuguesa de râguebi de sub-20 teve de jogar no domingo à noite (de cá, porque lá ainda era tarde), contra o Japão. Havia tanto de relvado como de lamaçal.

A frase cliché das “condições ideais para a prática da modalidade” não podia ser mais adequada. A final, contudo, jogou-se e, com o tempo, foi acontecendo mais ou menos o que se esperava. Os japoneses superiorizaram-se com o nível que a teoria, à partida, lhes dava a mais em comparação com os portugueses. Eles são do país que daqui a dois anos organizará um Campeonato do Mundo, do mesmo que costuma ter a seleção de sub-20 entre os países da elite do escalão - e não nesta espécie de Mundial B do râguebi, em que Portugal chegava, pela primeira vez, à final.

A 14 minutos de o jogo terminar, os japoneses venciam por 14-3 e as condições eram cada vez piores. Tão más estava que o árbitro decidiu interromper a final para ver o clima se cansava.

O senhor do apito informou as equipas que tal decisão se deveu, também, a questões de segurança, culpa da chuva e da trovoada. Cinco minutos passaram ficam a saber que a final ficaria por ali, porque a iluminação do estádio não seria boa o suficiente para dar luz ao que restava jogar, por a noite já estar a cair. Esta é a história do que aconteceu, contada pela Federação Portuguesa de Râguebi. E o normal seria escrever que o jogo recomeçaria hoje, ou em outra data.

FRANKIE DEGES/World Rugby

Mas não, não vai acontecer.

Os treinadores da seleção, Luís Piçarra e António Aguilar, que em 2007 estiveram no único Mundial sénior para o qual Portugal se qualificou, foram informados que “razões logísticas” não deixariam que os 14 minutos que faltavam jogar se jogasse nos dias seguintes. E assim, de repente, os portugueses perdiam uma final que apenas durou até aos 66 minutos. Em comunicado, a federação descreve o momento assim:

“Neste momento sentimos a violência dos sentimentos: os jogadores incrédulos, silenciosamente revoltados. Os treinadores Luís Pissarra e António Aguilar de lágrimas nos olhos. E foi neste preciso momento que percebemos a dimensão dos nossos campeões: confrontados com uma decisão que não têm de compreender ou aceitar, os jogadores, os treinadores e todo o staff mantiveram a elevação, a cordialidade, o respeito e a dignidade. Dentro e fora de campo, este grupo respeita Portugal e tudo o que representamos enquanto país e modalidade.”

A entidade enviou um protesto à World Rugby, que rege o râguebi mundial, contra a decisão do diretor do torneio, informando de que não há prazos previstos nos regulamentos que ditem quando deve a entidade pronunciar-se sobre o caso.

Depois da final, lá foram os jogadores para o balneário, perdedores de uma final que, no fundo, não chegaram a perder - porque nunca terminou.

E, mesmo assim, derrotados no jogo que, ganhado-o, daria acesso ao principal Mundial do escalão e direito a jogar contra seleções como a Nova Zelândia, Austrália ou África do Sul, acabaram com um sorriso na cara e cerveja na mão (tradição no râguebi, após o final de jogos de seleções).

FPR