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Como um jogo entre os All Blacks e uma equipa sem jogadores é do melhor que o râguebi tem

A Nova Zelândia venceu, este sábado, os Barbarians, uma equipa sem estádio, sem jogadores e sem nacionalidades. A melhor seleção do mundo defrontou a que apenas se junta umas poucas vezes por ano e convida jogadores para formar equipa, algo que só tinha acontecido por dez vezes - e mostrou o espetáculo que há no râguebi

Diogo Pombo

Jordan Mansfield

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O Barbarians-Nova Zelândia é um acontecimento especial, que aconteceu na tarde deste sábado, e vou tentar explicar porquê.

Foi um jogo entre a Nova Zelândia, de onde vêm os All Blacks, a melhor seleção do mundo e uma das melhores equipas da história do desporto, e os Barbarians, uma equipa sem país, sem estádio e sem jogadores, mas que, todos os anos, faz uns quatro ou cinco jogos e convida jogadores de muitos países, cada um a vestir meias diferentes por ser regra que vistam as meias dos clubes pelos quais jogam;

De um lado, estiveram os neozelandeses, alguns os melhores do planeta nas suas posições. E, do outro, jogadores que também são dos melhores e muitos até eram neozelandeses. Como Julian Savea, o ponta fortemente assustador, fenómeno do último Mundial, em 2015, que tem mais de 40 jogos e ensaios pelos All Blacks, que tem de ver amigos e companheiros a fazerem o Haka à sua frente e de jogar contra o irmão, Ardie, titular na Nova Zelândia.

É esquisito e estranho, embora também engraçado e especial.

É um jogo que se baseia numa espécie de pacto não firmado, um acordo de cavalheiros sem apertos de mão, em que todos estão cientes de que ali estão para jogar râguebi bonito - e, sobretudo, que entretenha. Por isso mal se veem pontapés táticos, só para ganhar metros de campo, para se ver muito jogo à mão, dezenas de offloads (passe com uma mão, por trás das costas do adversário), variadas interceções de passe, muitos jogadores a furarem linhas sozinhos e poucas paragens.

Os jogadores sabem que é um evento para darem espetáculo e uma oportunidade para se descontraírem. Como em 1973, no jogo em que muitos acham que os Barbarians marcaram o melhor ensaio de sempre:

Dentro deste espetáculo há Nigel Owens, o melhor árbitro do râguebi, muito falador, espalhafatoso, justo e espontâneo, que é ateado pelo microfone que tem consigo para os espetadores (no estádio e ou em casa, pela televisão), oiçam como ele corrige, alerta ou conversa com os jogadores.

E nessa transparência e genuinidade ouvimo-lo ser um espetáculo dentro do próprio espetáculo, dizendo coisas como "If you're going to cheat, cheat fair" - "Se me vais tentar enganar, engana-me justamente" -, enquanto corrige o formação dos Barbarians, antes de uma formação ordenada.

Um espetáculo de râguebi bem jogado, dinâmico, irrequieto e com muita ação e poucas interrupções. Há videoárbitro a funcionar sem assobios ou dúvidas, para todo o estádio ver e ouvir as conversas entre os homens do apito. E há mini-entrevistas, durante o jogo, aos treinadores adjuntos das duas equipas, para ouvirmos o que eles pensam do jogo que se está a jogar.

O 11º jogo entre estas equipas está 17-10 para os Baa-Baas, ao intervalo, e acaba com um 22-31 para os All Blacks. Ou um grande espetáculo que, em 80 minutos, conseguiu mostrar e agregar, a um sábado à tarde, o que de melhor o râguebi tem.

Jordan Mansfield

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    Carl Murray viveu e jogou râguebi, durante muitos anos, em Portugal. Foi internacional pela seleção portuguesa de 15 e de sevens, mas é neozelandês. Por isso, pedimos-lhe para explicar, escrevendo, o que significa a digressão dos British and Irish Lions para um kiwi. O último jogo contra os All Blacks é no sábado (8h35) e “esperar 12 anos por uma desforra é muito tempo”