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Parem tudo: o melhor jogador de râguebi do mundo é... neozelandês

Pelo segundo ano consecutivo, Beauden Barrett foi considerado o melhor jogador de râguebi do mundo e garante a continuidade de uma linhagem: desde 2012 que o prémio é levado para casa por um neozelandês e já vamos no terceiro ano em linha que o distinguido é um médio de abertura

Diogo Pombo

Hannah Peters

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Qualquer pesquisa no Google nos diz que lá longe, na Nova Zelândia, há mais ovelhas do que pessoas, uma daquelas curiosidades que nos permite dar nas vistas nos primeiros 10 segundos de uma conversa. Outro dado, não escrito, nem oficializado, mas que não foge muito à verdade, é estamos a referir-nos a um país onde é bem capaz de haver tantos campos de râguebi quanto escolas.

Por isso já surpreenderá o pouca gente que o novo melhor jogador do mundo de râguebi seja do país que está nos nossos antípodas. O novo não, o antigo que reteve o título, porque Beauden Barrett venceu o prémio pelo segundo ano consecutivo na noite de domingo, no Mónaco, onde a World Rugby montou a cerimónia para toda a gente se vestir e comer bem.

Com a distinção de Barrett, ainda não foi desta que alguém nascido algures noutra parte do mundo logrou acabar com a supremacia dos neozelandeses: desde 2012 que o prémio é deles, um ano que Daniel Carter conquistou o segundo dos três galardões que tem. Este trintão neozelandês - que ontem estava na cerimónia, dia em que também se soube que vai jogar no Japão a partir da próxima temporada - ainda ganharia em 2015, após comandar os All Blacks que venceram o segundo Mundial seguido, e deu início a uma tendência:

Os médios de abertura.

É a posição dele e de Beauden Barrett, por costume reservada aos matulões com as mãos mais leves e os pés mais certeiros para pontapear a bola oval. Estão no centro do jogo, ditam por onde, e como, a equipa joga, no fundo são quem toma mais decisões decisivas.

Este é o terceiro ano consecutivo que um médio de abertura é distinguido pela World Rugby, o que pode querer dizer duas coisas - Barrett é, realmente, muito bom; ninguém lhe faz frente porque o nível dos restantes países e jogadores não iguala a Nova Zelândia.

Ou talvez ambas sejam verdadeiras, apesar de a Inglaterra ter ficado a sorrir em 22 dos 23 encontros que realizou com Eddie Jones, o Midas australiano que os passou a treinar após o último Campeonato do Mundo. Porque a Nova Zelândia é a crónica líder do ranking mundial, tem uma percentagem de vitória superior a 80% há muito tempo e é como a única terra fértil para um tipo de cultura agrícola que faz brotar os melhores jogadores de râguebi do planeta.

Um deles é Beauden Barrett, um tipo tímido, introvertido, loiro e que não dá nas vistas, com humildade vincada ao ponto de encolher os ombros e quase menosprezar o prémio que o distinguiu, pela segunda. “Estou muito orgulhoso e surpreendido. Queria ser melhor do que o ano passado, mas ainda sinto que tenho muito para dar. Isto está apenas a começar”, disse, quase com a postura amansada de um cão obediente, no palco da cerimónia, já com o troféu na mão.

Ele só tem 26 anos e não parece acariciar estas coisas com muita importância, nem mesmo o facto de poder gozar da companhia dos irmãos, Jordie e Scott, na seleção neozelandesa. “Assim que chegas a casa ninguém se interessa por isso. É o bom que há em crescer numa pequena quinta, em Taranaki [província do país]. Somos muito humildes. A partir do momento em que chegamos a casa, a mãe e o pai relativizam tudo”, confessou, como que dormente em relação a tudo o que lhe sucede.

Beauden é quem está mais à direita, ao lado de Jordie e Scott, os irmãos Barrett que já jogam todos pelos All Blacks.

Beauden é quem está mais à direita, ao lado de Jordie e Scott, os irmãos Barrett que já jogam todos pelos All Blacks.

Hannah Peters

Um traço que pode não ser apenas dele, mas de um país.

Já esta segunda-feira, o Stuff, talvez o jornal neozelandês que mais atenção dá ao râguebi, publicou um artigo cujo título resume uma mentalidade: “Parabéns ao Beauden Barrett, mas ele não se importa, portanto porque nos haveremos de importar?”.

O texto versa sobre a faceta que Beauden gaba nos pais, a relativização de um troféu que não sai das mãos dos neozelandeses e que, pelos vistos, eles não valorizam assim tanto. Neste caso, o autor puxa transforma a humildade de Barrett em menosprezo, explicando que ele ganhou o prémio mesmo tendo um 2017 pior que um 2016, em que foi magistral como poucos jogadores já o foram.

E põe em causa a distinção que é feita segundo o critério de apenas uns quantos antigos (grandes) jogadores: John Smit, George Gregan, Maggie Alphonsi, Clive Woodward, Brian O'Driscoll, Agustín Pichot, Richie McCaw and Fabien Galthié. “Tudo pessoas bem credenciadas, mas é apenas a sua opinião”, resume, relativizando um prémio que, pelos vistos, também já começa a banalizar-se na Nova Zelândia.

A nação onde o râguebi é tão grande que já parece surpreender muito pouco as pessoas.