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Resolver um jogo de râguebi a 45 metros dos postes, a segundos do fim? Jonathan Sexton fê-lo

No sábado, na primeira jornada do torneio das Seis Nações, a Irlanda perdia contra a França por um ponto, no Stade de France, a segundos do fim. Até que o médio de abertura irlandês resolveu tentar a sua sorte com um pontapé de ressalto, quase a meio do campo - e os irlandeses acabaram a festejar

Diogo Pombo

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Estamos no Stade de France, em Paris, um estádio onde cabem perto de 81 mil pessoas, no dia em que a grande maioria delas, quase todas mesmo, devem ser francesas. Esta é a casa do râguebi gaulês e encheu-se para testemunhar o primeiro jogo desta edição do Seis Nações, o torneio em que, anualmente, competem a meia dúzia de países que melhor jogam com uma bola oval na Europa.

É um sítio barulhento, bem-composto, atolado de gente. Mesmo que só exista desde 1998, é mítico, por ser ali que a seleção francesa joga quase todos os jogos e que já se jogou a final de um Mundial de râguebi, em 2007 (e de um particular, e especial, Campeonato da Europa de futebol, mas isso é outra conversa).

Neste sítio, a Irlanda apenas venceu duas vezes nos últimos 18 anos e, este sábado, está a segundos de não ser desta que o volta a fazer.

Estamos na última posse de bola do encontro, os franceses vencem por 13-12 e defendem-se com tudo: vão placando efetivamente, sem que os irlandeses ganhem metros por aí além, os seus avançados sustêm a luta nos rucks e os homens do verde e do trevo vão tentando, ao largo e ao centro. É o tudo por tudo para não saírem derrotados da primeira jornada do Seis Nações.

O jogo ultrapassa os 80 minutos de duração, está no ponto em que qualquer paragem, ou bola fora, equivalem ao árbitro acabá-lo. Por isso, os irlandeses seguram-se à bola e fazem tudo bem feito - os avançados atacam os rucks e limpam-nos, sem faltas, os médios e restantes três quartos manejam a bola com cuidado, mãos com cola e passes certeiros. A Irlanda vai chegar às 41 fases na mesma jogada e, nas derradeiras, começa-se a notar uma tendência.

Eles estão a alinhar-se com os postes, ao centro, a ganhar metros com calma e paciência, a construírem as bases para deixar Jonathan Sexton na melhor posição possível.

Quem trabalha, luta, limpa rucks, sacrifica-se com o corpo por “terem a ideia da distância” que o médio de abertura precisa, foram “galgando e galgando até” o colocarem “na mira”, diria, depois do jogo, Sexton. Uma troca de olhares e a sugestão da distância para o local onde a bola estava a ser regateada fizer Connor Murray passá-la, a 45 metros dos postes. O abertura recebeu-a e pontapeou-a em drop (fazendo-a tocar na relva antes de a bater). E ela voou até passar por entre os postes.

Os irlandeses “celebraram como futebolistas” e “provavelmente” serão “gozados por isso”, confessaria o seu médio de formação. Porque, na última jogada e nos últimos segundos do encontro, conseguiram vencê-lo com um pontapé de ressalto batido quase a meio do campo. Os três pontos fixaram o resultado em 13-15 e prenderam vários jogadores franceses ao chão, deitados, exaustos e com as mãos na cabeça.

E os tipos de verde a pularem para cima de Johnny Sexton, aglomerando-se sobre o médio de abertura, encavalitando-se com o peso de uma vitória para a história, cerrada de forma histórica, porque estes pontapés em momentos de pressão, quando os postes estão longe e as hipóteses de um ensaio ainda mais, são sempre especiais.

Veja-se o drop com que Joel Stransky deu o Campeonato do Mundo à África do Sul e à Rainbow Nation defendida por Nelson Mandela, em 1995:

O de Stephen Larkam, um abertura que não se dava bem com pontapés aos postes, para colocar a Austrália na final do Mundial, em 1999 (quase coxo e com a visão afetada), e que até deu origem a um anúncio na televisão australiana:

E o pontapé de Johnny Wilkinson, a segunda super-estrela do râguebi, após Jonah Lomu, que ganhou o Mundial de 2003 para a Inglaterra contra os australianos, na Austrália - e com o pé direito, ele que era canhoto: