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Ganhar todos os jogos do Seis Nações: haverá melhor forma de celebrar o Dia de São Patrício?

Os irlandeses festejaram a conquista do torneio das Seis Nações no hotel, à frente da televisão, quando viram a França vencer a Inglaterra, em Paris. No sábado (14h45, Sport TV4), dia de São Patrício e do maior feriado irlandês, eles terão a oportunidade de garantir o Grand Slam em Twickenham, casa da vida oval inglesa, caso vençam a seleção que, há um ano, era tema de conversa sobre se estaria, ou não, ao nível dos todo-poderosos All Blacks

Diogo Pombo

Brendan Moran

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O Dia de São Patrício é um feriado católico, abundantemente celebrado na Irlanda a cada 17 de março, que festeja a chegada da religião cristã ao país em mil novecentos e troca o passo. Tenham, ou não, queda para a religião, gentes e paradas enchem as ruas de Dublin, animadas pela desculpa rocambolesca que têm para se vestirem de verde, carregarem trevos de três folhas e depositarem cerveja no corpo como se a vida dependesse do avolumar de litros bebidos.

O Saint Patrick’s Day (escrevê-lo e dizê-lo em português soa esquisito) é já este sábado. Uma feliz coincidência para quem é irlandês, vai celebrar o maior feriado e gosta de râguebi, pessoas que devem ser uma valente maioria no país, porque, nesse caso, será um dia feliz: a Irlanda vai jogar contra a Inglaterra em Twickenham, um dos maiores e mais icónicos estádios erguidos por causa de uma bola oval.

E vai lá jogar para tentar um pleno pela terceira vez na história.

No torneio das Seis Nações, a seleção que vença todas as outras alcança um Grand Slam. Os irlandeses são uma seleção forte, um país de râguebi, uma gente que adora a modalidade, mas são apenas a quarta nação na lista do número de títulos conquistados - têm 14, quase o equivalente a dizer que são a última seleção nesta corrida porque a Itália, verdade seja escrita, é, historicamente, a seleção mais fraca e parca em recursos do torneio.

Daí que, se esquecermos os italianos desta conversa de títulos, vitórias e superioridade, a Irlanda tem o pior registo entre as nações que, a cada ano, são candidatas à conquista do torneio. E vencer os cinco jogos que realizam no Seis Nações é um feito que os irlandeses apenas lograram duas vezes, em 1948 e 2009. A Escócia tem três Grand Slams, a França conta com nove, Gales vai com 11 e a Inglaterra conta 13 e foi a última seleção a consegui-lo, em 2016.

Os 15 ingleses até há bem pouco tempo confiantes, destemidos, mais do que intensos e pouco dados a erros são os únicos corpos que restam no caminho dos ingleses. Em Twickenham, no maior estádio do râguebi britânico, a Irlanda vai jogar para tentar repetir o que tipos como Ronan O’Gara, Paul O’Connell ou Brian O’Driscoll, lendas mundiais, alcançaram há nove anos.

Jogadores titulados, que cresciam nos momentos de pressão e todos convocados para digressões dos British and Irish Lions (a seleção britânica e irlandesa que, a cada quatro anos, visita um país do hemisfério sul). À semelhança de Conor Murray e Jonathan Sexton, o formação e o abertura, talvez os mais reconhecidos e elogiados irlandeses do momento. “Tendo em conta apenas resultados e exibições, é justo colocá-los como lendas”, disse Joe Schmidt, o neozelandês que, desde 2013, é o selecionador da Irlanda, sobre a dupla de médios.

Nenhum fez parte do Grand Slam de 2009, ao contrário do arrière Rob Kearney ou do talonador e capitão Rory Best, ambos trintões.

Brendan Moran

Mas O’Murray e Sexton têm filtrado a bola e o jogo ofensivo da seleção do trevo durante grande parte desta década, a um nível crescente que já fez abrir várias bocas para os elogiarem - e compararem aos supremos provedores do râguebi, que vestem de negro e venceram os últimos dois campeonatos do mundo. “Jogar a 9 e a 10 atrás de um pack de avançados neozelandês é mais do que estar sentado no sofá, é como ir num coche de luxo. Aaron Smith e Beauden Barrett [formação e abertura da Nova Zelândia] são soberbos, mas o Murray e o Sexton têm de controlar muitos tipos de jogo diferentes, e muitas vezes em contrapé”, defendeu Matt Dawson, antigo e campeão do mundo com a Inglaterra, em 2007, à BBC.

Eles parecem entender-se telepaticamente, a bola a ir das mãos de um às do outro sem trocas de olhares pelo meio, os pés de ambos são eficazes a explorarem qualquer área do campo.

Mesmo que, falando em personalidades, não pudessem ser mais distintos: Murray, diz-se, é o brincalhão e responsável pela galhofa no balneário da seleção, tipo que até já queimou uma mala de roupa do seu amigo abertura e a pôs a boiar num rio; Sexton é alguém exigente, que puxa ao máximo por quem tem ao lado, ao ponto de discutir, um feitio difícil que faz por cobrar o melhor que cada jogador pode dar.

Eles e os restantes 13 irlandeses que costumam partilhar com quem costumam partilhar o jogo entre os postes já levaram o país ao segundo lugar do ranking da World Rugby, que é mais uma liderança das nações mortais do que ser o primeiro dos últimos - porque quem está em primeiro, claro, é a imperturbável Nova Zelândia.

A Irlanda está à frente da Inglaterra, a até há pouco tempo espantosa e, julgava-se, imparável Inglaterra de Eddie Jones. O australiano pegou na equipa moribunda após o Mundial de 2015, injetou-lhe confiança, intensidade em tudo e dinamismo no jogo e ganhou os últimos dois torneios das Seis Nações. Pensava-se que manteria o embalo até daqui a um ano, para o Campeonato do Mundo do Japão, mas perdeu com a Escócia e a França, entre soluços e erros que já se julgava serem coisas do passado.

Para juntar ao dissabor de falhar a conquista de um terceiro torneio consecutivo, e remexer ao sabor da polémica, alguém recordou, oportunamente, um discurso que Eddie Jones proferiu a julho do ano passado, num evento da Fuso, empresa associado à Mitsubishi, que patrocina a seleção inglesa. “Já jogámos 23 encontros e só perdemos um, contra a escumalha dos irlandeses”, disse, referindo-se à derrota em Dublin, no Seis Nações de 2017, classificando ainda os galeses como vindos "de um pequeno sítio de merda que tem três milhões de pessoas".

O selecionador inglês pediu desculpas esta semana pelas palavras "indesculpáveis" que proferiu, entre as quais, na altura, incluiu esta frase - "Não se preocupem, vamos defrontar os irlandeses no próximo ano [2018], vamos apanhá-los" -, como quem dizia que iam vingar o resultado. Mesmo que o encontro seja em Twickenham, a casa do râguebi inglês, à pinha de ingleses, a cantarem o "Swing Low, Sweet Chariot" (o bonito e típico cântico que os seus adeptos sempre entoam), será mais provável que aconteça o contrário.

Que a Irlanda ganhe no sítio onde mais possa doer à Inglaterra e garante o seu terceiro Grand Slam no torneio das Seis Nações. E, no meio disso, acrescente mais uma razão para celebrar com fartura o Saint Patrick's Day.

Jogos da última jornada do torneio das Seis Nações:

Itália-Escócia (12h30, Sport TV4)
Inglaterra-Irlanda (14h45, Sport TV4)
País de Gales-França (17h, Sport TV4)