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Adeus, homem que correu contra uma chita (e um avião) e que leva com ele o recorde de ensaios em Mundiais

Sentiu o momento a chegar e "convidou-o para um copo". Foi assim que Bryan Habana, aos 34 anos, anunciou a retirada do râguebi, bem-disposto, humilde e com piada, tal como se comportou nos campos onde foi um dos pontas mais rápidos de sempre e conseguiu acabar como o jogador que mais ensaios (15) marcou em Campeonatos do Mundo de râguebi, apesar de os pais terem pensado no Manchester United e em futebolistas que lá jogavam quando ele nasceu

Diogo Pombo

Jan Hendrik Kruger

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O que acontece quando colocas o mamífero terrestre mais rápido contra o jogador de râguebi mais veloz do mundo, na derradeira corrida contra o tempo?

Bom, questionando desta forma, como o anúncio o fez, no sentido literal, talvez acontecesse que a chita o visse como uma espécie de jantar parecido com um antílope, embora bípede e mais musculado, e o apanhasse num ápice. No lado figurativo, mas que, há uns anos, se tornou real, aconteceu que um jogador de râguebi partiu meio caminho à frente de uma chita domada, treinada e a perseguir um coelho morto, quando se deu o tiro de partida de uma corrida de 100 metros. O animal ganhou, o homem perdeu, mas criou-se um anúncio para a preservação desta espécie com uma cara conhecida.

A de Bryan Habana, ainda novo e no expoente da sua popularidade, vestido como um sprinter e com chuteiras nos pés. Ele já era o jogador pelo qual o râguebi há tanto ansiara, desde que os rins do bruto, animalesco, monstruoso e, juntando tudo em campo, espetacular Jonah Lomu, o tiraram do jogo. Bryan possuía uma mistura parecida de velocidade e explosão com uma bola oval nas mãos que, mesmo não sendo tão vistoso, lhe davam uma capacidade inata de fugir a adversários e correr mais do que eles até à área de ensaio.

Sendo descontraído e bem-disposto no trato, o râguebi, órfão de uma superestrela desde que vibrara com a primeira que teve, na figura de Lomu, foi puxando por este sul-africano. Levou a sensação que Habana já causara no seu país até Twickenham, estádio da Inglaterra, onde ele se estreou pela seleção com um ensaio na primeira vez que tocou na bola. Tinha 21 anos.

Não particularmente alto (1,80m), compensava-o com os 90 e muitos quilos que secou com músculo, sortudo pela genética que diz ter herdado da mãe, no seu tempo uma jogadora de hóquei. Tão dotado e singular no físico que Bryan Habana destacou-se entre os pontas que são como catapultas de ensaios: ele não era só rápido, era inigualável na velocidade; não apenas imprevisível na destreza, mas imparável com espaço e no um para um.

A reputação de Habana, a par do seu potencial mediatizável, explodiram em 2007, quando venceu o Mundial com a África do Sul - e a forma como o fez. Marcou oito ensaios, igualando o recorde para uma edição da prova, que pertencia a Lomu. O incrível e espetacular springbok (alcunha dos internacionais sul-africanos) tornar-se-ia, de vez, um símbolo do râguebi ao ganhar, também esse ano, o prémio de melhor jogador do mundo para a International Rugby Board, hoje World Rugby.

Bryan continuou a viver à ponta do campo, os rabos nas bancadas dos estádios a erguerem-se das cadeiras, quando a bola lhe chegava às mãos, a personificação do que acontece nas raríssimas vezes em que, no râguebi, um tipo ser tão fisicamente superior aos outros. Jogou em quatro equipas da África do Sul, venceu duas vezes o Super Rugby (uma espécie de Liga dos Campeões com os melhores clubes do hemisfério sul), mudando-se para o Toulon, em França, em 2013, quando a idade e o corpo fizeram a cabeça pensar no dinheiro que, no râguebi, não é assim tanto.

Gallo Images

Está na Europa desde então, a gerir o pôr-do-sol da carreira, mais do que viajado e experimentado.

Tem um título de campeão europeu de clubes, o recorde de mais ensaios (15) marcados em Mundiais, também a meias com o neozelandês que vocês sabem. Jogou em três edições (2007, 2011 e 2015), continuou a ir à seleção até ao ano passado. E acaba por ser o mais perto que uma África do Sul, ainda racial e segregada, teve de ver um jogador negro a capitanear os springboks (foi nomeado vice-capitão). Irónico, porque Bryan Habana ficará como um dos melhores e mais populares jogadores da história, mas não era suposto.

Ele já tinha 11 anos quando o pai, Bernie, enchido pela esperança igualitária de Nelson Mandela, recém-eleito livremente num país historicamente opressor, deixou o filho faltar à escola, pela primeira vez. Bryan gostava de futebol, críquete e wrestling, não ligava ao râguebi, modalidade dos brancos sul-africanos, mas foi posto num carro e ambos conduziram pelos quase 3.000 quilómetros que há entre Joanesburgo e a Cidade do Cabo. Iam para assistirem ao primeiro jogo da África do Sul no Campeonato do Mundo, em 1995.

Vencido o encontro, um tipo afrikaans levantou-se e deu “um grande abraço” o pai de Habana. “Toda essa experiência, faltar à escola pela primeira vez, a roadtrip de dois dias com boleias dadas a pessoas e ver homens feitos chorarem com as cores da nova bandeira sul-africana pintadas na cara…”, retratou, ao "The Guardian", ao falar do dia em que o râguebi o agarrou, no tempo em que a segregação no desporto do país estava a desmembrar-se. Isto num país onde a desumanidade conjunta, antes de 1995, obrigava alguém de pele negra ter de ficar numa jaula causa desejasse assistir a um jogo de râguebi de brancos, no estádio.

Bryan era negro, mas nascido no berço de uma família de classe média, único com esse tom de pele no colégio privado onde estudou. Deixou-se levar pelo râguebi que, à primeira amostra, lhe mostrou Chester Williams como o único jogador de cor na seleção vencedor do Mundial que Mandela tanto valorizava para unir uma nação. “Sou sul-africano, não sou uma pessoa de cor, não sou negro. Mesmo que a cor da minha pele transmita algo a certas pessoas, para mim, sou sul-africano. Não compreendo o negro”, explicou.

Não era mesmo suposto, de todo, que fosse o râguebi a causa das perguntas que lhe pediram este tipo de resposta. Os pais de Bryan Gary Habana deram-lhe o primeiro e o segundo nomes pela adoração a Bryan Robson e Gary Bailey, dois antigos futebolistas do Manchester United. Nem expectável era que se tornasse na locomotiva que terminará a carreira como o segundo melhor marcador de ensaios (67) a nível internacional, à ponta, pois começou a jogar, em miúdo, no centro de tudo, como um médio de formação.

Bryan Habana chegou a correr os 100 metros em 10.2 segundos e até à adolescência dos 16 ou 17 anos era “sempre o miúdo mais pequeno da turma”. Mas conhecêmo-lo, e despedimo-nos enquanto ele se despede do râguebi, convidando a reforma "para tomar um copo", sabendo que era o melhor e mais rápido garante de ensaios do râguebi moderno e corredor contra chitas nas horas vagas. E Airbus A380, porque também chegou a acontecer - com a diferença de que, nesse caso, o sul-africano ganhava.